Barcelona triplica casos. Desconfinamento gera braço de ferro entre justiça e governo catalão

Presidente do governo catalão queixa-se dos "obstáculos burocráticos" quando está em causa a saúde das pessoas.

Há um mês, a 13 de junho, a Catalunha registava o mais baixo número de novos casos de covid-19, apenas 15. Mas, este domingo, foram adicionados mais 816 casos ao boletim diário, mais do dobro do registado na véspera. Os contágios estão de novo a acelerar nesta comunidade autónoma espanhola, preocupando as autoridades políticas que tentam impor de novo o confinamento em algumas áreas, embatendo contudo nas decisões da justiça,

Dos 816 novos casos, cerca de um terço (253) foram registados na região de Barcelona, sendo que um quinto (152) corresponde à zona sul, onde se situa Hospitalet de Llobregat. Segundo as autoridades de saúde locais, nesta localidade os casos são de contágio familiar e estarão controlados, mas foram encerradas os centros de desporto públicos, para evitar a propagação.

Os dados da média diária de novos casos, que têm em conta os resultados positivos dos sete dias anteriores, apontam para uma subida de 35,1 casos a 29 de junho para 138.3 na última sexta-feira, ou seja, quatro vezes superior em apenas 12 dias. Não é clara a origem dos novos surtos.

Só na capital Barcelona, o número de casos da última semana foi quase o triplo do registado na semana anterior. Entre 6 e 12 de julho houve 458 habitantes de Barcelona que deram positivo para o covid-19, sendo que na semana anterior tinham sido 164.

Dos dados de domingo, 242 novos casos correspondem à região sanitária de Lérida, que no pico do covid-19 , ainda em abril, tinha registado o máximo de 62 novos casos e chegou a ter dias só com 1.

"Num em cada cinco casos, não sabemos como o doente contraiu o vírus", queixava-se já na semana passada ao El País um responsável da unidade de coronavírus em Lérida, lamentando os atrasos no reforço prometido das equipas de investigação epidemiológica que investigam os contactos dos doentes. Os novos surtos nesta região começaram nos trabalhadores temporários no setor agrícola.

Desde o início da pandemia, já morreram 12 617 pessoas na Catalunha por causa do coronavírus, tendo o último boletim apontado para mais uma morte do que na véspera.

Justiça trava confinamento

A região sanitária de Lérida está em isolamento desde 4 de julho, quando todas as saídas para fora foram proibidas (exceto para trabalhar), mas neste domingo houve ordem para voltar a confinar ao domicílio, saindo apenas nos casos de maior necessidade. Uma medida que afeta cerca de 160 mil pessoas da capital Lérida e de outros sete municípios da comarca de Segrià.

Contudo, a covid-19 passou do âmbito da saúde pública para o dos tribunais, com a justiça a travar a ordem de confinamento decretada pela Generalitat. A juíza alega que o confinamento só é válido em estado de alarme -- um argumento que o primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, usou repetidamente para manter Espanha nessa situação durante mais de dois meses.

Segundo a juíza, que deu razão ao pedido dos procuradores, os casos que existem estão "controlados" segundo o boletim epidemiológico, onde só aparece uma referência curta à ideia de transmissão comunitária. O tribunal considera por isso "desproporcional" o novo confinamento.

O procurador tinha defendido que para avançar com uma medida destas deve ser pedido ao governo central a declaração do estado de alarme: "É uma competência estatal que se exerce, além do mais, com a garantia de intervenção do Congresso", indicou.

O governo espanhol não exclui a hipótese de declarar o estado de alarme na região da Catalunha, apesar de defender uma nova legislação que permita um confinamento local para responder a estes casos sem a necessidade de ir tão longe.

Já o governo catalão indicou que vai impor o confinamento por decreto de lei "para poder atuar com a contundência necessária para controlar o vírus". O presidente da Generalitat. Quim Torra, pediu ainda aos habitantes da região que fiquem em casa, apesar do que os tribunais disseram.

"Não conseguimos compreender os obstáculos burocráticos em decisões que são tomadas pela saúde e vida dos cidadãos", disse Torra numa conferência de imprensa. "É um luxo perder tempo com resoluções legais. Não podemos permiti-lo", acrescentou.

Na Catalunha, é obrigatório o uso de máscara mesmo ao ar livre.

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