A verdadeira Mulan: a ativista Agnes Chow não desiste de Hong Kong

Aos 23 anos, Agnes Chow já tem uma longa experiência de luta política em Hong Kong e, mesmo em risco de ser condenada a prisão perpétua, a ativista não se cala. É por isso que nas redes sociais a comparam à heroína dos filmes da Disney.

Agnes Chow, ativista pró-democracia de 23 anos de Hong Kong, foi uma das detidas esta semana ao abrigo de uma nova lei de segurança imposta por Pequim: foi presa sob a acusação de "conluio com forças estrangeiras" - e, se for condenada, pode ficar em prisão perpétua.

Para já, Chow foi libertada sob fiança, e tem recebido apoio de um movimento espontâneo nas redes sociais, sobretudo no Twitter, com a hashtag #FreeAgnes. De tal forma, que até já tem uma alcunha: começaram a chamar-lhe Mulan, numa referência à lendária heroína chinesa que lutou para salvar a sua família e o seu país e que se tornou conhecida mundialmente em 1998 quando foi protagonista de um filme de animação da Disney.

O filme conta a história de uma jovem que se disfarça de homem para poder integrar o exército do imperador chinês e lutar contra a invasão dos Hunos. Uma nova versão, agora em live action, deveria ter sido lançado este ano, tendo como protagonista a atriz sino-americana Liu Yifei.

Ao longo de 2019, os manifestantes de Hong Kong que pediam reformas democráticas e exigiam limitações ao poder de Pequim no território estiveram envolvidos em confrontos cada vez mais violentos com a polícia de choque, muitas vezes acusada de usar força excessiva. A certa altura, a atriz Liu Yifei partilhou uma publicação do Weibo do jornal governamental People's Daily de Pequim, comentando, em chinês: "Eu também apoio a polícia de Hong Kong. Agora podem espancar-me." Os manifestantes pró-democracia começaram imediatamente a criticar Liu, acusando-a de apoiar a brutalidade policial.

O filme transformou-se num símbolo político e os apoiantes dos manifestantes de Hong Kong pediram um boicote a Mulan. Entrentanto, devido à pandemia de covid-19, com o encerramento da maior parte das salas de cinema em todo o mundo, a estreia foi adiada até que recentemente a Disney anunciou que Mulan teria apenas um lançamento limitado no cinema e seria depois exibido no serviço de streaming Disney +.

Por isso, quando Agnes Chow foi detida, muitos começaram a dizer que a ativista era a verdadeira representação de uma heroína que luta sem medo. Ela era a verdadeira Mulan - corajosa, lutadora e, sobretudo, defensora da democracia.

Quem é Agnes Chow?

Agnes Chow está envolvida na política de Hong Kong desde os 15 anos, quando integrou um movimento juvenil que protestava contra os planos de implementar "educação moral e nacional" nas escolas públicas. Foi durante esses protestos que ela conheceu o ativista Joshua Wong. Juntos, tornaram-se figuras-chave do movimento dos chapéus de chuva que em 2014 organizou uma série de protestos exigindo que a cidade pudesse escolher seu próprio líder. Os protestos não tiveram sucesso - mas criaram uma nova geração de jovens líderes políticos.

Chow, Wong e Nathan Law, outro ativista, fundaram o partido pró-democracia Demosisto em 2016. Em 2018, Chow tentou concorrer às eleições locais - para isso, renunciou à cidadania britânica e adiou as suas provas finais na universidade. Mas a candidatura foi rejeitada porque as autoridades afirmaram que ela apoiava a "autodeterminação" de Hong Kong.

"A questão mais importante não era se eu poderia concorrer a futuras eleições, mas se os direitos e liberdades mais básicos das pessoas de Hong Kong podem ser protegidos", reagiu.

Em 2019, protestos massivos eclodiram em Hong Kong contra a lei da extradição que iria permitir que suspeitos em Hong Kong fossem julgados na China continental. Em agosto, Agnes Chow foi presa por participar numa reunião política não autorizada. Outras figuras pró-democracia, incluindo Joshua Wong e Andy Chan, também foram presos. Todos foram depois libertados.

A 30 de junho, em plena pandemia, a nova lei de segurança entrou em vigor. Alguns ativistas políticos, como Law, do mesmo partido, optaram por fugir de Hong Kong, com medo de serem presos por Pequim. Agnes Chow e Joshua Wong anunciaram a sua saída do Demosisto mas optaram por ficar em Hong Kong.

No início desta semana, Chow foi presa numa operação nacional em que foram detidas outras figuras proeminentes como o magnata dos media Jimmy Lai. Foi depois revelado que ela tinha sido detida por "conluio com forças estrangeiras" sob a nova lei de segurança nacional.

"Eu diria que é muito óbvio que o regime e o governo estão a suar a lei de segurança nacional para reprimir dissidentes políticos", disse Agnes Chow aos jornalistas após a sua libertação. Mais tarde, num comunicado no Facebook, explicou a que sua última detenção foi a mais "assustadora" até agora: "Presa quatro vezes, esta é a mais assustadora. Mas mesmo na delegacia, ainda posso ouvir de meus advogados o amor e a preocupação que todos têm por mim", disse ela. "A estrada [à frente] é difícil. Cuidem-se."

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