Ativista com cancro terminal morre algemada a cama de hospital

Familiares e organizações internacionais realizaram diversos pedidos ao governo dos Emirados Árabes Unidos, mas não conseguiram libertar a mulher.

Uma mulher dos Emirados Árabes Unidos, Alia Abdulnoor acabou por passar os seus últimos dias de vida com as mãos e pés algemados a uma cama de hospital. Condenada a 10 anos de prisão por ter feito donativos a famílias sírias, os pedidos da mulher para morrer longe da clínica e dos guardas que controlavam o quarto de hospital não surtiram efeito e a ativista acabou por morrer no sábado passado, vítima de cancro, no hospital Tawam, na cidade de Al Ain, no emirado de Abu Dhabi.

A família de Alia, a Organização das Nações Unidas (ONU) e outras instituições internacionais de defesa dos direitos humanos tentaram diversas vezes que a mulher fosse libertada e fizeram vários pedidos aos Emirados Árabes Unidos, mas foram sempre ignorados. "Alia morreu num quarto de hospital fortemente vigiado quando tudo o que ela queria nos seus últimos dias era morrer com o cuidado e carinho da sua família", disse um membro da organização Human Rights Watch, Zayadin Hiba, ao El Mundo.

Abdulnoor viu ser-lhe diagnosticado um cancro da mama em 2015, pouco tempo depois de ter sido presa. Apenas no final do ano de 2016, quando já apresentava um peso muito inferior e perigoso para a saúde, é que Alia foi enviada para um hospital. Em janeiro de 2018, quando a doença começou a avançar rapidamente, foi levada para a unidade de cuidados intensivos, onde ficou até ao seu último dia.

Os médicos do hospital Tawam dizem que a mulher de 42 anos se recusou a receber tratamentos, o que terá facilitado o avanço rápido do cancro, mas a família nega e diz que Alia foi obrigada pelos funcionários do hospital a assinar um documento em que dizia não querer receber tratamentos de quimioterapia.

A ativista foi detida o em julho de 2015 pelas autoridades do emirado, que atacaram a sua residência e levaram-na para um centro de detenção secreto, onde não tinha janelas, luzes ou ventilação adequada. Segundo a ONU, a jovem foi proibida de dormir, rezar e ir à casa de banho livremente durante quinze dias, tendo estado desaparecida durante seis meses.

Mesmo com o diagnóstico de cancro conhecido pouco depois da sua prisão, a mulher esteve 11 meses em detenção preventiva na prisão de Al Wathba. Alia Abdulnoor disse ter estado numa cela pequena e suja, com mais 15 prisioneiros, e que várias vezes protestou contra as condições fazendo greve de fome, mas em vão.

Até setembro de 2016, Alia não soube o porquê da sua detenção. No ano seguinte, foi julgada por diversas acusações: financiar grupos terroristas, controlar websites, publicar noticias e informações sobre o Al Qaeda e disseminar informações prejudiciais ao Estado. De acordo com a família de Alia, estas acusações remetem ao apoio (donativos) que a mulher terá oferecido a várias famílias sírias durante as revoltas contra o presidente Bashar Assad.

O advogado de Alia alegou em tribunal que a mulher foi obrigada a admitir ser culpada das acusações durante o tempo em que esteve detida, sob ameaça de tortura aos seus familiares. Apesar das alegações, o Supremo Tribunal Federal manteve a pena. "A morte de Alia é uma trágica lembrança de que a retórica dos Emirados sobre a tolerância não é nada mais do que palavras vazias", lamenta Zayadin.

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