Shamima Begum, a noiva do Estado Islâmico que nenhum país quer

Supremo Tribunal britânico proibiu a jovem de 21 anos, que fugiu para a Síria em fevereiro de 2015, de regressar a Londres para contestar na justiça a retirada da sua nacionalidade.

O Reino Unido retirou-lhe a nacionalidade britânica, apesar de ela ter nascido e ter sido criada no país. O Bangladesh, terra natal dos pais que ela nunca visitou, disse que o problema não era dele. E os Países Baixos, onde nasceu o jihadista com quem se casou na Síria e com quem teve três filhos (nenhum deles sobreviveu), não reconhecem sequer esse casamento, já que ela era menor. Ninguém quer Shamima Begum, que tinha 15 anos quando se tornou uma das noivas do Estado Islâmico.

A cidadania britânica de Shamima foi retirada em 2019 pelo então ministro do Interior, Sajid Javid, depois de ela ter sido encontrada por um jornalista do The Times num campo de detenção curdo no norte da Síria. Estava grávida de nove meses do seu terceiro filho - já tinha perdido uma filha, Sarayah, com um 1 e 9 meses, e um filho, Jerah, com 9 meses.

O marido, o combatente neerlandês Yago Riedijk, tinha-se entregado e estava detido noutro campo. Tinha deixado os Países Baixos em outubro de 2014 e casado com Shamima dez dias depois de ela chegar à Síria, em março de 2015. Ele tinha 23 anos, ela 15. Em 2019, à BBC, disse que ele e a mulher deviam viver nos Países Baixos, sendo certo que Riedijk arrisca uma pena de seis anos de prisão por ter aderido a uma organização terrorista caso regresse a casa. E o seu casamento não é reconhecido pelas autoridades neerlandesas, porque Shamima era menor.

Ao jornalista, Shamima disse em 2019 querer voltar ao Reino Unido por causa do filho - o bebé acabaria por morrer, vítima de pneumonia. Mas não se mostrava arrependida de ter fugido com duas amigas de Londres, em fevereiro de 2015, viajando para a Turquia e depois para a Síria, para se juntar ao Estado Islâmico. Tinha sido atraída online pela propaganda do grupo terrorista, tal como centenas de outras jovens, que após o colapso do califado se tornaram um problema para os seus países de origem - várias francesas estão em greve de fome num campo sírio a exigir serem repatriadas, com os filhos.

O Reino Unido recusou o regresso de Shamima, dizendo que ela representava um perigo para a segurança nacional. Há acusações de que foi mais do que uma dona de casa, tendo ajudado a atrair outras jovens como ela para a Síria e a coser os coletes de explosivos aos bombistas suicidas. Teria também autorização para andar com uma Kalashnikov e era uma espécie de polícia de costumes. Os britânicos optaram por lhe tirar a nacionalidade, alegando que ela não ficaria apátrida, porque podia ter a nacionalidade dos pais, nascidos no Bangladesh - mas este país rejeitou essa ideia.

Shamima quis voltar então ao Reino Unido para contestar a retirada da nacionalidade - alegava que só podia explicar a sua posição em pessoa, já que corria riscos se falasse por telemóvel com os advogados desde a Síria. Em julho de 2020, um tribunal decidiu que ela podia entrar no país para o fazer. Mas o Ministério do Interior recorreu dessa decisão, reiterando mais uma vez que ela representava um risco para a segurança nacional.

Nesta sexta-feira, os juízes do Supremo decidiram por unanimidade que o governo britânico pode travar a sua entrada no país. Ainda assim, deixaram uma porta aberta: ela poderá contestar a perda de nacionalidade quando estiver numa posição de poder desempenhar um papel ativo no processo, sem que a segurança das pessoas fique comprometida. Mas estando ela detida na Síria, é difícil saber quando e como isso poderá acontecer.

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