É no bairro mais rico de Madrid que se protesta contra o governo

A chamada Resistência Democrática teve origem no Bairro de Salamanca, há uma dúzia de dias. O movimento contra a gestão do executivo socialista tem a mensagem do Twitter mais partilhada de sempre.

Começou por se chamar Movimento Bairro de Salamanca 'Nuñez de Balboa' (o nome da rua e do respetivo bairro de Madrid), com protestos diários iniciados no dia 10 e que começaram a juntar centenas de pessoas. Três dias depois passou a chamar-se Resistência Democrática de Espanha, um grupo que se diz apartidário, mas "contra toda a ingerência antiespanhola especialmente a comunista chavista".

Como acontece desde meados de abril, às 21.00, em Madrid como um pouco por todo o país, os espanhóis agradecem aos profissionais de saúde e a todos os que estão na primeira linha no combate à pandemia. Mas naquele domingo, antes da hora do "panelaço", um grupo de dezenas de jovens estava reunido junto a uma casa na rua Nuñez de Balboa, da qual se ouvia música.

Quando a polícia apareceu para dispersar o ajuntamento proibido pelo estado de emergência, alguns moradores começaram aos gritos de "liberdade" e "demissão do governo", em protesto com a ação policial, que identificou os jovens e multou uma dúzia deles.

Assim arrancou um protesto diário que foi ganhando cada vez mais expressão e se articulou nas redes sociais. A Resistência Democrática responsabiliza o executivo de coligação de esquerda de "destruição sanitária, económica e democrática".

No primeiro caso pela forma como a ação do governo contribuiu para que a Espanha seja o país com mais mortos por milhão de habitantes e com mais profissionais de saúde contaminados; no segundo pelo confinamento que, dadas as medidas "sem justificação objetiva do ponto de vista sanitário" e "absurdas e letais" para o setor do turismo, poderão levar o país a sair do euro e até da União Europeia; e por fim vê no "governo frentista" um aproveitamento da "manutenção artificial" do estado de emergência para "impor uma agenda oculta" que vai tentar criar "condições para a perpetuação de um regime de liberdades limitadas com uma orientação coletivista".

E conclui: "Não é difícil prever um Estado democrático falhado ou, na terminologia atual, um Estado neocomunista que oscilará, dependendo da situação económica, entre a Venezuela e a China."

A revolta dos mais ricos

O El País classifica o movimento de "a revolta do 1%". Isto é, do grupo mais rico de madrilenos e de Espanha. Isto porque o epicentro da revolta situa-se numa rua que atravessa o bairro de Salamanca, no qual o rendimento médio dos moradores é o do topo do topo do país. Por graça, escrevem os jornalistas do diário espanhol que é um bairro com tanto dinheiro que até o fabricam. É lá que está sedeada a Casa da Moeda, a Fábrica Nacional de Moneda y Timbre.

A dar a cara pelo movimento está María Luisa Fernández., de 54 anos, que se descreve como uma perita em geoestratégia e serviços de informações, ex-militante do Partido Popular (centro-direita) e que já foi contactada pelo Vox (extrema-direita) há uns meses, mas garante não ter ligações a nenhum partido. No entanto, no seu canal do Youtube descreveu o Vox como o "partido mais limpo", e o do "futuro".

Se o seu canal não despertou o interesse de mais do que dezenas de pessoas (exceto o vídeo que foi partilhado pelo El País, no qual Fernández advoga a saída de Espanha da UE) a conta do Twitter do movimento já conta com mais de 13 700 seguidores e uma mensagem publicada nesta rede social foi vista mais de 8,3 milhões de vezes.

María Luisa Fernández, que mora a 30 quilómetros do bairro Salamanca, onde reside a sua mãe, rejeita alegações de que esteja ao serviço de um falso movimento espontâneo coordenado pelo Vox. "Não apareci do nada, sou uma mulher íntegra, de valores", afirma ao El País.

As manifestações receberam o apoio da controversa presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso. "Esperem até ver as pessoas a sair às ruas. Vai parecer uma piada as [manifestações] de Nuñez Balboa", disse Ayuso, que acusou o governo de Pedro Sánchez de querer impor um "controlo ditatorial".

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