O que já se sabe sobre os Papéis do Panamá

É a maior fuga de informação de sempre, em volume, e mostra como ricos e poderosos usam os paraísos fiscais para esconderem fortunas

Os Papéis do Panamá são já considerados a maior fuga de informação de sempre, abrangendo 2,6 terabytes de informação. Comparativamente, os dados divulgados em 2010 pelo Wikileaks resumiam-se a 1,7 gigabytes.

O que são?

Os Papéis do Panamá referem-se a mais de 11,5 milhões de ficheiros, retirados dos registos da Mossack Fonseca - a quarta maior empresa de advocacia do mundo na área das off-shores. Foram entregues por uma fonte anónima ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que optou por partilhar a informação com a organização The International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ).

A quem se referem?

Os documentos mostram como ricos e poderosos de todo o mundo aproveitam os paraísos fiscais para esconderem as suas fortunas. A lista de nomes direta ou indiretamente implicados é enorme, incluindo 143 políticos, dos quais doze são líderes nos seus países.

O Presidente russo Vladimir Putin é o nome mais sonante numa lista de governantes que inclui o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko; o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Shariff e o primeiro-ministro da Islândia, Sigmundur Gunnlaugsson. No desporto, Lionel Messi e vários executivos da FIFA aparecem entre os citados. Note-se que nem todos os que recorreram a estes "paraísos fiscais" terão necessariamente cometido ilegalidades, nomeadamente à luz da legislação dos seus países de origem. Vários dos visados já vieram a público defender a sua inocência e, em alguns casos, ameaçar processar quem os implicou no escândalo.

Como se movia o capital?

De acordo com dados citados pelo jornal britânico The Guardian, a Mossack Fonseca terá ligações a mais de 200 mil empresas registadas em paraísos fiscais. As Ilhas Virgens Britânicas são de longe o local mais popular para a criação das contas bancárias destas entidades (mais de 100 mil empresas), seguindo-se o Panamá, as Seychelles e as Bahamas.

A firma de advocacia não lidaria diretamente com os proprietários das empresas. Em vez disso, as operações seriam geridas através de uma outra rede, de intermediários, incluindo fundos de investimento, bancos, contabilistas e outras firmas de advocacia, que lhe transmitiam as instruções dos seus clientes. A maioria destes intermediários identificados é da Suíça ou de Hong Kong, seguindo-se o Panamá, o Reino Unido, Jersey, Reino Unido e Luxemburgo.

Os principais beneficiários - ou seja: os proprietários ocultos dos bens - são sobretudo asiáticos. De acordo com uma amostra de 13 mil nomes, o The Guardian coloca a China continental em primeiro lugar, logo seguida de Hong Kong. Na Europa, as primeiras posições são ocupadas por russos, britânicos e suíços.

Quanto dinheiro passou por este circuito?

Nesta fase é difícil fazer estimativas que se possam considerar credíveis. Só em relação a Vladimir Putin têm sido referidas verbas próximas dos mil milhões de euros.

Já há reações?

A investigação desencadeou já crises políticas, em alguns países, e noutros, a promessa de processos judiciais. O primeiro-ministro islandês, Sigmundur David Gunnlaugsson, que terá criado com a mulher uma sociedade nas Ilhas Virgens britânicas para esconder milhões de dólares, vai enfrentar esta semana uma manifestação em Reiquejavique e uma moção de censura no parlamento.

A família do chefe do governo paquistanês, Nawaz Sharif, também associada ao escândalo, garantiu não ter cometido qualquer ilegalidade, ao colocar os seus bens numa empresa 'offshore'.

O presidente francês, François Hollande, assegurou que os Papéis do Panamá vão resultar, em França, em inquéritos fiscais e "processos judiciários". Ao mesmo tempo, Hollande agradeceu as novas "receitas fiscais" que estas revelações vão originar. O programa 'Cash Investigation", que será difundido na terça-feira na cadeia francesa France 2, promete divulgar informações sobre o antigo ministro Jérôme Cahuzac, o vice-presidente da câmara do partido Os Republicanos (LR) de Levallois-Perret (periferia parisiense) Patrick Balkany, o empresário Patrick Drahi, mas também sobre as práticas do banco Société Générale, que afetarão um milhar de franceses.

Para a firma de advogados Mossack Fonseca, a publicação dos documentos é "um crime e um ataque" contra o Panamá.

O governo panamiano garantiu que vai "cooperar vigorosamente" com a justiça em caso de abertura de processo judiciário.

Com Lusa

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