Histórias de três portugueses em Madrid, a cidade que volta a fechar

Natércia, Paulo e Domingos contam como é viver na capital do país europeu mais afetado pela pandemia do novo coronavírus. E como assistem à "guerra política" entre os governos central e autonómico.

Natércia Lameiro chegou a Madrid em novembro do ano passado e quatro meses depois a pandemia estava a fechá-la em casa. A partir da noite desta sexta-feira não vai ficar confinada, poderá andar na rua, mas só lhe é permitido sair da capital se for para trabalhar, ir ao médico ou estudar. Novas restrições para travar a subida galopante da pandemia de covid-19 quando ainda tem bem vivas na memória as cenas a que assistiu nos dias que antecederam o confinamento geral quando algumas pessoas se recusavam a aceitar as restrições. "Foi de tal modo que havia polícias a patrulhar as ruas, de altifalante a dizer que estava na hora de recolher, havia helicópteros. Parecia literalmente um cenário de guerra, tipo filme americano", conta realizadora de 24 anos.

Da varanda da sua casa no multicultural Bairro Lavapiés, que ela própria equipara ao Bairro Alto, viu como as autoridades atuavam: "Assisti ao recolher da polícia em todos os bares, um por um. Vi a polícia a cobrar multas e algumas pessoas a serem detidas."

Até Natércia escapou por pouco à polícia, que lhe quis aplicar uma multa de 600 euros. Tudo porque, durante o confinamento saiu com a amiga com quem divide a casa para ir às compras. Levaram máscara, luvas, cumpriram a distância de dois metros, mas ignoravam que duas pessoas da mesma casa teriam que sair à vez.

Esta resistência que presenciou no início de março, ainda antes da Espanha se ter tornado um dos casos mais graves da pandemia de covid-19, Natércia justifica com maneira de estar dos espanhóis. "É uma cultura muito latina, de viver na rua. Os espanhóis gostam de viver da festa, de sair. Daí os números serem mais drásticos do que no norte da Europa, em que a personalidade recôndita do povo passa por estar mais em casa."

Números a subir e uma guerra política

Números que continuam a subir, a uma média de 10 mil novas infeções diárias e que tornam a Espanha o país mais massacrado da Europa, com um total de cerca de 778 mil casos e quase 32 mil vítimas mortais.

Com a dureza da pandemia, a portuguesa de Leiria decidiu não acompanhar as notícias para não se sentir afetada no seu dia-a-dia. Mas não ignora que agora há uma "questão a nível de partidos, de ideologias". A questão a que Natércia se refere é o imbróglio político/jurídico entre o governo central (PSOE) e o governo da Comunidade de Madrid (PP) - depois da reunião do Conselho Interterritorial, realizada quarta-feira, o Executivo de Pedro Sánchez publicou no BOE (o boletim espanhol equivalente ao Diário da República) as novas restrições que passam por limitar a mobilidade dos cidadãos nas cidades com mais de 100 mil habitantes onde a incidência de infeções seja superior a 500, o que abrange a própria capital e mais nove municípios limítrofes da comunidade autonómica. Só que na mesma reunião, Madrid votou contra - tal como a Catalunha, Galiza, Ceuta, Múrcia e Melilla - e argumenta que era necessário consenso para a ordem do ministro da Saúde ser válida.

Restrições violam constituição, diz a Comunidade de Madrid

As medidas entram em vigor às 22 horas desta sexta-feira (menos uma em Lisboa) e a Comunidade de Madrid diz que as vai acatar, para não desobedecer, mas já recorreu aos tribunais. No recurso à Audiência Nacional, argumenta que as medidas invadem os poderes autonómicos, não são proporcionais e podem violar direitos fundamentais previstos na Constituição, como a liberdade de circulação. E já pediu medidas cautelares para poder voltar atrás.

Não é a primeira vez que a Comunidade de Madrid recorre aos tribunais por discordar das decisões do governo central, como aconteceu na altura do desconfinamento quando a capital foi impedia de passar para uma menos restritiva mais ao mesmo tempo que o resto do país.

Natércia acaba, pois, de se dar conta que vai ter novamente os movimentos restringidos, ou seja, que não pode sair de Madrid sem razões de força maior. Mas está com um espírito positivo e lembra que na quarentena geral acabou por desconfinar mais cedo porque o seu trabalho é presencial. Tinha um salvo-conduto para sair de casa e guarda, aliás, boas recordações desses tempos. Como o dia em que o Parque do Retiro foi aberto e foi a primeira pessoa a atravessá-lo, sozinha. Dias em que o parque era só dela. "Tinha tantas saudades da natureza que o fiz descalça, precisava de sentir a terra, a relva."

"Está latente essa revolta"

Paulo Nunes, 44 anos, acompanha mais a política que Natércia e olha para o que se passa na cidade onde vive há quatro anos como uma luta entre a Comunidade de Madrid e o governo central. "Estamos na expectativa, vamos ver como se vai resolver esta situação e como nos vai afetar." O engenheiro informático no Centro de Satélites da União Europeia diz que, pelo que vê nas notícias, há também revolta social devido às restrições à circulação aplicadas anteriormente em alguns bairros de Madrid, onde vivem famílias mais desfavorecidas.

