"A máscara é incómoda, mas é mais incómodo morrer"

Entrevista a José Ramón Fernández-Peña, presidente-eleito da Associação Americana de Saúde Pública - American Public Health Association

Com mais de 4,3 milhões de casos de infeção conhecidos e acima de 148 mil mortos, os Estados Unidos são o país mais afetado pela pandemia de covid-19. Califórnia, Flórida e Texas apresentam os maiores volumes diários de novas infeções, mas a reabertura levou a surtos um pouco por todo o país. O presidente-eleito da Associação Americana de Saúde Pública (APHA, na sigla inglesa), José Ramón Fernández-Peña, explica o que se está a passar e como a dissonância entre a ciência e as decisões políticas tem atrasado a recuperação.

Como caracteriza a situação atual nos Estados Unidos?
Está bastante mal. O número de casos continua a aumentar de forma dramática e o número de mortos continua a aumentar, embora não tão dramaticamente. Vemos que há cada vez mais casos em pessoas jovens, entre os 20 e os 40 anos, e estamos a encontrar casos em crianças, normalmente acima dos dez anos. Em muitas regiões do país não estamos a seguir as diretivas lógicas de saúde pública, que são lavar as mãos, usar máscara e manter distância física.

Ainda assim, o caso mais grave, que era Nova Iorque, está a mostrar grande recuperação.
Sim, mas em Nova Iorque levaram isto a sério. Pegaram na informação da ciência para aplicar às políticas no estado e estamos a ver os bons resultados de observar estes três cuidados - manter a distância, lavar as mãos e cobrir a cara. É importante explicar que a máscara tem de cobrir a boca e o nariz. Se não cobrir o nariz, não serve.

Como se explica que estados com mais casos tenham menor fatalidade? Por exemplo, a Flórida tem mais infeções que Nova Iorque mas menos mortos.
Em Nova Iorque tudo começou muito antes. Quando começaram os casos, não se tinha ainda encontrado nenhum tipo de tratamento. Ainda não há um tratamento eficaz, mas há o soro dos pacientes que já tiveram a infeção, que reduz o tempo em uma pessoa permanece nas unidades de cuidados intensivos. Com isso, reduz-se a mortalidade.

Mas Estados Unidos já ultrapassam os quatro milhões de infetados.
Sim. É uma vergonha.

E quase 150 mil mortos. O país poderá levar mais tempo a vencer a pandemia que outras partes do mundo?
O mundo é muito mais pequeno do que era em 1918. Estamos a ver agora o número de casos na África do Sul a multiplicar-se a velocidades espantosas. O mesmo no México. No Brasil. Não sabemos bem o que se está a passar na Índia, onde há mais de um milhão de casos, nem noutras partes de África Central, ou na Rússia. O número de casos está a aumentar em muitas partes do mundo. Em Israel, Suécia. É um problema global, então a atitude tem que ser global. Não pode ser "eu vivo em Barcelona onde há menos casos por isso quero liberdade."

É isso que se passa nos locais menos afetados, as pessoas têm menos cuidados?
Sim, mas mesmo nas cidades muito afetadas. Olhem como está a Florida. E o seu governador, ainda assim, não diz o que devia dizer. Por causa da política. Nas suas mãos vão estar todas as mortes que ocorram.

Acredita que o partidarismo numa questão que é de saúde pública está a condenar os EUA?
Estou convencido que sim. É importante que todos entendam que estas medidas não restringem a nossa liberdade, não cortam o nosso respeito, e que se não levarmos isto a sério vamos passar muito tempo a lidar com esta pandemia. A pandemia faz o que as pandemias fazem: mata. Já tivemos várias, como a pandemia da SIDA há não muito tempo. Por ignorância morreram milhões de pessoas. Agora temos a oportunidade de aprender e atuar com base em informação. Se escolhemos não adotar estas medidas de segurança, a culpa é nossa.

O caminho fácil é culpar a OMS, dizer que não sabia o que dizia, que o doutor fulano de tal disse para não se usarem máscaras.

Para quem está de fora a olhar para os EUA, como se explica que um país tão avançado esteja nesta situação?
Queremos crer que somos o país mais avançado do mundo, mas há muitas coisas em que não o somos, e de longe. É um país com muitos problemas. Também muitas vantagens e potencial. Um dos problemas que temos é que não tomamos sempre decisões baseadas em evidências científicas. É um problema enorme.

Do ponto de vista da American Public Health Association, o que é mais urgente fazer agora?
O mais urgente é entender e aceitar que podemos ganhar controlo sobre isto usando máscaras, lavando as mãos e mantendo uma distância física de dois metros. Estes são os três passos mais importantes, mais baratos e mais simples que todos podemos tomar.

Como fazer isso se há uma parte da população que não acredita no risco do vírus e as autoridades não podem ir atrás de todos os que não cumprem as regras?
Não podem, mas poderia impor-se multas. O problema é que não tem havido uma liderança consistente durante todos estes meses. O país não falou com uma só voz e falou com má informação, de cima para baixo. Quando não se escuta e se nega a ciência, que deveria guiar as políticas, é muito difícil que haja uma iniciativa nacional.

