Com a Geórgia no pensamento

O estado sulista natal de Luther King, onde os democratas não ganhavam desde 1992, deu a vitória a Biden sobretudo com base no voto negro. Agora é o campo de batalha onde se decidirá para que lado pende o Senado, com os democratas a apostar no primeiro ticket de um negro e um judeu da história da Geórgia.

Georgia, oh Georgia
No, no, no, no, no peace I find
Just an old sweet song
Keeps Georgia on my mind

Nas semanas seguintes às presidenciais de 3 de novembro, à medida que começava a vislumbrar-se a possibilidade de Joe Biden ganhar na Geórgia - onde os democratas não conseguiam uma vitória desde 1992, com Bill Clinton - o Twitter encheu-se de referências à canção Georgia on my mind, popularizada por Ray Charles. Depois de escassos 12 mil votos darem o estado a Biden, a batalha pelo Senado volta a fazer desta terra sulista o punctum da política americana: a segunda volta que ali vai ter lugar a 5 de janeiro para escolher os seus dois senadores decidirá se a maioria é republicana ou democrata - e portanto se Biden terá como Obama a câmara alta federal a obstaculizá-lo ou uma presidência com via verde.

A magra vantagem de Biden sobre Trump nos cinco milhões de boletins contados nas presidenciais georgianas (o estado terá cerca de 10,6 milhões de habitantes) não permite projetar para já o resultado da corrida, na qual um negro e um judeu, Raphael Warnock, de 51 anos, reverendo da igreja batista que Martin Luther King Jr dirigiu, no coração de Atlanta, e Jon Ossof, 33, ex jornalista, do lado democrata, se confrontam com dois caucasianos, a empresária Kelly Lowffler, 49 (que o New York Times assevera ser a pessoa mais rica do Senado), e David Perdue, 70, ex executivo da Reebok, pelos republicanos.

É a primeira vez que neste estado onde a maioria branca tem vindo a decrescer - era 70% em 2000, agora é 60% - um judeu é candidato a senador por um dos dois maiores partidos; será também a primeira vez um negro concorre a senador numa segunda volta. E se algum dos democratas ganhar, será a segunda vez desde 1990 que tal sucede numa segunda volta na Geórgia, onde a lei determina que, para vencer, é preciso ter mais de 50% dos votos.

Uma lei feita para manter a supremacia branca

Esta lei foi criada nos anos 1960 com o objetivo, segundo um relatório do departamento do Interior (o ministério da Administração Interna americano), de preservar o poder político branco e diminuir as possibilidades dos candidatos negros. E tem aparentemente sido bem sucedida nesse propósito. Mas esta corrida para o Senado está a ser vista como um momento definidor no qual se pode afirmar o triunfo do "novo Sul", representado por Atlanta, a capital, e os seus subúrbios cada vez mais "misturados" onde se concentra já metade da população do estado, sobre o "velho Sul", rural e conservador - naquilo que alguns analistas consideram ser uma tendência visível a partir dos anos Obama.

Num podcast do site Five Thirty Eight dedicado à análise da situação da Geórgia, a preponderância populacional da zona de Atlanta é considerada a chave nessa evolução, visível na votação de Biden, que teve 65% ali contra 37% no resto do estado. E uma evolução acelerada: em 2016 Trump não pôs os pés na Geórgia durante a campanha e ganhou por cinco pontos.

Para além da cada vez maior diversidade étnica da área, um dos motivos para tal mudança em quatro anos terá sido, de acordo com os analistas ouvidos no podcast, o voto de mulheres brancas com educação universitária dos subúrbios: costumavam votar republicano mas fatores como a lei do "coração que bate" (passada em 2019 pelo parlamento georgiano para impedir o aborto mal o feto tivesse batimento cardíaco, e assinada pelo governador republicano, Brian Kemp, acabaria por ser derrubada em tribunal), fizeram-nas mudar de lado.

Embora Biden tenha ainda ficado 40 pontos atrás no voto branco, os democratas ganharam terreno - e enfrentam agora o desafio de conquistar pelo menos 30% desse voto para "azular" o estado que elegeu o seu último governador democrata em 2002 e viu a primeira candidata a governadora negra do país por um dos dois grandes partidos, Stacey Abrams, perder por 50 mil votos em 2018 contra Kemp.

