Mary Anning, a inglesa do século XIX que se tornou caçadora de excrementos do jurássico

Anning foi tida pela Royal Society como uma das dez mulheres britânicas que mais influenciaram a história e a ciência

O século XIX inglês fervilhava com as descobertas de fósseis pré-históricos. O mundo somava centenas de milhões de anos à sua história com um passado povoado de "monstros". Nas arribas de Lyme Regis, no sudoeste inglês, uma incansável paleontóloga amadora trilhou durante décadas as arribas jurássicas. Mary Anning contribuiu para enriquecer a ciência da época. Perspicaz, percebeu o papel dos coprólitos, fezes fossilizadas, para desvendar os segredos do passado. Mas Mary vivia numa sociedade onde a ciência era domínio dos homens.

Em 2007, uma relojoeira suíça, a ArtyA, alimentou a polémica ao lançar no mercado uma peça de coleção com aço do início do século XX. Na sua estrutura, o "Titanic-DNA" integra partes do paquete que escreveu uma história de tragédia em 1912, repousando desde então a mais de 3800 metros de profundidade, no Atlântico, a sudeste da Terra Nova. Não obstante o mal-estar gerado, o lançamento do relógio foi um sucesso, com exemplares a orçarem as centenas de milhares de euros.

A ArtyA haveria de reiterar na excentricidade das suas coleções, uma delas num mostrador com pó lunar, outra, em 2010, recorrendo a matéria-prima com mais de cem milhões de anos. Quando os proprietários do "ArtyA Coprolite" miram o mostrador da sua peça de coleção provavelmente não saberão, mas estabelecem ligação direta com o produto da descoberta de uma discreta jovem inglesa do século XIX.

Mary Anning, negociadora e caçadora de fósseis, foi tida pela Royal Society como uma das dez mulheres britânicas que mais influenciaram a história e a ciência. Num tempo em que ser mulher e dissidente religiosa, oferecia argumentos que serviam de exclusão na elitista comunidade científica, nomeadamente na Sociedade Geológica de Londres, Mary destacou-se pelas suas descobertas nas perigosas falésias de Lyme Regis, no sudoeste inglês.

Numa carreira com mais de 30 anos, que a morte interrompeu em 1847, Mary tirou algumas das raras "Pedras de Bezoar" do mundo dos ingredientes para poções mágicas, para as inscrever nos recentes estudos paleontológicos. Anning extraía das encostas sujeitas à erosão da terra onde nascera em 1799, centenas de coprólitos, fezes fossilizadas que viajaram milhões de anos à boleia dos caprichos da geologia. A mesma matéria-prima que dois séculos depois orna os pulsos de quem está disposto a despender alguns milhares de euros em relógios exclusivos.

Uma extravagância que não admiraria a época da jovem Mary, quando museus e colecionadores privados demandavam com avidez o espanto que os registos fósseis acrescentavam ao conhecimento de um mundo que adicionava centenas de milhões de anos à sua antiguidade.

Mary trazia no registo familiar a propensão pela exploração de fósseis. O pai, carpinteiro, trilhava quilómetros nas instáveis arribas locais. Escavava-as e extraía dos registos de calcário e xisto do antiquíssimo mar Jurássico as marcas de criaturas que, 200 milhões de anos antes, pululavam nas então águas tépidas da região. "Cobras de pedra", "dedos do diabo", como eram apelidados alguns dos fósseis encontrados, alimentavam o gosto de muitos visitantes que demandavam a soalheira Lyme Regis.

Mary, hábil exploradora do mundo Jurássico, espantara a comunidade científica. Com 12 anos, a par do irmão Joseph, entregava à paleontologia o esqueleto fossilizado do Ictiossauro (juntar-lhe-ia mais tarde, entre outros, o esqueleto de um Plesiosaurus). A ciência conhecia um novo "monstro" marinho carnívoro. Este, à boleia de 23 libras, preço pelo qual foi adquirido à família de Anning, viajaria para Londres, capital inglesa, para exibição pública. Mais tarde, em 1819, seria vendido por 45 libras ao Museu Britânico.

Perspicaz, Mary Anning não se detinha no óbvio. Inquiria sobre as pedras fossilizadas incrustadas de pequenos ossos, escamas e dentes, que se aconchegavam junto às costelas e pélvis das ossadas pré-históricas que escavava. Com o apoio do colecionador William Bullock, a eterna candidata a paleontóloga, oferecia à ciência a matéria-prima que permitiria rastrear registos menos óbvios do passado. À boleia dos cropólitos, alguns com mais de 500 milhões de anos, do período Câmbrico, viajavam os indícios sobre a fauna, vegetação, a própria vida bacteriana.

A Anning, considerada nos circuitos geológicos do Reino Unido, da Europa continental e dos Estados Unidos não foram atribuídos créditos públicos. Da filha do carpinteiro de Dorset ficaria para a posteridade um único e discreto artigo científico, publicado no Magazine of Natural History, em 1839.

Sobre Mary escreveria em 1865 o inglês Charles Dickens, autor, entre outras obras de Grandes Esperanças e Oliver Twist. Num extenso artigo que uma pesquisa no motor de pesquisa da Google nos devolve, Dickens recorda-nos Mary Anning, a descobridora de fósseis [Mary Anning, the fossil finder]: "Mary Anning foi mais do que uma mera celebridade de aldeia (...) adquiriu certamente reputação europeia".

Após a morte de Mary, membros da Sociedade Geológica inglesa contribuíram com fundos para um vitral na igreja de Lyme Regis em memória da caçadora de coprólitos. A mesma Mary que nos olha a partir de uma pintura a óleo, com autoria desconhecida, anterior a 1842. Junto à paleontóloga amadora o seu companheiro de expedições, o cão Tray.

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