Nyusi, o renovado presidente sem patente militar mas com discurso de paz

Líder da Frelimo tomou posse para o segundo mandato, após ser reeleito à primeira volta, com o compromisso de ser "o presidente de todos os moçambicanos".

Filipe Nyusi tomou esta quarta-feira posse como o único chefe de Estado moçambicano reeleito que não teve participação direta na luta de libertação nacional e sem patente militar, mas que fez da conquista da paz um dos seus principais objetivos.

O líder da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) foi reeleito à primeira volta para um segundo mandato, com 73% dos votos, e o seu partido teve uma maioria superior a dois terços do parlamento.

Os resultados foram contestados pela oposição e vários observadores apontam irregularidades, mas o líder da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) assume agora um mandato reforçado, apesar da crise económica e dos problemas financeiros do país.

"Há cinco anos, numa cerimónia como esta, anunciei que seria o presidente de todos os moçambicanos", lembrou Nyusi no discurso de tomada de posse, na praça da Independência, renovando essa promessa para o segundo mandato e reiterando que a paz será a sua "prioridade absoluta".

"No mandato que agora começa, continuaremos a apostar na preservação da paz, como condição indispensável do desenvolvimento, continuaremos, nem que isso nos custe a vida, a defender e promover a paz", insistiu Nyusi.

Filipe Nyusi prometeu estimular o diálogo franco e aberto com todas as forças políticas e sociais, como mecanismo privilegiado de preservação e resolução de conflitos e promoção da coesão nacional.

"A nossa força vem da nossa diversidade e da nossa riqueza social e cultural, continuaremos a implementar ações que visam a valorização da nossa diversidade etnoliguística, religiosa e racial, como nação una e indivisível", assinalou, num discurso várias vezes aplaudido pelo público presente.

O chefe de Estado moçambicano defendeu que a diferença de opinião é um valor que deve ser estimulado, porque é gerador de alternativas na solução dos problemas do país.

O aprofundamento das instituições democráticas e a consolidação do processo de descentralização serão também os pilares do novo ciclo governativo, apontou o chefe de Estado.

"Não haverá inclusão nem participação dos cidadãos nos processos da governação, se cada um dos moçambicanos não tiver as mesmas oportunidades de acesso aos serviços públicos, à justiça e aos recursos nacionais", destacou.

Filipe Nyusi abordou o tema da corrupção, assinalando que o seu Governo vai apostar no combate a este mal, mas repudiando a "caça às bruxas".

Perfil

Nyusi chegou à Presidência da República com as credenciais de engenheiro -- que levou, como presidente do clube, o modesto Ferroviário de Nampula a campeão nacional de futebol moçambicano --, e com uma passagem fugaz pelo cargo de ministro da Defesa, sob a presidência de Armando Guebuza.

O seu Governo teve de lidar com uma rebelião militar movida pela Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), devido a diferendos sobre os resultados eleitorais de 2014, e com o corte de ajuda financeira ao Orçamento do Estado (OE), na sequência do caso das dívidas ocultas do Estado.

"Farei de tudo para que o país tenha paz", disse, amiúde, expondo-se a situações vistas como "contranatura" no seu partido, como quando foi procurar o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, nas matas da Gorongosa para conversar sobre a paz, em 2017.

Para evitar que a aproximação fosse torpedeada por membros radicais da Frelimo, a deslocação à Gorongosa foi ultrassecreta e só foi comunicada a alguns jornalistas no dia em que aconteceu.

No plano internacional, entendeu rapidamente que tinha de começar a ouvir o Fundo Monetário Internacional (FMI), para que o país saísse da situação de quase "pária" a que foi votado nos mercados internacionais pelo incumprimento perante credores das dívidas não declaradas.

Sempre destacou o facto de o seu Governo conseguir pagar salários mensalmente perante uma situação difícil de "sanções e de crise" impostas pelos doadores e pela conjuntura.

Lembrando um estilo muito peculiar do primeiro presidente moçambicano, Samora Machel, Filipe Nyusi não se coíbe de dirigir reprimendas públicas a figuras do Estado moçambicano.

O caráter intempestivo de Nyusi já se tinha revelado em autênticas provas orais a que submete publicamente dirigentes distritais sobre dados de governação local nas visitas presidenciais que realiza pelo país.

Amante e conhecedor da Matemática por força da sua formação de engenheiro e professor na Universidade Pedagógica, as perguntas sobre estatísticas e números que Filipe Nyusi levanta costumam causar autêntico pavor aos funcionários do Estado.

O "bailarino", como é também tratado em círculos mais próximos, por ser um amante da dança, é ainda conhecido pelo relativo desapego ao protocolo do Estado.

No início do mandato, sentou-se várias vezes no chão com crianças em salas de aulas sem carteira para se solidarizar com os alunos que estudam sem grandes condições, dando depois algumas lições de Matemática.

Participou nalgumas partidas de futebol de caráter recreativo pela equipa do Governo e fez alguns minutos em jogos inaugurais de campeonatos escolares.

Descrito como um homem de família, brincalhão e de sorriso fácil, Filipe Nyusi, 55 anos, nasceu em Namua, distrito de Mueda, província de Cabo Delgado, é casado e pai de quatro filhos.

Cerimónia com três mil convidados

Na cerimónia de tomada de posse, na praça da Independência, o chefe de Estado fez a leitura do juramento com a mão direita sobre a Constituição, perante a presidente do Conselho Constitucional, Lúcia Ribeiro.

Cerca de três mil pessoas foram convidadas para a cerimónia, segundo a organização, num espaço vedado dominado pela estátua de Samora Machel.

Entre os convidados estão dez chefes de Estado, incluindo o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, que iniciou na segunda-feira uma visita de cinco dias a Moçambique. Também presente esteve o chefe da diplomacia português, Augusto Santos Silva, que desvalorizou a ausência de outros líderes europeus. "Estando Portugal, representamos muito bem a União Europeia", disse o ministro.

Outras pessoas juntam-se fora da vedação, num evento transmitido em direto pelos principais canais de televisão do país.

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