"As medidas não são justas. A maioria das pessoas trabalha fora desses bairros e se podem sair para trabalhar também podem levar o vírus consigo", sustenta Paulo, lembrando que estas cercas sanitárias - à semelhança do que também já aconteceu na Área Metropolitana de Lisboa - já deram origem a manifestações e até confrontos. "Está latente essa revolta", diz

"Podemos sair para ir servir cervejas aos outros, mas não podemos sair para ir beber uma cerveja", são palavras que já foram ditas na televisão por gente que habita esses bairros.

"O sentimento é geral, de que as medidas não são as mais adequadas. O governo central quer pressionar e tentar intervir para serem mais justas, mais abrangentes para todos e possam ser mais efetivas", refere Paulo Nunes.

"Vamos chegar a um ponto em que o impacto da pandemia na economia vai pesar mais que o impacto na saúde."

Paulo, natural e Alverca, vive em Madrid com a mulher e a filha. Ainda tem bem presente o período de confinamento geral, quatro meses em que a família esteve em casa a compatibilizar o teletrabalho com a presença de uma criança de três anos. Valeu-lhes ter um pequeno jardim para minimizar os efeitos psicológicos de uma quarentena tão dura. "Foi um luxo, nem imaginaria o que era estar fechado num apartamento sem sair à rua."

Ainda a passar a maior parte do tempo em teletrabalho, o casal esforçou-se para voltar à rotina - Laura ingressou na aventura de uma nova escola e "está feliz e a interagir com outras crianças"; voltaram a frequentar restaurantes, mas só em esplanadas.

"Um novo confinamento geral é a última coisa que todos querem, a economia não vai suportar. Precisamos de uma solução, mas de forma criteriosa. Vamos chegar a um ponto em que o impacto da pandemia na economia vai pesar mais que o impacto na saúde. O desemprego está a aumentar e as medidas de apoio vão acabar a determinado ponto", considera o engenheiro informático.

"Não morremos do vírus, morremos de fome"

Domingos dos Santos da Silva já leva 51 anos de Espanha - emigrou aos 16 anos e de lá não saiu, primeiro em Bilbau, agora em Madrid. Tantos anos a falar outra língua resulta numa espécie de "portunhol". Na conversa telefónica, ainda encontra espaços para rir, apesar do caso ser sério. Tão sério que se a situação trazida pela pandemia não melhorar, põe a hipótese de fechar o seu restaurante no centro da capital, o La Portuguesa Taberna.

É a esperança em melhores dias que o move. Aos 67 anos não quer ouvir falar de reforma. Sente-se bem, ativo. Domingos e a mulher abriram o restaurante em 2013 e na carta apresentam pratos da típica gastronomia portuguesa - bacalhau, feijoada à trasmontana, cozido, carne de porco à alentejana... Mas desde março, quando a pandemia do novo coronavírus surpreendeu o mundo - e a Espanha em particular, que continua a ser um dos casos mais graves da Europa - que os pratos da D. Rosa não são tão procurados.

O La Portuguesa perdeu cerca de 75% da sua clientela, até composta sobretudo por espanhóis, turistas e alguns portugueses. "Não há gente, as pessoas não saem de casa. E parece que agora entram em vigor novas restrições", comenta Domingos.

Para Domingos o que se passa em Madrid é sobretudo de uma guerra política, entre a esquerda e a direita. As novas restrições afetam também o setor da restauração - o encerramento até às 23, o fim da "barra" (o serviço ao balcão) e a lotação reduzida a 50%.

Só que o negócio de Domingos já está afetado. "Tem sido uma completa ruína", conta o proprietário de La Portuguesa. De tal forma que o restaurante esteve fechado devido ao confinamento (Espanha teve um dos mais duros) de 13 de março a 25 de junho, mas desde o início de agosto até meados de setembro, decidiram trancar a porta outra vez e até vieram a Portugal de férias. Onde, aliás, encontraram uma situação "sem comparação", desde logo porque não é obrigatório o uso de máscara na via pública. "Em Portugal fizeram melhor as coisas, graças a Deus, controlaram melhor a pandemia."

Domingos Silva não acredita num novo confinamento total do país, apesar dos números de contágios e de mortes por covid-19 estarem sempre a subir. "A economia já está meio morta. Se não morremos do vírus morremos de fome! O que ganhámos não está a dar para cobrir os gastos, a sorte é que sou só eu e a minha mulher".

Ainda assim, uma renda mensal de cerca de 1500 euros e mais todas as despesas inerentes tem levado o casal de Vinhais (Bragança) a recorrer às economias. "Se continua assim, não sabemos até quando podemos aguentar. É a morte do negócio."

Na sua opinião, o que se devia encontrar era "um equilíbrio" entre as medidas de proteção da saúde e da economia. Mas isso, Domingos deixa a cargo dos especialistas.

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