"A Venezuela é a nossa tragédia continental"

Na opinião de Miguel Carter, cientista político e fundador do think tank paraguaio DEMOS Dilma Rousseff foi vítima de um "golpeachment" e Lula da Silva é uma espécie de Cristiano Ronaldo

Quais são os países da América Latina onde se respira uma democracia mais saudável?

Os estudos que temos sobre a qualidade da democracia mostram que há três países onde as instituições estão mais consolidadas: o Uruguai, o Chile e a Costa Rica. Ainda assim, o Chile tem um défice muito grande na participação cívica e sente-se um grande desencanto e desconfiança em relação à classe política.

Algo que é um mal muito europeu neste momento...

Sim, é um mal que afeta grande parte dos sistemas democráticos no mundo. O Chile tem essa dificuldade. O Uruguai tem menos. É mais pequeno e mais fácil de gerir. Mais homogéneo.

E qual é o país que poderá estar mais próximo daquilo que entendemos por uma ditadura?

Temos sempre Cuba, mas importa salientar que é um regime que está a mexer-se internamente. Não quer dizer que vá desembocar numa democracia, mas começa a mostrar uma abertura gradual. E é um dos países mais igualitários e nós sabemos que a democracia só encontra terreno para avançar nas sociedades mais igualitárias. Quando as sociedades são muito desiguais, como acontece no Brasil devido à extrema concentração de riqueza, a democracia fica minada.

A sociedade cubana não será mais igualitária porque está nivelada por baixo?

De certa forma, sim. Mas, ao mesmo tempo, existem elementos de qualidade de vida, como a saúde e a educação, que são de realçar e que asseguram direitos que outros países não conseguem assegurar para os seus habitantes mais pobres.

Sobre a Venezuela podemos dizer o quê?

A Venezuela é a nossa tragédia continental. Há poucas décadas era visto como um dos países mais fortes da região. No tempo das ditaduras militares, a Venezuela era uma ilha e um país cheio de recursos. Tinha, porém, muitas desigualdades sociais, que acabaram por ajudar à emergência do chavismo. Hoje é um país em severa crise e trata-se de uma questão fundamentalmente política. É uma nação que vive das exportações de petróleo e que não procura um outro modelo de desenvolvimento. Essa dependência de um único recurso torna o país muito vulnerável às oscilações do preço do barril. E foi consolidado um processo político que é uma tragédia democrática.

Perante o cenário de crise atual, o presidente Nicolás Maduro conseguirá aguentar-se no poder ou vai acabar por cair?

Não gosto de fazer futurologia, mas parece-me difícil que este cenário continue a arrastar-se durante muito mais tempo. É um dos países onde o risco de implosão social e política é maior. Já há muita gente a sair para a rua e a fazer saques. Muita gente a tentar sair do país, a ir para o Brasil ou para as Caraíbas, o que seria algo impensável há não tanto tempo.

O ano de 2016 foi alucinante a nível político no Brasil. Dá quase a sensação de que ninguém tem as mãos limpas. A corrupção é a grande doença brasileira?

A corrupção é muito grande, mas ela é de longa data. O esquema com as construtoras vem da época dos militares. O que não sabíamos era quem estava envolvido, as somas, os detalhes. Vejo como um grande avanço o Brasil ter construído uma Polícia Federal e um Ministério Público com autonomia para investigar e para pôr na cadeia os grandes empresários. Isto é inédito na história do Brasil e são elementos positivos. Mas tudo isto acontece num contexto problemático, de tremenda desigualdade social e essa desigualdade gera desconfiança. O Brasil é um dos países do mundo onde a desconfiança social é maior. Só 5% da população diz que pode confiar em alguém que não faz parte do seu círculo imediato de relações. Isso gera condições favoráveis para a corrupção e a corrupção gera desconfiança em relação às instituições. É um ciclo vicioso.

Como viu o impeachment de Dilma Rousseff?

Prefiro falar de golpeachment. É verdade que não foi um golpe militar e as estruturas institucionais continuam de pé, mas derrubar a presidente com pretextos que não são suficientes para um impeachment é um abuso de poder. Foi um abuso de poder por parte do Congresso com a cumplicidade do poder judicial. Em algumas dimensões, o Brasil é um regime democrático em suspenso.

Acredita num possível regresso de Lula da Silva?

O Lula tem um lado mítico para uma parte da população brasileira, mas também é uma das figuras mais rejeitadas por parte do eleitorado. De qualquer forma, é talvez dos políticos mais espertos e hábeis. É um craque, um Cristiano Ronaldo, uma figura que consegue fazer coisas que outros jogadores não conseguem.

E Michel Temer?

É uma fraqueza para o Brasil e está com um défice de apoio muito grave. É uma figura fraca e representa elementos daquela velha oligarquia política da qual o Brasil nunca se conseguiu livrar.

Há dez anos acreditava-se que o Brasil poderia estar hoje a dar cartas como potência mundial.

Sim, mas houve um otimismo exagerado. Eu sempre andei pelos fundões do Brasil. Na minha pesquisa com os sem-terra, com os camponeses, nos fundões da Amazónia, dava para perceber os sérios problemas sociais, as violações dos direitos humanos, as contratações de pistoleiros para matar lideranças sindicais...

Tudo isso ainda existe?

Existe. Hoje a violência no campo é ainda pior do que era há uns anos - dizem as estatísticas. Quem viveu nesses fundões como eu vivi via os avanços, mas não ficava iludido. Sempre tive muita consciência do peso da oligarquia. Via, no interior do Brasil, como as deputações e as prefeituras eram contestadas e dominadas pelas oligarquias que, por sua vez, elegiam as representações para os estados e para o Congresso Federal. Essa tradição oligárquica no Brasil continua muito forte e em muitos casos é uma oligarquia nova que foi adquirindo os vícios da oligarquia velha. Em vez de contratar pistolagem contratam uma firma de segurança que faz o mesmo.

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