Ken Kollman: "A esperança dos republicanos é de que Trump desapareça ao pôr do Sol"

Diretor do Centro de Estudos Políticos do Instituto de Investigação Social da Universidade do Michigan, Ken Kollman recebe-nos no gabinete com gravuras da Europa, uma herança familiar. O pai, médico e militar, esteve ao serviço na base de Ulm, na Alemanha. Talvez por ter vivido no Velho Continente, este é um dos seus objetos de estudo, além do sistema político e eleitoral dos EUA. Entre as obras de sua autoria, a mais procurada é The American Political System.

Ao fim de um ano de Trump na Casa Branca, parte da Europa continua chocada com a sua falta de credibilidade.

Boa parte da população americana sente o mesmo. Há uma parte substancial do país aterrorizada com Trump. É muito impopular de momento, o que não quer dizer que perderia eleições. Mas não se consegue entendê-lo se o resumirmos a quem se opõe. [Silvio] Berlusconi foi primeiro-ministro durante anos, os italianos faziam piadas sobre ele, não acreditavam nele, mas a oposição estava dividida e era impopular.

Ambos são pragmáticos.

Acho que sim. Donald Trump tem ideias inconsistentes e incompatíveis. Não é conservador nalguns dias, noutros é. Em política, a ideologia é tão importante como a capacidade de formar uma coligação de pessoas que podem não concordar em muitas coisas, que não têm muito em comum, como os bilionários com que Trump fala todos os dias e os nativistas que estão na sua coligação. Não têm muito a dizer uns aos outros, mas sentem que Trump é melhor para eles do que os democratas.

Como define a política de Trump?

Está a empurrar o governo numa direção conservadora. Mas por outro lado não é um defensor do comércio livre, é um protecionista.

Prometeu, por exemplo, a reabertura de fábricas fechadas.

Não é um neoliberal. O neoliberalismo era nuclear no Partido Republicano nos anos de [Ronald] Reagan e dos Bush. Trump está a levar o centro de gravidade do partido para longe do neoliberalismo e, com ele, as trocas comerciais livres, a competição livre e o livre movimento dos trabalhadores. Isso é estranho, tendo em conta que ele não é conservador. Por outro lado, apesar de ninguém acreditar que tenha convicções neste sentido, tem nomeado juízes conservadores em assuntos sociais como os direitos das mulheres, o aborto etc...

Trump tenta ir com a corrente?

Vai para onde estão as oportunidades. As suas intuições sobre como atingir os objetivos, como fazer que aquele círculo eleitoral vote nele, merecem crédito. Outras pessoas fizeram-no bem. Bill Clinton foi um mestre político, Barack Obama também, embora seja a única coisa que tenham em comum, a intuição política.

Essa tal coligação interna que Trump forjou parece-lhe sólida?

O Partido Republicano está em grandes apuros a longo prazo, porque o resultado não será bom de qualquer das formas. Se Trump conseguir trazer o partido na sua direção, a longo prazo é mau. No fim de contas, a verdade sobre as alterações climáticas, os estragos causados pelo protecionismo e por impedir a entrada de migrantes vão rebentar no partido. Será um grande problema estar no lado errado da história. Se Trump acabar queimado, se for destituído ou falhar em toda a linha, então vai ficar como o partido de Trump. A esperança deles é de que Trump saia e de alguma forma desapareça ao pôr do Sol.

Mas a economia está a crescer.

Tal como a economia mundial está a crescer. Pode dar-se crédito a Trump, mas também terá de ser responsabilizado quando a desaceleração chegar.

Qual foi o maior êxito de Trump no primeiro ano na presidência?

Conseguiu nomear conservadores para o Supremo Tribunal, o que é muito importante. Conseguiu aprovar uma reforma fiscal que atingiu alguns objetivos do partido. Foi eficaz através de atos legislativos em alcançar menos regulação dos negócios. Há quem diga que também foi bem-sucedido na imigração, mas isso é complicado de afirmar. Obama também deportou muitas pessoas. Trump ainda não estabeleceu uma política migratória.

E qual foi o seu maior falhanço?

Tentou desfazer o Obamacare e falhou. E perdeu a confiança de muitos republicanos, de muita gente que votou nele e lhe virou as costas. Isso provém, em parte, do facto de ter uma má relação com muitos republicanos no Congresso.

Mas há muita gente que votou nele e que se afirma satisfeita, a começar aqui no Michigan.

Claro. Tem 37% a 39% de pessoas que o afirmam nas sondagens. Mas está a cerca de 10% abaixo do que os presidentes costumam ter nesta altura. São 10% cruciais. É muito.

A possibilidade de destituição é grande?

Se os republicanos tiverem um resultado muito fraco nas eleições [intercalares] em novembro, sim. Nixon foi destituído porque o partido se virou contra ele. Quando isso acontece o líder vai abaixo.

Como serão os próximos meses?

Os democratas não vão trabalhar em conjunto com os republicanos. Trump vai continuar a causar controvérsia. Ele é um mestre a desviar as atenções da imprensa quando esta está a investigar alguma coisa. A interferência dos russos nas eleições vai continuar a dar que falar. É possível que mais pessoas sejam indiciadas, o que pode causar um gigantesco terramoto político. Se a investigação for tornada pública antes das eleições causará grande dano aos republicanos.

Como é que os norte-americanos veem o desempenho de Trump nos assuntos internacionais?

Essa é uma área em que muitas pessoas serão da opinião de que está a fazer um trabalho positivo. Quer mereça os louros quer não, há alguma ligação entre o que se passou com o Estado Islâmico e Trump e há quem acredite que a retórica dura com a Coreia do Norte levou às conversações com a Coreia do Sul. Esta é uma área em que há divisões profundas na sociedade norte-americana e não é tanto a nível partidário.

Trump é responsável pelas divisões da sociedade?

Trump não criou isto. Podemos ver a origem há coisa de 20 anos, quando Bill Clinton esteve por trás das guerras que existiram então e que prosseguiram nos anos seguintes. Estes são tempos de enorme divisão nos EUA, mais do que alguma vez vi na minha vida. Hoje, as pessoas tendem a conhecer-se e a casar-se com outras do mesmo partido. Há cada vez mais gente que não quer que os filhos se casem com pessoas de outro partido.

Enviado ao Michigan

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