"Diplomacia do golfe" para aproximar Trump e Shinzo Abe

Dimensão da delegação japonesa demonstra relevo da relação com os EUA, que têm em Tóquio o aliado mais importante na Ásia.

Se há uma coisa que o golfe nos ensina é que "ficamos a conhecer alguém melhor quando estamos com essa pessoa no campo [de golfe] do que à mesa de almoço", declarava Donald Trump dias antes de ser confirmada a presença de Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão, nos Estados Unidos a partir de hoje. Para negociações em matéria política e económica. E para jogar golfe com o presidente americano. Desporto cujo entusiasmo o governante partilha com Trump.

As negociações iniciam-se hoje na Casa Branca, seguindo depois os dois dirigentes, a bordo do Air Force One, para Mar-a-Lago, na Florida, para mais negociações e para um ou mais jogos de golfe. A sugestão do golfe terá partido de Abe como instrumento central da sua estratégia de cimentar uma relação forte com Trump.

O presidente republicano teve palavras duras para o Japão durante a campanha, criticando as políticas de Defesa e comerciais deste país. Em causa, estão as restrições à despesa no primeiro caso, em que o Japão, de certa forma, depende dos EUA para garantir a sua segurança; no segundo caso, as barreiras alfandegárias que dificultam as importações nipónicas de automóveis americanos. Trump acusou ainda Tóquio de manipular o iene para conseguir vantagens para as exportações. Após a tomada de posse, Trump anunciou a saída dos EUA da Parceria Trans-Pacífico, um espaço de comércio livre em que o Japão apostava particularmente. O presidente americano prefere a (re)negociação de acordos bilaterais, em especial, com países que apresentam excedentes comerciais significativos com os EUA. Caso do Japão.

Antes da deslocação, o primeiro-ministro japonês disse numa entrevista, citada ontem pelo The Japan Times, que pretende criar condições para uma situação de "ganho mútuo geral" e contribuir para a criação de empregos nos EUA. Aquele diário referiu ser possível o investimento - oficial e privado - de 450 mil milhões de dólares (cerca de 422 mil milhões de euros) em áreas como a energia, a indústria de transportes de alta velocidade e no setor da inteligência artificial. Um outro quotidiano japonês, o Asahi Shimbun, referia um outro montante, 150 mil milhões de dólares (140 mil milhões de euros) referente a projetos ligados ao governo de Tóquio.

A importância da relação nipo-americana e do impacto que as questões referidas por Trump durante a campanha atesta-se pelo facto de Abe ter sido o primeiro dirigente estrangeiro a ser recebido pelo candidato republicano, cerca de duas semanas após a eleição deste. O encontro decorreu em Nova Iorque, na Trump Tower, a 18 de novembro de 2016, tendo caráter informal. E se é verdade que o Japão tem interesse em ter um aliado forte nos EUA, também Washington necessita de aliados seguros na Ásia, tendo presente as tensões na península coreana e a crescente afirmação da República Popular da China em todo o Sudeste Asiático.

Após o encontro de Nova Iorque, Trump colocou uma fotografia dele com Abe nas redes sociais, sob o comentário "foi o prazer ter o primeiro-ministro Shinzo Abe em minha casa e dar início a uma bela amizade". Por seu turno, o chefe do governo de Tóquio classificou o então presidente eleito como "um dirigente em quem se pode confiar".

O relevo da relação nipo-americana pode deduzir-se pela importância da delegação japonesa. Além do primeiro-ministro, viajam para os EUA o vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Taro Aso, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Fumio Kishida, e o da Economia, Hiroshige Seko. Como notava ontem o Asahi Shimbun é altamente "invulgar" a presença simultânea de "todos estes ministros ao lado de Abe".

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