Atleta agredida em Turim: um "ato racista"

Daisy Osakue, 22 anos, italiana de pais nigerianos, foi agredida no domingo à noite. Este foi o 12º. ataque racista nos últimos 50 dias. A oposição acusa o governo italiano de criar um ambiente xenófobo e de medo com a política de imigração. O cardeal Bassetti alerta: "Basta alimentar os medos: o vírus xenófobo pode ressurgir".

Daisy Osakue, 22 anos, estudante numa universidade do Texas, é uma grande esperança do atletismo italiano, com o seu record no lançamento do disco. Regressava a casa na pequena cidade piemontesa de Moncalieri e foi atingida na têmpora por um ovo atirado por um dos dois ocupantes de um automóvel que seguia a grande velocidade. No hospital oftalmológico da universidade foi-lhe diagnosticada uma lesão na córnea mas os médicos pensam que estará recuperada a tempo de participar no Campeonato Europeu de Atletismo, de 6 a 12 de agosto.

"Não quero jogar a cartada do sexismo ou do racismo mas as pessoas deviam poder sair à rua sem serem atacadas", afirmou Daisy com um penso a proteger o olho, à saída do hospital. "São uns cobardes e meteram-se com a pessoa errada, deram-me mais força para continuar. É evidente que se trata de um ato racista, eles procuravam uma mulher de cor", acrescentou.

Mas Daisy não é uma mulher qualquer, é uma atleta conhecida, e portanto a agressão não passou despercebida nas estatísticas. As reações da oposição ao governo de Giuseppe Conte, e em particular ao seu vice Matteo Salvini, ministro do Interior, invadiram os órgãos de informação e as redes sociais. Salvini, líder do partido de extrema direita Liga (ex-Liga Norte), fez declarações na praia onde está de férias: "Um clima racista em Itália? Não digam disparates. Cada agressão deve ser punida e condenada, mas a imigração em massa permitida pela esquerda nestes últimos anos não ajuda."

Salvini está debaixo de fogo popr parte dos grupos de defesa dos direitos humanos e mesmo da hierarquia católica pela sua implacável política de imigração, que incluiu o encerramento dos portos italianos aos refugiados.

Matteo Renzi, do Partido Democrático, que foi primeiro-ministro de 2014 a 2016, escreveu no twitter: "Os ataques contra pessoas com pele de cor diferente é uma emergência. Isso hoje é óbvio, já ninguém pode negá-lo, em especial os que estão no governo".

Segundo a agência das Nações Unidas para as Migrações, citada pela Reuters, desde o início de junho houve pelo menos dez casos de estrangeiros alvejados com espingardas de pressão de ar por italianos, incluindo um bebé romeno que corre o risco de paralisia. A contagem remete-se a junho, quando o militante sindical Soumaïla Sacko foi assassinado em Calogero, na Calábria. Na noite de sábado para domingo, um marroquino morreu num acidente de automóvel, em Roma, quando fugia a perseguidores que pensavam tratar-se de um ladrão.

O chefe dos bispos italianos, o cardeal Bassetti, também veio à praça pública: "Os episódios de violência dessas semanas, que visam o estrangeiro por ser estrangeiro, não têm qualquer justificação. Basta alimentar o medo: o vírus xenófobo pode reemergir." O semanário Famiglia Cristiana comparou Salvini a Satã na capa de quarta-feira passada.

Das Nações Unidas chegaram sinais de preocupação: "Não podemos tolerar esta escalada de violência indiscriminada que revela uma matriz racial alarmante", disse Felipe Camargo, responsável do Alto Comissariado para os Refugiados no sul da Europa do sul.

Daisy não é a primeira desportista vítima de racismo em Itália. No jogo da squadra azzurra contra a Arábia Saudita, em maio último, na Suíça, adeptos italianos exibiram uma faixa dizendo "O meu capitão é de sangue italiano", rejeitando a hipótese de Mario Balotelli, italiano de origem ganesa, ser escolhido para encabeçar a equipa. Balotelli respondeu nas redes sociais: "Estamos em 2018, rapazes, Chega! Acordem, por favor!". Ao longo da carreira, este jogador, que atualmente está no Nice, foi muitas vezes alvo de insultos racistas por parte de claques italianas.

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