G20 controverso com pandemia e dívida no topo das preocupações

Sob protestos de organizações dos direitos humanos, a Arábia Saudita recebe neste sábado e domingo, em formato virtual, a cimeira do G20, dominada pelas iniciativas para conter a pandemia e as suas devastadoras consequências económicas.

A reunião de dois dias dos países mais ricos do mundo (19 nações, às quais se soma a União Europeia) acontece quando o grupo é alvo de críticas pela resposta à recessão mundial e o país anfitrião recebe acusações de abusos dos direitos humanos.

Enquanto os familiares de ativistas presos pediram aos líderes mundiais para boicotarem a reunião e a libertação dos presos políticos, a Amnistia Internacional apelou para os outros líderes pressionarem os dirigentes sauditas quanto à "vergonhosa hipocrisia" em relação aos direitos das mulheres.

O grupo literário PEN America, que defende a livre expressão, convocou uma 'contra-cimeira' na esperança de lançar luz sobre os direitos humanos do reino ultraconservador. O fórum online relembra o assassínio, em 2018, do colaborador do Washington Post Jamal Khashoggi, estrangulado e desmembrado dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul.

"Todos os nossos familiares estão em perigo. Enfrentam a ameaça de Jamal Khashoggi recebeu diariamente", disse Areej al-Sadhan, segundo o qual o seu irmão, Abdulrahman al-Sadhan, foi preso pela polícia secreta saudita em março de 2018.

O presidente cessante dos EUA, Donald Trump, foi um forte aliado da Arábia Saudita, quer na promoção de vendas de armas dos EUA, quer no apoio à hostilidade para com o Irão. Trump disse que "salvou a pele" do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman após uma resolução do Senado dos EUA, que se seguiu a um relatório da CIA, ter declarado o jovem monarca responsável pela morte de Khashoggi.

O senador democrata Chris Murphy, disse na contra-cimeira que espera do presidente eleito Joe Biden uma nova abordagem em relação à Arábia Saudita, quer na questão dos direitos humanos quer no apoio aos movimentos extremistas globais. "Já é tempo de reconhecermos que a Arábia Saudita é um aliado profundamente imperfeito e que as nossas prioridades nesta relação têm sido há muito distorcidas de uma forma que, segundo creio, não é vantajosa para os Estados Unidos a longo prazo", disse Murphy.

Dezenas de congressistas democratas tinham exortado a administração Trump a boicotar o G20, numa pressão para que a Arábia Saudita se reforme.
No entanto, Trump não só participa na cimeira virtual, como o secretário de Estado Mike Pompeo vai visitar o reino horas depois do encontro.

Safa al-Ahmad, diretora interina do grupo de direitos sauditas ALQST, disse que os sinais de abertura do reino, tais como convidar músicos ocidentais, têm sido inteiramente orientados para melhorar a imagem pública no estrangeiro sem reformas internas.
"Há um limite para a hipocrisia e para a manipulação do governo saudita. A realidade é muito, muito diferente do que o governo continua a afirmar".

"Diplomacia digital"


Desta vez, não haverá uma grande cerimónia de abertura, nem a oportunidade de chegar a acordos bilaterais. A cimeira estará limitada a curtas sessões online, o que alguns já chamam de "diplomacia digital".

A pandemia de covid-19 será o assunto principal deste G20, presidido pelo rei Salman.
Na agenda, estarão a discussão sobre distribuição das vacinas após os últimos ensaios clínicos promissores e a resposta aos pedidos para que o G20 reforce o combate ao vírus, que infectou mais de 58 milhões de pessoas e matou mais de 1,3 milhões em todo o mundo, através do financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na sexta-feira, vários líderes pediram aos países do G20 que ajudem a OMS em 4,5 mil milhões de dólares no fundo para distribuir vacinas contra o coronavírus, entre outras iniciativas.

"Os recentes avanços nas vacinas contra a covid-19 oferecem esperança", mas devem "chegar para todos", disse o secretário-geral da ONU António Guterres.

Os países do G20 já gastaram 17,7 mil milhões de euros para combater o coronavírus. Também mobilizaram cerca de 11 biliões de dólares para salvar a economia mundial, segundo os organizadores.

Coordenação mundial

"Os nossos povos e economias ainda estão a sofrer este impacto. No entanto, faremos todo o possível para superar essa crise através da cooperação internacional", disse o rei Salman no discurso de abertura, sob o olhar do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, líder de facto do país.

Na abertura por videoconferência foram vistas imagens incomuns, como o presidente chinês Xi Jinping a pedir ajuda de um técnico ou a do presidente francês a rir-se e a falar com alguém atrás da câmara.

Vários líderes mundiais, como a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente chinês Xi Jinping e o homólogo russo Vladimir Putin devem discursar.

Antes da cimeira, vários líderes enviaram mensagens a pedir uma melhor coordenação mundial contra a pandemia.

"Desde o início exaltamos que era preciso cuidar da saúde e da economia simultaneamente. O tempo vem provando que estávamos certos", declarou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, numa mensagem de vídeo publicada pelo G20.

Por sua vez, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson disse que os "avanços animadores sobre as vacinas nas últimas semanas podem indicar um caminho para sair da escuridão".

Argentina e o fardo da dívida

Os membros do G20 também devem abordar a dívida dos países mais pobres, que enfrentam o colapso de seu financiamento externo.

Na semana passada, os ministros das Finanças do grupo acordaram um "marco comum" para aliviar o fardo da dívida, no qual participam pela primeira vez a China e os credores privados.

Mas as ONG e Guterres acreditam que não é suficiente e pediram "um alívio maior da dívida". O secretário-geral também quer que a suspensão seja estendida até o final de 2021.

Neste sentido, o ministro da Economia argentino, Martín Guzmán, pediu na sexta-feira durante uma reunião virtual de ministros das Finanças do G20 um "apoio" aos membros na negociação da Argentina com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Guzmán agradeceu "a todos os países do G20 por terem apoiado o processo de reestruturação" e destacou que "o próximo passo para resolver a crise macro e de dívida é o programa com o FMI", em declarações citadas num comunicado do governo.

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