Lava-Jato completa três anos. O que esperar dos próximos?

O atual governo depende da maior operação policial da história, o futuro presidente do Brasil será quem melhor a conseguir driblar e todos os protagonistas da cena política, económica e judicial estão sob o seu escrutínio. Até quem a conduz, como o juiz Sergio Moro e o Supremo Tribunal Federal

Temer. Gestão de crise atrás de gestão de crise

Não tivesse demitido quatro e aceite a demissão de outro e o número de ministros do governo Temer investigados na Lava-Jato subiria a dez - mais de um terço. Quase todos do núcleo íntimo do presidente. Por isso Temer tem ocupado os seus dias, e vai continuar a ocupá-los, com a gestão das crises que os seus colaboradores (e amigos de décadas) criam. Aliás, como o próprio chefe de Estado foi citado 43 vezes só pelo primeiro de 77 delatores da construtora Odebrecht, especula--se que quando o Supremo levantar o sigilo do processo o seu nome estará entre os investigados. A sobrevivência política do presidente e do seu governo até outubro de 2018 estão pois nas mãos da Lava-Jato.

Lula. Os tribunais são o maior obstáculo até ao Planalto

Temer? Aécio? Alckmin? Marina? Bolsonaro? Ciro? Não: não há político no Brasil que assuste Lula. Consciente de que a sua verve, a sua astúcia, o seu instinto, a sua barba grisalha e a voz enrouquecida pelo tabaco valem votos, o que apavora Lula é a República de Curitiba, como ele chama à Operação Lava-Jato, numa alusão à cidade de onde é comandada. Só mesmo a prisão de Curitiba, onde estão tantos ex-poderosos, pode colocar-se no meio do percurso da suburbana São Bernardo, onde mora, até ao Palácio do Planalto, onde viveu oito anos e aonde quer voltar em 2018. E a Lava-Jato, onde é três vezes réu, não é tudo: ainda é acusado de corrupção noutras duas operações. No próximo ano e meio, vai andar a fazer comícios e a prestar depoimentos.

Dilma. Biografia impecável está sob investigação

Durante o processo de impeachment, os seus defensores concediam que do ponto de vista da gestão económica os cinco anos de Dilma no poder foram ruinosos. Admitiam mesmo que, se parlamentarismo houvesse no Brasil, a ex-presidente mereceria um punhado de moções de rejeição. Em surdina, eram capazes até de considerá-la irascível, teimosa, centralizadora. Mas não permitiam, em hipótese alguma, que a chamassem de desonesta. Agora, na qualidade de investigada na Lava-Jato por ter sido sobejamente citada por delatores da Odebrecht, a ex--presidente lutará nos próximos anos por limpar a sua biografia.

Aécio. Futuro político nas mãos do Supremo

No dia 26 de outubro de 2014 às 19.00 era o presidente do Brasil. Às 20.00, quando todos os votos foram contabilizados, já não. A amargura desse dia, filmada em vídeo no seu quartel-general, foi porém largamente compensada: viu a rival, Dilma, ser derrubada sem precisar de sujar as mãos, quem as sujou foi Eduardo Cunha; e vê o novo governo cumprir, uma por uma, as medidas impopulares que defendeu no seu, derrotado, programa de campanha novamente sem sujar as mãos, quem as suja é Temer. Porque Aécio está então tão tenso? Por causa da Lava-Jato, onde é uma das estrelas da política nacional mais envolvidas, o que pode sujar definitivamente as suas mãos e o seu nome, até no interior do PSDB a que preside.

Bolsonaro. Pode ser um Trump brasileiro

Por incontáveis motivos já amplamente dissecados em milhares de análises mundo fora os políticos tradicionais estão em perda. A maior prova foi a vitória de Donald Trump, nos EUA. Outra, mais próxima, foi a de João Doria, o prefeito de São Paulo que repetiu até à exaustão o slogan de campanha "eu não sou político" para vencer a eleição de goleada. Neste quadro, o capitão do exército, defensor do regime militar e ultradireitista Jair Bolsonaro surge já como segundo classificado nas sondagens. Entre os muitos contras, tem a seu favor uma folha limpa na justiça, tal como o candidato nos seus antípodas políticos Ciro Gomes, sexto nas sondagens. Se a Lava-Jato derrubar Lula, Aécio e companhia, os periféricos podem ter uma oportunidade. Ele mais do que todos.

Moro. Os árbitros não são aplaudidos para sempre

No Carnaval de 2015, ainda gatinhava a Lava-Jato, um folião apareceu mascarado de Moro. "Quem é esse?", perguntou a multidão. Dois anos depois, o jovem juiz que coordena obstinadamente a operação é conhecido no mundo todo. E alvo de culto, imitado, premiado. Talvez por isso a discrição se tenha perdido no caminho: começou por só falar pelos autos, hoje fala pelos cotovelos; apareceu aos risos com Aécio (foto) numa cerimónia pública e divulgou ilegalmente escutas de Dilma e Lula, ato de que se desculparia mais tarde. O PT queixa--se dele como um clube de futebol se queixa da arbitragem. Mas PSDB e PMDB podem ser os próximos, porque para se queixarem de arbitragem aos clubes de futebol basta começarem a perder. O mesmo é válido para os ainda mais falastrões juízes do Supremo Tribunal Federal.

Odebrecht. A dona disto tudo nunca mais será a mesma

O príncipe da construção Marcelo Odebrecht está preso desde junho de 2015. Primeiro disse que não denunciaria ninguém porque não havia ninguém a quem denunciar, depois de se saber que a sua empresa tinha um departamento dedicado à corrupção não só concordou em falar como deu ordens a 77 dos seus ex-subordinados para o acompanharem. O pai, Emílio, confessou que a prática corrupta da Odebrecht vinha de longe, desde o consulado de Norberto, avô de Marcelo. Depois da Lava-Jato, a tóxica relação público-privado nunca mais será a mesma no Brasil. Sobreviverá a Odebrecht a prejuízos astronómicos, processos mundo afora e à imagem de "máquina de corrupção", como definiu a The Economist? A outrora construtora modelo caiu em desgraça - e pensar que era considerada a dona disto tudo.

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