"Go home". Carros com matrícula americana estão a ser vandalizados no Canadá

Os receios de infeção por coronavírus têm gerado situações de vandalismo em viaturas e assédio a condutores. As fronteiras estão fechadas a viagens não essenciais e só podem ser cruzadas por veículos de transporte e trabalhadores transfronteiriços.

É um novo grito de "Americans Go Home" [Americanos voltem para casa], agora desencadeado pelo receio de contrair covid-19. No Canadá, os veículos com matrícula americana estão a ser vandalizados e os condutores são assediados, de acordo com o The New York Times e a BBC. Os Estados Unidos registam um elevado número de casos positivos do novo coronavírus, o que estará a originar esta reação., numa altura em que as fronteiras entre os dois países ainda estão fechadas, apenas abertas para viaturas que vão fazer entregas comerciais ou trabalhadores transfronteiriços.

A hostilidade contra os condutores americanos - ou residentes no Canadá que têm viaturas com matrícula do país vizinho - tem crescido a ponto de John Horgan, primeiro-ministro da província canadiana da Columbia Britânica, aconselhar aqueles que conduzem carros com matrículas dos EUA a considerarem mudá-las ou então a viajar de transportes públicos ou bicicleta, segundo refere o jornal The New York Times.

A relutância dos canadianos em aceitar viajantes americanos deve-se à grande diferença no número de casos de coronavírus entre as nações: os EUA relataram mais de cinco milhões de casos de coronavírus, enquanto o Canadá teve pouco mais de 121 mil, de acordo com dados do Instituto John Hopkins.

Com uma fronteira de 8891 km, as duas nações acordaram o encerramento de fronteiras em 21 de março, e a medida permanece em vigor até 21 de agosto, embora se espere que seja prorrogada novamente.

"Nunca pensei que estaria sentado aqui em meados de agosto e que a fronteira ainda estaria fechada", disse à BBC Len Saunders, um cidadão com dupla nacionalidade que mora em Blaine. "Parece que se está a arrastar indefinidamente sem um fim à vista."

Embora o encerramento da fronteira tenha repercussões económicas e pessoais significativas para os milhões de pessoas que vivem ao longo dela ou têm entes queridos do outro lado, a grande maioria dos canadianos deseja que permaneça fechada.

Uma sondagem de julho da Ipsos Reid revelou que oito em cada dez canadianos querem que a fronteira permaneça encerrada, pelo menos, até ao final de 2020. Como a pandemia continuou a espalhar-se pelos Estados Unidos, também aumentaram as tensões entre condutores americanos e residentes canadianos.

Embora as viagens não essenciais estejam proibidas, os motoristas comerciais que entregam mercadorias e as pessoas que trabalham em serviços essenciais têm permissão para atravessar. Agora, cresce o número de pessoas com placas de matrícula americanas a relatar terem sido assediadas e os veículos vandalizados, mesmo que tenham todo o direito de estar do lado canadiano.

Efeitos económicos

Len Saunders, advogado de imigração que tem muitos clientes que cruzam a fronteira regularmente para trabalhar, diz que muitas pessoas têm medo. "Estão todos com medo de conduzir os seus carros por causa de vandalismo, olhares reprovadores e simplesmente serem tratados como um 'americano horrível'", disse à BBC.

Na região de Muskoka, no Ontário, onde muitas pessoas têm casas de verão, a hostilidade atraiu a atenção das forças de segurança. A Polícia do Ontário disse que um canadiano da cidade de Huntsville apresentou uma queixa depois de dois homens supostamente o abordarem por causa da sua placa de matrícula da Florida.

"Mais recentemente, neste fim de semana, estava um homem em Huntsville a abastecer o veículo, e dois indivíduos aproximaram-se dele e disseram: 'Você é americano, vá para casa.' E ele disse: 'Sou canadiano. Moro aqui.' E eles literalmente disseram, 'não, não acreditamos - mostre o seu passaporte'", disse Phil Harding, autarca de Kuskoka. "Isto é agressivo e as pessoas temem um pouco pelas suas vidas", realçou.

Os efeitos do encerramento da fronteira nas pequenas cidades de ambos os lados não são insignificantes. Antes do coronavírus, cerca de 300 mil pessoas cruzavam a fronteira todos os dias, incluindo canadianos que iam aos Estados Unidos para fazer compras em shoppings ou postos de gasolina, e turistas americanos a explorar as maravilhas das cataratas do Niágara.

Desde março, as travessias não comerciais de fronteiras terrestres para o Canadá caíram quase 95%, de acordo com a Agência Canadiana de Serviços de Fronteiras. "Isto vai dizimar tudo", diz Len Saunders.

Mas o impacto económico do encerramento da fronteira para viajantes não é nada comparado com o que aconteceria no Canadá se outra vaga de coronavírus forçasse um segundo confinamento, diz Ambarish Chandra, professor de Economia da Universidade de Toronto.

"Tem um grande impacto económico nas comunidades para onde os viajantes vão", admite. Mas aponta que "dada a pandemia nos EUA e o número de casos registados, faz sentido restringir as viagens aos EUA, potencialmente indefinidamente".

Chandra diz que o Governo deve fornecer ajuda às cidades fronteiriças cuja economia depende fortemente do turismo estrangeiro, mas manter-se firme com o encerramento da fronteira até ao fim da pandemia.

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