Morreu o "bispo vermelho", protagonista da teologia da libertação

Lutou pelos pobres e pelos indígenas, foi preso e ameaçado de morte. O catalão Pedro Casaldáliga morreu aos 92 anos.

Sobreviveu à ditadura e aos latifundiários e resistiu às estruturas conservadoras da Igreja Católica, mas aos 92 anos, enfraquecido por anos de Parkinson, não sobreviveu a problemas respiratórios.

O bispo catalão Pere Casaldáliga, conhecido por Pedro Casaldáliga, bispo do povo ou bispo vermelho, consoante o ponto de vista, foi um defensor dos indígenas da Amazónia e um dos principais representantes da Teologia da Libertação da América Latina.

Para a ex-presidente Dilma Rousseff, ao homenageá-lo no Twitter, "Dom Pedro é símbolo do sonho, da defesa dos direitos do povo brasileiro e dos povos originários da Amazónia".

Rousseff não esqueceu que em 2016, já bastante fragilizado, o bispo emérito escreveu uma carta a defender a presidente quando esta estava a ser alvo do processo que acabou com a sua destituição. Denunciando a tentativa de golpe, apelou para o bom senso dos deputados e senadores. Já então via o que estava em jogo: "Não podemos retroceder nas conquistas democráticas alcançadas."

Também o antigo presidente Lula da Silva reagiu à notícia do desaparecimento de Casaldáliga. "Nossa terra, nosso povo perde hoje um grande defensor e exemplo de vida generosa na luta por um mundo melhor, que nos fará muita falta."

"Muitos Brasis"

Nascido em 1928 em Balsareny, na Catalunha, foi ordenado padre em 1952 e partiu para o Rio de Janeiro em 1968, tendo depois recebido formação em Petrópolis. Como contou em entrevista a Ana Helena Tavares, editora do site Quem tem medo da democracia? (QTMD?), explicou que o curso de língua portuguesa e de história do Brasil e da Igreja no país "foi providencial".

"Na época da ditadura militar se tivéssemos chegado diretamente, da maneira como nós chegámos para São Félix do Araguaia... Nós estaríamos perdidos. Completamente despistados, sem saber da situação verdadeira... As causas da situação. As migrações: por que motivo? A história do país. Que há muitos Brasis...".

Saído em 1968 de uma Espanha sob ditadura, instala-se no Brasil, onde também vai enfrentar o poder discricionário dos latifundiários, da polícia, dos militares e dos políticos, em especial a partir do momento em que se instala em São Félix do Araguaia, no estado de Mato Grosso, onde se tornou o primeiro bispo.

Opositor do regime, dos grandes proprietários de terras e até do Vaticano, defendeu os trabalhadores sem terra e os povos indígenas. "Nesta terra é fácil nascer e morrer, mas é difícil viver", disse o prelado à AFP em 2012, por ocasião do lançamento de uma série televisiva sobre sua vida, Descalço sobre a terra vermelha, do livro homónimo do escritor e jornalista catalão Francesc Escribano.

Certa vez o famoso bispo disse: "Só há dois absolutos: Deus e a fome."

Na referida entrevista à QTMD? Casaldáliga, que não vestia batina, recordou que foi ele quem denunciou na época da ditadura o trabalho escravo existente na região.

Por quatro vezes esteve para ser expulso, viu em 1976 o seu colega, padre João Bosco Burnier ser assassinado ao seu lado pela polícia, esteve preso. "Eu digo sempre que o problema não é ter medo... O problema é ter medo do medo."

Vivendo sob a constante ameaça de assassinos contratados por latifundiários, foi um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indígena Missionário (Cimi), duas organizações-chave na luta pela reforma agrária.

O "bispo vermelho" não acreditava nos méritos do capitalismo. "O capitalismo é o egoísmo coletivo. É a segregação da imensa maioria. É o lucro pelo lucro. É a utilização das pessoas e dos povos ao serviço de um grupo de privilegiados. Quando se trata de um 'capitalismo com rosto humano' está a pedir-se o impossível."

Em 1988, questionado num programa de TV, Roda Viva, que medidas tomaria se fosse nomeado Papa, mostrou o seu sentido de humor: "Nem o Espírito Santo nem os cardeais vão cair nessa."

Em 1998, Pedro Casaldáliga foi chamado a Roma, onde foi submetido a duros interrogatórios do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger, que sete anos depois se tornou no Papa Bento XVI.

Quando tinha 84 anos e já sofria de Parkinson, foi forçado a deixar a modesta casa em São Félix do Araguaia, tendo sido transferido para um lugar não divulgado, por questões de segurança. Motivo: as ameaças de morte dos colonos que se apropriaram das terras dos indígenas Xavante, que Casaldáliga defendia publicamente.

No final de julho, assinou com 150 outros bispos brasileiros uma crítica aberta ao presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, criticandoa a "incompetência" e "incapacidade" para administrar a crise de saúde causada pela pandemia, que deixou quase 100 mil mortos no Brasil, incluindo várias centenas de indígenas.

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