"Não vejo que Pablo Iglesias tenha agora poder para pressionar Pedro Sánchez"

Carlos Ruiz Mateos, analista e diretor de Assuntos Públicos da consultora Llorente y Cuenca, fala ao DN sobre os resultados das eleições autárquicas, regionais e europeias deste domingo em Espanha

No domingo os espanhóis, além das eleições europeias, ganhas pelo PSOE, votaram também em eleições autárquicas e nalgumas comunidades autonómicas em eleições regionais.

A nível das locais destaca-se a perda de Manuela Carmena e Ada Colau nas câmaras de Madrid e de Barcelona. No primeiro caso, o Más Madrid de Carmena foi o mais votado, mas sem maioria. Precisava do apoio do PSOE. Mas esse também não foi suficiente. PP, Ciudadanos e Vox voltaram a juntar-se e asseguraram a liderança da autarquia da capital. A mesma aliança assegurou o domínio do governo autónomo da Comunidade de Madrid, apesar de o partido mais votado ter sido o PSOE, embora sem maioria. Pablo Casado, líder do PP, surgiu sorridente. Embora deva o sorriso ao Ciudadanos e ao Vox.

Em Barcelona, Ada Colau, do Bercelona en Comú, ficou em segundo lugar, atrás da Esquerda Republicana da Catalunha. Os independentistas da ERC, cujo líder, Oriol Junqueras, se encontra preso por causa do referendo catalão, já tinham sido o partido mais votado na Catalunha nas legislativas de 28 de abril. Carlos Ruiz Mateos, analista e diretor de Assuntos Públicos da consultora Llorente y Cuenca, fala ao DN sobre os resultados em Espanha.

A vitória das direitas em Madrid, na Câmara e na Comunidade, ensombra a conquista socialista em toda Espanha?

Normalmente vemos os resultados a curto prazo. Tendo em conta a expectativa de débacle que tinha o PP depois das eleições legislativas, podemos imaginar que, com Madrid, salva os resultados. Mas os dados não são nada positivos. O PP vai ficar com a Câmara de Madrid mas perdeu 200 mil votos em relação a 2015, quando não governou, e na região perdeu 300 mil votos. Versus as expetativas podes falar de ilusão no PP de novo mas é uma amarga vitória. Das eleições nas 12 Comunidades (mais Ceuta e Melilla) o PP só ganhou como força mais votada em Múrcia, Ceuta e Melilla e em Navarra porque estava numa coligação. Ganhar a Comunidade de Madrid e a Câmara é muito suculento mas o resultado é muito mau. E ficam também salvos porque o resultado do Ciudadanos foi pior do que esperado. A vitória do PSOE é incontestável. Não saiu perfeito para eles mas dominaram.

Perderam os candidatos que eram apostas pessoais de Pedro Sánchez?

Eram apostas pessoais, da mesma foram que também o eram os candidatos que escolheu Pablo Casado para Madrid. Mas não supus que seria um grande desgaste para Pedro Sánchez apostar em Pepu Hernández em Madrid, que correu mal, porque ninguém esperava que ele tivesse um grande resultado.

A vitória do PP em Madrid é especialmente importante para Pablo Casado, que, neste momento, tem uma liderança muito questionada.

Sim, ganha uma certa margem. Mas imaginemos que se tivesse perdido em Madrid, mesmo assim não acho que Casado fosse apresentar a sua demissão. Agora tem uma base mais potente para trabalhar. Mas a aposta de Casado é a longo prazo.

Em Barcelona os resultados foram muito equilibrados mas perdeu Ada Colau. Os eleitores castigaram as Câmaras dominadas por independentes?

Houve poucos votos de diferença e podíamos estar a falar de uma situação muito diferente. A verdade é que as chamadas câmaras da mudança não descolaram. Independentemente da boa ou má gestão de presidentes das câmaras municipais como Carmena ou Colau, uma coisa que teve muita influência foi a queda do Podemos. Quando era importante o voto útil os eleitores de esquerda votaram no PSOE.

O que aconteceu com o Podemos? Está cada vez a perder mais apoio...

Não se deve a uma só explicação. É verdade que os partidos de esquerda tendem a debater em público as suas diferenças e isso cria muito desgaste no eleitorado e é algo que prejudica muito. Mas a culpa não foi toda do Podemos. Os eleitores frustrados que votaram no Podemos em 2015 e 2016 nas eleições gerais eram do PSOE e agora os socialistas recuperaram-nos. Há 14 meses o PSOE era terceira força política em intenções de votos e tudo mudou muito rápido. Em poucos meses converteu-se na primeira força e para isso teve apoio de pessoas que antes votaram no Ciudadanos e no Podemos.

E o Ciudadanos vai dar mais poder ao Partido Popular?

A nível de estratégia o Ciudadanos tem uma situação muito difícil. Vai ter que apoiar o partido que quer eliminar, que a médio prazo quer debilitar e tornar residual. E vai dar-lhe mais poder e dois ou três governos de Comunidades Autónomas. Não me estranharia que o Ciudadanos também apoiasse oo PSOE nalguns lugares e se posicionasse mais ao centro.

O Vox perde votos.

Perderam perto da metade. Só com o facto de ser relevante para ajudar a formar governos faz com que o seu papel fique reforçado. E depois ganhou uma grande relevância mediática. É preocupante porque condiciona muito a governabilidade e vai ter uma posição dura. Será sempre um elemento prejudicial para os outros.

O governo de muitas câmaras e comunidades vai depender de acordos ao mesmo tempo que se deve decidir o governo central. Serão anos de tranquilidade política?

Espero umas semanas de manchetes, com mensagens de um lado para outro. Será uma negociação onde o PSOE vai mandar. Em quase todos os casos há duas possibilidades para criar uma estabilidade. Isto se tirarmos umas semanas mais mexidas, uma vez formado o governo, depois do verão deveríamos ver bastante estabilidade no poder político, sem contar com a Catalunha, claro. PSOE vai articular o governo que ele queira. Fala-se de pessoas próximas do Podemos para integrar o governo mas penso que será algo simbólico. Não vejo que Pablo Iglesias tenha agora poder para pressionar Pedro Sánchez. Os programas dos dois partidos são, em ocasiões, parecidos, com o mesmo foco e diferenças na forma.

Então acha que Pablo Iglesias não será ministro?

Penso que com estes últimos resultados Pablo Iglesias não quer ser ministro.

Espanha, graças às outras eleições, as europeias, teve uma boa taxa participação.

Há pouco tempo dava-se a social-democracia por morta e penso que ainda está muito viva, independentemente da participação. Pode ser preocupante a entrada de partidos eurocéticos, menos do que o esperado. Penso que há recomposição, os europeístas salvaram a situação.

E o PSOE ganha mais umas eleições.

Sim, era o esperado, pelo efeito de arrastamento das legislativas. Foi acertada a aposta dos socialistas de juntar todas as eleições no mesmo dia. E acertaram no cabeça de lista, Josep Borrell, que já foi presidente do Parlamento Europeu, a mais alta instituição europeia. O PSOE quer colocar alguém forte na Europa.

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