"Nós gregos ficámos desiludidos com os acontecimentos e com Tsipras"

Cartoonista Yannis Ioannou esteve em Portugal para o Amadora BD, onde falou ao DN sobre a crise grega

Dos últimos meses de crise grega, duas personagens sobretudo apaixonaram o mundo - Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis. Qual dos dois é mais difícil de desenhar?

Bom, Varoufakis já não está na cena política direta, mas era muito interessante de desenhar. Como caricatura. Tsipras é mais difícil, pois é mais jovem, mais bonito. Os homens ou mulheres bonitos são muito difíceis de desenhar em caricatura. Mas Tsipras tem características... não consigo explicar.

A crise grega foi uma inspiração sem fim para os cartoonistas?

Todas as coisas que chocam a sociedade são um assunto para os cartoonistas ou para os colunistas. É uma alegria para os jornais.

Se tivesse de escolher um momento marcante da crise, qual seria?

O momento [nas eleições de janeiro] em que saiu um regime velho, que não era progressista, era até contra o progresso. Partidos que colaboraram com os poderes europeus que queriam depreciar a Grécia.

A sua exposição aqui em Portugal no Amadora BD chamava-se OXI...

Foi a organização que escolheu o nome. Mas acho que o oxi no referendo nos projetou na Europa. Oxi significa não em grego e foi a primeira vez que um país em crise ousava dizer não à Europa. Depois não fez nada... Mas o povo teve a oportunidade de dizer não.

E votou não no referendo?

Sim, eu e outros 60% dos eleitores gregos.

E como viu o que aconteceu a seguir?

Quando votámos não, sabíamos que não havia muita esperança de que as coisas mudassem. Mas acreditámos que podiam tomar-se decisões mais sociais na Europa. O resultado foi que a UE fez como se não tivesse acontecido nada. Colocaram-nos contra a parede.

Ficou desiludido com a reviravolta do governo? Ou não tinha outra hipótese?

Mesmo que tivesse escolha, há uma extrema-esquerda do seu partido que diz que tinha... mas pessoalmente acho que não tinha. O que não quer dizer que não tenha ficado desiludido. Ficámos desiludidos com os acontecimentos e com o próprio Tsipras.

Mas os gregos voltaram a votar no Syriza nas eleições de 20 de setembro...

Voltaram a elegê-lo. Não dá para explicar. Dizes que não, ele aplaude que tenhas dito não, mas transforma-o num sim. Estás num impasse em que não podes fazer nada e o outro também não pode fazer nada.

Podiam ter escolhido a Nova Democracia de Vangelis Meimarakis... O que acha dele?

É muito fácil de desenhar, com o bigode! Penso que ele vai assumir as rédeas da oposição, porque tem ar de pai de família. Mas não é nada simpático. O problema é que na Grécia a mentalidade favorece pessoas de quem não gosto.

Uma das críticas ao governo Tsipras é ter poucas mulheres. Porquê?

Na Grécia ainda há a ideia de que o homem é que tem de governar. As mulheres que chegam ao topo - por exemplo [a ex-ministra] Dora Bakoyannis - vêm de famílias políticas. Ela é filha do [ex--primeiro-ministro] Konstantinos Mitsotakis. Há uma política das famílias ou, como prefiro dizer, uma máfia política.

Está a dizer que a alternativa ao Syriza não era melhor?

Não há alternativas como se estivéssemos a olhar para as prateleiras do supermercado. A esquerda pensa que é o povo que cria as alternativas. Mas o povo está disperso, não pode fazer nada. Então esperamos que chegue alguém e se apresente como alternativa. Num momento chama-se Tsipras, no momento seguinte já não. Espero que haja alternativas. Não é que as veja, mas acredito que há. Tenho um filho a quem pergunto porque tem esperança e ele responde "porque sou jovem, não posso fazer mais nada".

O seu filho vive na Grécia?

Sim, não é fácil sair do país. Nesta época em que não há esperança política, os jovens de esquerda - alguns nem querem dizer que são de esquerda, recusam a etiqueta. Eu que sou velho penso na esquerda. Eles não, usam outras palavras Mas tentam fazer coisas que façam a diferença. Estão envolvidos na solidariedade. Primeiro para ajudar os gregos que sofreram com a crise e agora os refugiados.

Falava-se da Grécia por causa da crise financeira, agora por causa dos refugiados. É um assunto que inspira o seu trabalho?

Não o vivi. Mas tento compreender como é que estas pessoas se sentem, como vivem. Ainda não fiz nada sobre os refugiados. Há coisas nas quais não posso tocar.

Desenhou muito Merkel. O que pensa dela?

Não é só Angela Merkel. Ela talvez seja a que tem mais projeção agora, mas é a Alemanha que tem poder. Hoje é Merkel, mas se fosse Schäuble era igual. Não é Merkel quem manda na Europa agora, é a Alemanha.

Conhece a política portuguesa?

Pouco. Não sabia nada, mas nos últimos dias chegou aos jornais gregos. Na Grécia fala-se sempre que são um país como nós.

E com que ideia ficou do que aconteceu depois das eleições de outubro em Portugal?

Não sei bem. Fala-se em socialistas, em esquerda mas os nomes não querem dizer nada. Na Grécia, por exemplo, temos uma esquerda comunista que está à espera sentada que o capitalismo caia por si.

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