"A comunidade portuguesa tem medo de assumir o apoio a Donald Trump"

Francisco Semião, membro da comissão nacional de Trump para a diversidade, está convencido de que o novo presidente dos EUA pode ter uma "mentalidade diferente" em relação à base das Lajes.

Em outubro dizia que "Donald Trump não é o homem que os media dizem ser". Já o conhece pessoalmente?

Não, nunca me encontrei com ele. Mas conheço pessoas que estão muito próximas dele. E estas pessoas, muitas pertencem a minorias, têm orgulho naquilo que são e não estariam com Trump se ele fosse má pessoa.

Então quem é o Trump que apoia?

É um empresário que conhece o sistema. É honesto o suficiente para dizer que beneficiou de uma série de coisas que as pessoas criticam mas se a lei dá essa oportunidade, quem é que vai pagar mais impostos?

Qual a primeira coisa que gostaria de ver o presidente Trump fazer?

Devia revogar todos os decretos presidenciais de Obama. Estas ordens executivas não passaram pelo Congresso e Obama assinou muitas quando o Congresso passou a ser dominado pelos republicanos. Mas o Congresso é o reflexo do povo.

Agora que está sentado na Sala Oval, Trump vai manter a retórica da campanha ou vai moderá-la?

Acho que ele vai refinar o discurso. Vai ter relações públicas, pessoas para lhe escrever os discursos. Acho que não vai ser tão duro, mas tenho a certeza que irá manter o seu estilo porque é isso que faz dele o Donald Trump.

Uma das medidas mais controversas de Obama foi a aprovação do Obamacare, como profissional do setor, o que acha dessa reforma da saúde?

O Obamacare foi imposto aos americanos. A maioria das pessoas não concordavam com a reforma, a maioria das pessoas não leram em que é que consiste - ninguém vai ler milhares de páginas. Na verdade é um imposto para redistribuir a riqueza. O que temos neste momento é um híbrido. Temos o Medicaid e Medicare, mas é o governo a pagar ao setor privado.

Em termos internacionais, podemos esperar uma aproximação à Rússia e mais tensões com a China?

Acho que o senhor Trump terá todo o cuidado para não se envolver numa guerra. Não vai querer desestabilizar o mundo. Mas podemos estar errados. Estávamos errados em relação a Obama. E eu votei nele da primeira vez. Quanto à China, o que Trump vai querer garantir é que os EUA consigam melhores acordos em cima da mesa.

E a relação com Putin? A lua de mel entre duas personalidades fortes pode durar?

Vai depender. Putin é um homem inteligente que não vai querer desafiar uma superpotência. No final de contas acho que vão encontrar um compromisso. Trump tem uma mente de xadrezista, tal como Putin. Pode haver tensões, mas não chegarão aos extremos de que se fala.

Como líder da comunidade portuguesa, o que espera do novo presidente?

A ideia de Trump é que não há divisões, somos todos americanos. E como americanos ele quer ter a certeza que teremos uma vida melhor: impostos mais baixos, melhor educação, melhor cuidados de saúde e segurança em relação ao terrorismo. Houve uma conversa entre Trump e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa em que falaram dos Açores. Isso é uma coisa pela qual a minha organização, a NOPA [National Organization of Portuguese Americans], tem feito lóbi. Suscitei o assunto com os conselheiros principais do presidente e eles disseram que é um assunto importante. Há uma preocupação por a China poder vir a ter uma presença no Atlântico. Podemos ver uma mentalidade diferente.

A sua decisão de apoiar Trump foi pessoal, como é que os seus colegas na NOPA reagiram?

Alguns pessoas vieram dizer que não concordavam que um dirigente da NOPA tomasse posição por Trump. Alguns amigos queixaram-se. Sou independente. Mas... eu achava mesmo que Obama não devia ter um segundo mandato. Por isso apoiei Romney e passei a assumi-lo. E os líderes portugueses disseram-me que aquela não era a minha função, que me devia limitar a apelar às pessoas para votarem. Mas depois vi-os a eles a apoiar Obama. Foi então que me questionei: porque é que eles podem dizer o que querem e eu tenho de estar calado? Por isso assumi o risco e vim a público apoiar Trump.

Lida com a comunidade portuguesa, há muitos apoiantes de Trump?

Há alguns. Recebi muitas mensagens privadas nas redes sociais a dar-me apoio, mas as pessoas têm medo de assumir. É triste. Sentem-se pressionado porque veem as reações dos amigos democratas e não querem perder negócios ou amizades.

É muito crítico de Obama...

Também sou crítico de Trump!

Para si qual foi a melhor e a pior coisa que Obama conseguiu?

(Suspira) Não vou dizer que ele é muçulmano nem nada disso, mas tem uma afinidade com os muçulmanos. E isso afetou a sua política externa, sobretudo em relação ao Estado Islâmico. É uma pena não termos uma presença militar mais forte para que as pessoas não tivessem de morrer, de sofrer. E houve terroristas a instalar-se cá. Não digo que devemos banir os muçulmanos, mas... A outra coisa muito má é o Obamacare.

E não há nada de bom que Obama tenha feito?

Sabe, ele disse uma coisa e depois fez outra quando chegou ao poder. Gostava de dizer uma coisa, mas não consigo.

Uma das propostas de Trump era precisamente banir os muçulmanos e outra era construir um muro na fronteira com o México. Concorda com estas ideias?

Sou contra o muro. E posso explicar porquê : quanto tempo vai demorar a construir? Quanto vai custar? Quem vai pagar? Além disso estamos no século XXI! Temos tecnologia que nos permite não precisar de um muro. Basta ter equipamento que faça soar os alarmes se algo respirar entre o ponto A e o ponto B.

Concorda então com esta ideia...

De uma fronteira mais segura? Sim, claro. Se deixarmos as pessoas entrar, temos de lhes dar condições para viverem cá. Os imigrantes devem ganhar a cidadania, devem passar tempo cá, aprender a Constituição, aprender a língua e depois tornarem-se cidadãos.

Em Nova Iorque. A jornalista viajou a convite da FLAD

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