Os críticos apontam, no entanto, que a Organização Mundial de Saúde mudou várias vezes de posição e criou-se confusão quanto ao que fazer. Concorda?
O que nos esquecemos é que só descobrimos este vírus há seis meses. A cada dia aprendemos algo novo e o que dizíamos há seis meses poderá ter sido um erro. Não por maldade, não de forma intencional, não para mentir. À medida que vamos descobrindo coisas novas vamos disseminando e informando. Esse é o processo científico. Não quer dizer que os cientistas estivessem enganados, estavam a falar do que podiam com o que sabiam. Agora que aprenderam mais, falam mais e melhor.

O caminho fácil é culpar a OMS, dizer que não sabia o que dizia, que o doutor fulano de tal disse para não se usarem máscaras.

Portanto, considera que é preciso ir adaptando as recomendações?
Temos uma base de evidência suficiente do que sabemos até hoje e dentro de uma semana essa informação será mais rica, mais precisa, e por aí adiante. O que é bom e o que é mau, o que é conveniente e inconveniente, o que é perigoso e o que não é.

Até há uns meses pensávamos que as crianças não ficavam infetadas. Não era algo que estivéssemos a ocultar, ainda não tínhamos era visto evidências disso.

Como vamos então gerir esta crise de saúde pública enquanto não houver uma vacina?
Mais uma vez, temos medidas de prevenção ao nosso alcance, que custam pouco. Para lavar as mãos tenho de comprar sabão, tenho de comprar uma máscara, mas essas medidas vão permitir-nos diminuir a transmissão do vírus.

Há um grande número de pessoas que fazem teste à covid-19 e só recebem os resultados oito dias mais tarde. Posso ir hoje fazer o teste e no caminho de volta a casa ser infetado. Posso ir amanhã já infetado, mas como é recente o teste pode não detetar a presença do vírus, porque a carga viral não é suficiente para ser detetada. Se espero oito dias pelos resultados, tenho oito dias para transmitir o vírus a outras pessoas. Por isso é tão importante a máscara.

Em todos os momentos, diria?
Em todos os momentos. Eu não saio de casa sem máscara, ponto final. E não gosto dela. Pica-me, incomoda-me, descai, embacia-me os óculos. É incómoda, mas é mais incómodo morrer.

Há maneira de convencer os resistentes?
Creio que uma parte importante da educação em saúde pública é que não se trata de convencer, isso nunca funciona. Trata-se de fornecer informação suficiente, clara e acessível, para que tomem as melhores decisões baseadas em evidências científicas. É uma questão de sentir que pertencemos a uma sociedade e temos responsabilidade para com todos, e entender que as minhas ações afetam os outros.

Uma vacina que custe muito dinheiro ou não haja em quantidade suficiente não é solução.

A crise da covid-19 também está a ter efeito noutras áreas da saúde pública?
Sim. Há pessoas que não estão a fazer o acompanhamento da diabetes, hipertensão, exames de rotina, há pais que não levam os filhos para completarem o plano de vacinação.

Há um impacto muito grande na área da saúde mental. Vimos um aumento no número de casos de violência doméstica. Também há questões de depressão. Os humanos são seres sociais e estarmos fechados em casa a olharmos ao espelho e para os parceiros, filhos, pais é difícil. A comunidade latina, em especial, vive muito em residências multi-geracionais, ou seja, não é raro que vivam com os pais, os avós, a tia, o primo. O espaço nem sempre é suficiente para que toda a gente esteja em comodidade. Muitas pessoas também se viram afetadas do ponto de vista económico, perderam o emprego, então os temperamentos estão à flor da pele e os comportamentos podem tornar-se violentos.

Pessoas que estavam em tratamento para o uso de drogas e não podem aceder a eles tiveram as suas situações exacerbadas. Algumas pessoas que recebiam tratamento de saúde mental puderam continuar a fazê-lo com telemedicina, mas nem sempre isto é possível.

A APHA crê então que o reconfinamento é necessário dada a gravidade da situação, ou os efeitos colaterais são demasiado sérios?

É uma decisão que se deve tomar localmente, com base em ciência. Se numa área há uma taxa de crescimento de novos casos de covid-19, então é importante que as lojas obriguem ao uso de máscara. Se há estados com muitos casos, as pessoas que viajam deles para outros devem fazer isolamento de 14 dias.

Que lições aprendemos que serão importantes para combater a segunda vaga?
Para a primeira vaga, que ainda não saímos dela. Creio que a lição mais importante que eu gostaria que todos aprendessem é que esta é uma questão de todos. Se não assumirmos todos um papel de responsabilidade, vai ser muito difícil sair disto no curto prazo. Se a atitude for "eu não ponho máscara porque a mim ninguém tira a liberdade", eu digo: você quando entra no carro põe o cinto de segurança, sim ou não? Sim. Você quando vai a um restaurante onde não se pode fumar, não fuma. Você com menos de 18 anos não pode comprar álcool. Porquê? Porque estamos a tratar de evitar um mal maior. É uma responsabilidade que todos adquirimos.

É possível prever quando haverá condições para um regresso à normalidade?
Era preciso ter uma bola de cristal. Como se pode controlar uma pandemia? Tomando as medidas de prevenção que conhecem e são eficazes, e esperando que se possa conseguir rapidamente uma vacina que seja possível distribuir. Porque uma vacina que custe muito dinheiro ou não haja em quantidade suficiente não é solução.

Há três vacinas muito promissoras. Quando passarem a fase III e forem comprovadas e distribuídas de forma igualitária, poderemos começar a respirar mais tranquilamente. Há otimismo - que se vai conseguir no final deste ano, primavera de 2021.

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