Bolsonaro troca comissão dos mortos e desaparecidos na ditadura após escândalo

Chefe do Estado brasileiro nomeia assessor da ministra Damares Alves, militante do seu partido e dois militares para o órgão. Um deles é fã do torturador Brilhante Ustra. "Motivo da troca? É porque agora o presidente é de direita, ponto final", justificou. Mudanças surgem depois de ouvir críticas da comissão.

Jair Bolsonaro decidiu mudar mais da metade dos integrantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos, colegiado criado para investigar as mortes e o desaparecimento de brasileiros durante a ditadura militar. "O motivo é porque mudou o presidente, agora é Jair Bolsonaro, de direita, e ponto final. Quando botavam terrorista lá, ninguém falava nada", disse o presidente da República do Brasil.

Embora Bolsonaro acrescente que a atitude de substituir os integrantes não tem relação com as críticas recentes que recebeu do órgão, a mudança surge três dias depois de afirmar saber as causas da morte de Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, bastonário da Ordem dos advogados do Brasil (OAB), desaparecido na ditadura militar. E de dizer a Felipe que poderia contar-lhe a história, se ele quisesse saber.

O presidente acrescentou então, sem apresentar provas, que Fernando teria sido morto por parceiros do grupo oposicionista Ação Popular, do qual fazia parte, e não por militares, uma versão sem base histórica nem científica - segundo documentos oficiais, Fernando foi preso pela polícia política, a DOI-Codi, e o seu corpo enterrado em vala comum em São Paulo ou incinerado no Rio de Janeiro.

Quando proferiu aquelas palavras, Bolsonaro comentava uma posição do bastonário OAB, que lhe desagradou, em relação às investigações do atentado à faca sofrido pelo mandatário brasileiro durante a campanha.

Entre as substituídas está a atual presidente do colegiado, Eugénia Augusta, para quem a troca foi "uma represália" pela sua posição crítica "diante dos últimos acontecimentos". No lugar dela entra o advogado Marco Vinicius, filiado ao PSL - o mesmo partido do presidente - e assessor da ministra dos direitos humanos Damares Alves. Os outros novos integrantes são o deputado federal Felipe Barros, também do PSL, Vital Lima Santos, oficial do exército, e o coronel Wesley António Maretti.

Maretti, em redes sociais, classificou os participantes da guerrilha armada como terroristas e os militares do golpe de 64 como defensores da lei, da ordem e do desenvolvimento. "A história e os dados económicos do período dos governos militares são incontestáveis, para verificá-los é só saber ler", argumentou.

E defendeu que o torturador Brilhante Ustra - o mesmo a quem Bolsonaro dedicou o seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff - estava do lado do "bem". "O comportamento e a coragem do coronel Ustra servem de exemplo para todos os que um dia se comprometeram a dedicar-se inteiramente ao serviço da pátria. Apesar de travar uma luta de David contra Golias, a sua vitória é certa porque no final o bem prevalece sobre o mal".

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