A Grande Marcha de Macron: nova dor de cabeça para Hollande

Ministro da Economia tem 14 mil voluntários a recolher queixas e sugestões dos franceses a pensar nas presidenciais de 2017.

Camisa azul claro, colarinho aberto, mangas arregaçadas. É assim que Emmanuel Macron surge num vídeo divulgado na sua página de Facebook a apresentar a Grande Marcha. Uma campanha porta-a-porta por toda a França em que voluntários vão ouvir os franceses, as suas queixas e sugestões, a pensar nas eleições de 2017. Isso quer dizer que o ministro da Economia se prepara para desafiar François Hollande nas presidenciais do próximo ano? Ele não confirma nem desmente, mas é mais uma dor de cabeça para o chefe do Estado socialista, já enfraquecido pelas greves das últimas semanas que deixaram o país à beira da rutura de combustível.

Um mês e meio depois de ter lançado o seu próprio movimento político, chamado Em Marcha, Macron dá agora novo passo para se afastar do Partido Socialista, onde militou entre 2004 e 2008, e "construir o campo do progresso". O homem que em 2014 trocou a carreira bem-sucedida num banco de investimento pela pasta da Economia no governo chefiado por Manuel Valls quer encontrar as suas próprias soluções para os "desafios novos" que França enfrenta e que "os partidos clássicos não permitem resolver". "O nosso objetivo é traçar o retrato de uma França invisível, a que não se vê nos partidos políticos", explica Macron para a câmara.

A partir de ontem, portanto, mandou para a rua 14 mil voluntários que nos próximos meses vão recolher cem mil testemunhos de francesas e franceses -"de esquerda ou de direita". Ao longo do verão, Macron promete fazer o "diagnóstico" dos problemas e desejos do país, apresentando o balanço em setembro e, a partir, daí, traçar um "plano de ação para transformar" França.

Sobre eventuais ambições presidenciais, Macron não se pronuncia. Mas se quiser chegar ao Eliseu, terá de ultrapassar a dificuldade de não ter uma máquina partidária a apoiá-lo. Para já, esta Grande Marcha valeu-lhe uma reprimenda de Manuel Valls. Num artigo no Le Parisien, o primeiro-ministro lembrou o dever de "lealdade" de Macron para com o governo e, saudando a iniciativa, recordou que há coisas que devem ser feitas "nas horas em que não se é ministro".

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No mês passado, Macron viu o seu apoio disparar, depois do lançamento de Em Marcha. Segundo um estudo Viavoice para o Libération, 38% dos inquiridos acham que o ministro da Economia, de 38 anos, daria "um bom presidente da república". Mais oito pontos do que no mês anterior. E quando a questão é colocada apenas aos simpatizantes da esquerda, Macron é o preferido para ser o candidato às eleições do próximo ano, à frente da ex-ministra e ex-líder do PS, Martine Aubry, do eurodeputado e líder do Partido de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, e de Manuel Valls.

Filho de médicos, foi à avó, filha de analfabetos, que Emmanuel Macron foi buscar a costela de esquerda. Terminado o liceu - onde conheceu a mulher, Brigitte Trogneux, então sua professora e 20 anos mais velha do que ele -, estuda Filosofia e Ciência Política antes de entrar na ENA (Escola Nacional de Administração) em Estrasburgo. Pianista exímio, praticante de futebol e boxe francês, começou a carreira na Inspeção dos Impostos, mudando depois para o sector privado, onde trabalhou no banco Rotschild & Cie.

A política surgiu na vida de Macron na casa dos 20. Mas só em 2012, quando Hollande chega à presidência, é que se torna secretário-geral adjunto do Eliseu. Dois anos depois, é ministro, mesmo sem ter regressado à militância no PS.

Com fama de liberal (o que lhe vale a inimizade da ala mais à esquerda do Partido Socialista), Macron é um dos maiores defensores da reforma da lei laboral que provocou a recente onda de greves e protestos em França. Há dias, numa visita a uma escola de Lunel, perto de Montpellier, o ministro da Economia foi questionado por dois grevistas sobre a lei que visa flexibilizar os despedimentos, criar um teto máximo para indemnizações e alargar as exceções às 35 horas de trabalho semanal. Depois de uns dez minutos de discussão acesa, já sem o seu sorriso característico e visivelmente irritado, quando um dos homens lhe lança. "Tem o seu dinheiro, pode comprar esses fatos", o ministro responde: "Não me mete medo com a sua T-shirt. A melhor maneira de comprar um fato é ir trabalhar".

Captado pelas câmaras da BFMTV, o momento foi imediatamente visto pelos críticos de Macron como prova da arrogância de um filho da elite, enquanto os seus defensores atribuíram a falta de calma do ministro à falta de experiência política. Resta saber se esta imagem chegará para mudar a boa opinião que os franceses têm dele.

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