"É só a ponta de um imenso iceberg". Brasil terá não 1, mas 10 milhões de infetados

Especialista em doenças infecciosas diz que casos estão subdimensionados. OMS diz o mesmo: Brasil testa pouca população para a dimensão do país. Haverá muitos mais casos do que os oficiais.

O especialista brasileiro em doenças infecciosas, Roberto Medronho, disse em entrevista à Globo que o Brasil terá cerca de 10 milhões de casos de covid-19 e não 1 milhão - dados da estatística oficial. A OMS não aponta uma estimativa, mas adiantou, também esta segunda-feira, que o país testa muito pouco tendo em conta o número de habitantes.

"O que estamos a ver é apenas a ponta de um imenso iceberg", diz Medronho.

Sem avançar uma estimativa, Mike Ryan, da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse também que os números estão subdimensionados - ou seja, não estão a ser notificados os reais casos de infeção por falta de testagem na população.

"O número de pessoas com covid-19 no Brasil deve ser maior do que o registado", referiu Ryan, durante uma entrevista online, acrescentando que houve "aumentos preocupantes" em toda a América Latina.

Bolsonaro diz que é tudo "exagero" e insiste na reabertura da economia

Indiferente aos alertas, o presidente brasileiro insistiu hoje que a reação do mundo à pandemia de covid-19 foi exagerada e defendeu uma aceleração do processo de reabertura de empresas e a retoma das atividades suspensas pelas medidas de distanciamento social.

"Peço aos governadores e prefeitos do Brasil, obviamente com responsabilidade, que comecem a abrir o comércio, porque as novas informações vindas de todo o mundo e da Organização Mundial de Saúde (OMS), juntamente com os seus erros, mostram que talvez tenha havido um pouco de exagero no tratamento desta questão", disse Bolsonaro em entrevista ao canal BandNews TV.

O chefe de Estado brasileiro, um dos governantes mais céticos sobre a gravidade da pandemia e que chegou ao ponto de tratar a covid-19 como uma "gripezinha", criticou as medidas de distanciamento social impostas desde março para impedir o avanço do novo coronavírus e que, devido à paralisia das atividades, geraram uma crise económica sem precedentes.

Apesar destas medidas, o Brasil tornou-se no segundo país mais afetado pelo novo coronavírus no mundo, depois dos Estados Unidos da América.

Os efeitos económicos da pandemia ameaçam mergulhar o Brasil na maior recessão da sua história, com uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) estimada pelos economistas em 6,5% e a perda de milhões de postos de trabalho.

"Disse desde o início que a vida e o emprego devem ser considerados como estando totalmente ligados e não podemos permitir que o efeito colateral de lidar com a pandemia em algumas partes isoladas do Brasil seja mais prejudicial do que a própria pandemia", disse.

É por isso, acrescentou, que é necessário que as empresas reabram, considerando que "esse processo teria de ser um pouco mais acelerado".

Brasil regista mais de 50 mil mortes por covid-19

"A economia afeta-nos a todos. Se o Brasil não se sair bem na economia, todos sofrem, a começar pelos que têm rendimentos mais baixos. O campo não parou, mas as cidades e muitos estados pararam, e não será fácil pôr a economia a funcionar novamente", acrescentou.

Jair Bolsonaro voltou a minimizar a pandemia e a defender a normalização das atividades, numa altura em que as estatísticas confirmam o Brasil como o segundo país mais afetado do mundo, com quase 51.000 mortos e 1,1 milhões de infetados.

De acordo com uma base de dados desenvolvida por um consórcio de meios de comunicação social que depende de estatísticas dos governos regionais, o país atingiu hoje um total de 50.737 mortes, tem quase 1,1 milhões de casos e é um dos principais polos mundiais da pandemia.

Na entrevista ao BandNews, o presidente brasileiro disse ainda que o seu Governo concordou em pagar duas novas parcelas mensais do subsídio que foi concedido a 50 milhões de desempregados, informais e pobres para os ajudar a atenuar os efeitos da pandemia, mas que o valor terá de ser reduzido.

"Estamos a pagar a terceira parcela dessa ajuda de emergência, mas o país não pode conceder mais dois meses com esse montante. Isso custa-nos cerca de 50 mil milhões de reais [8,4 mil milhões de euros] por mês e o país já não se pode dar ao luxo de se endividar", afirmou.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 469 mil mortos e infetou quase 9 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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