Abrams, de 46 anos, que anunciou no início de 2019 não tencionar concorrer ao Senado e esteve na short list para o lugar que viria a ser de Kamala Harris (o de candidata a vice do agora presidente eleito), é apontada como fundamental na vitória de Biden: o seu combate contra a supressão do voto das minorias, à frente da organização Fair Fight Action, por si fundada, terá sido, de acordo com o New York Times e o Washington Post, responsável por 800 mil novos recenseamentos. Abrams, que ainda não esclareceu se quer voltar a tentar ser governadora em 2022, está agora empenhada em levar todos os recenseados que elegeram Biden a votar na segunda volta das legislativas.

Antissemitismo, racismo e teorias da conspiração

É que convencer os mesmos eleitores que votaram nas presidenciais a ir outra vez às urnas não é fácil - as segundas voltas costumam sempre ter menos afluência e neste caso há ainda o facto de os que votaram democrata já não terem o incentivo de derrotar Trump.

De resto na primeira volta Perdue teve melhor votação que Trump, enquanto o seu contendor, Ossoff, ficou atrás de Biden. Certo é que ainda assim os 88 mil votos que Perdue, teve a mais que Ossoff não garantem que a vitória esteja no papo.

Terá contribuído muito para tal o facto de ser acusado de antissemitismo por causa de um seu anúncio no Facebook no qual Ossoff aparecia com um nariz exagerado, e de racismo por num comício ter feito piadas com o nome próprio de Kamala Harris. Ter-se revelado que terá usado informação privilegiada, nos primeiros dias da pandemia, para negociar na bolsa enquanto publicamente dizia que se tratava de algo não mais grave que uma gripe também não ajudou - Ossoff tem usado repetidamente essa linha de ataque.

Quanto a Loeffler, que fora vista como uma aposta na moderação e uma tentativa de agradar às mulheres brancas de classe média dos subúrbios de Atlanta, na campanha pela nomeação contra o rival republicano avançou resolutamente para o terreno da ultra-direita conspirativa, buscando o apoio de Marjorie Taylor Greene, candidata (eleita) ao congresso e adepta das teorias Qanon - que defendem que as elites de Washington adoram Satanás e se dedicam à pedofilia -, adotando as diatribes trumpianas e chegando ao ponto de surgir, em setembro, fotografada num comício de "georgianos patriotas", no meio de uma milícia armada de extrema-direita.

"Fogo amigo" de Trump mina republicanos

A complicar a vida dos dois republicanos estão ainda os ataques de Trump ao sistema eleitoral da Geórgia, pondo assim em causa o governo republicano do estado - chegou até a apelidar o secretário de Estado responsável, Brad Raffensperger, que defendeu a integridade do processo eleitoral, de "inimigo do povo". Esta atitude do ainda presidente está a suscitar nas suas hostes apelos de boicote ao sufrágio de 5 de janeiro. "A sua demonização do sistema eleitoral da Geórgia está a prejudicar as possibilidades do seu partido de manter o controlo do Senado", alerta um artigo no site Politico.

De tal modo o presidente é visto como um risco que o facto de estar prevista a sua participação na campanha, já a partir do próximo sábado, deixa o seu partido nervoso. Por um lado, atrai sempre muita gente e tem muitos apoiantes; por outro, pode contribuir, com o seu discurso, para a descrença nas eleições e fazer mais mal que bem a Perdue e Loeffler, que estão já a ser acusados de cumplicidade com a alegada fraude eleitoral das presidenciais. Até já apareceram, nas redes sociais afetas a Trump, as hashtags #CrookedPerdue e #CrookedKelly (crooked quer dizer aldrabão, desonesto, e foi a palavra cunhada por Trump na campanha de 2016 contra Hillary), com posts a acusá-los de serem secretamente liberais e "demoRats", ou "ratos democratas".

A inquietação no campo republicano levou mesmo Donald Trump Júnior a vir a público, no Twitter, pedir calma: "Estou a ver muita gente que é suposta estar do nosso lado a dizer aos eleitores republicanos para não votarem em Loeffler e Perdue. Isso é ridículo, ignorem-nos."

Preparemo-nos pois para cinco semanas com a Georgia no pensamento, como na canção. A 5 de janeiro ver-se-á se, como aventam alguns analistas, a vitória de Biden se deveu ao desgosto com Trump e a Geórgia permanece republicana, ou está realmente a virar azul.

Se o "novo Sul" levou mesmo a melhor sobre o velho neste estado fundado em 1732, um dos primeiros a declarar a secessão da União em 1861, em defesa da escravatura, e berço, há 91 anos, de Martin Luther King, que fez de Atlanta (desde 1980 a sede da cadeia de TV CNN, tão odiada pelos trumpistas) o quartel general do movimento pelos direitos civis dos negros.

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