"Quando olharmos para trás será como se Trump e o Brexit nunca tivessem existido"

Regiões e países inteiros podem ficar ao abandono devido ao cocktail de alterações climáticas, guerras e oportunidades económicas. Para não adicionar tragédia ao drama, os governantes devem agir o quanto antes e transformar um desastre em oportunidade, defende o especialista em geopolítica em Move, livro à venda a partir de terça-feira.

Nascido há 44 anos nas margens do Ganges, Parag Khanna viveu no Médio Oriente, na Europa e nos Estados Unidos e hoje tem residência em Singapura, de onde foi entrevistado via Zoom, vestido com uma T-shirt da Georgetown, universidade em Washington onde se formou antes do doutoramento em Londres em relações internacionais. Consultor em estratégia global junto de governos e de empresas, conferencista e autor de livros traduzidos em 20 línguas, foi conselheiro da administração Bush no Iraque e no Afeganistão e investigador em vários think tanks. No mais recente livro, Move, à venda em inglês a partir de 5 de outubro, o autor alerta que está em marcha um movimento migratório imparável e que os países devem adaptar-se o quanto antes a essa realidade. Em breve, lança com a mulher, Ayesha, U+AI, uma obra sobre a evolução da inteligência artificial ao serviço da humanidade.

Em Move, destaca a tendência da migração, quer interna quer externa. Acha que é principalmente uma mudança geracional e cultural ou uma consequência de guerras e alterações climáticas?

É tudo isso. A geografia humana, a nossa distribuição no mundo, a nossa localização, é determinada por guerras e conflitos, é determinada por mercados de trabalho e oportunidades económicas, é determinada por desequilíbrios demográficos, e também pelo clima e pela procura de estabilidade ecológica, é tudo isto ao mesmo tempo. Se olharmos para o colapso da Síria, tinha havido uma seca. A seca empurrou os agricultores para a cidade e os preços da comida estavam a subir. Houve protestos e o resto é história. Temos de nos lembrar que tudo tem várias causas e nós não temos o controlo, nós somos, se quiser, as vítimas das reações em cadeia que criámos.

Podemos vir a ter regiões fantasmas ou países fantasmas? Quem pode perder mais e quem pode ganhar mais com as mudanças?

Há territórios que já estão a perder e que vão perder. Chamo-os de estados desocupados, países abandonados. Se um lugar deixa de estar povoado já não corresponde à definição de estado. Pode imaginar-se o Turcomenistão desocupado, pode-se imaginar uns quantos países africanos desocupados. Será fisicamente impossível viver lá. O que vamos fazer com esses lugares que deixam de ser membros do sistema internacional? Terão recursos que vamos usar? Vamos lá deitar resíduos nucleares? Ainda mais importante, o que vamos fazer com as pessoas que vão abandonar esses territórios? Onde serão alocados? Como irão tornar-se cidadãos de outros países? São questões importantes porque devemos fazer o esforço máximo para assegurar a sobrevivência da nossa espécie à luz do risco do fenómeno de extinção em massa. Há 20 anos pensávamos que a população iria continuar a crescer e agora estamos preocupados com o colapso.

Que impacto para o ambiente poderão ter estas mudanças que afetarão milhões de pessoas?

Esse é o ponto de partida da discussão. Eu defendo que as pessoas têm de se mudar, mas para lugares estáveis ecologicamente e resilientes, e temos de fazê-lo de uma forma sustentável e para estilos de vida sustentáveis. Se realojarmos mil milhões de pessoas em Portugal ou na Suécia vamos destruir Portugal e a Suécia e não podemos dar-nos ao luxo de repetir erros. Por isso advogo um investimento em tecnologias de adaptação, habitação feita por impressoras 3D, infraestruturas móveis, captação de águas pluviais, reciclagem de água, agricultura hidropónica e aquapónica, energias solares, eólicas e nucleares. São algumas das coisas para que mesmo que haja mil milhões de pessoas num ponto do planeta, elas não o destruam.

Como se enquadra esta mudança em massa numa época em que na Europa e nos EUA os muçulmanos são vistos por parte da população como uma ameaça e não como parte da solução? Estará a Europa condenada à turbulência pela reação do nacionalismo e do populismo?

Não acredito. Isso é um erro. Muito frequentemente permitimos que uma pequena parte do presente imponha o nosso pensamento sobre o futuro. Quando olharmos para trás, daqui a 20 anos, será como se Trump e o Brexit nunca tivessem existido. Se olharmos para os EUA, voltaram à política de imigração crescente; há um recorde de estudantes chineses neste ano; planeiam aumentar a quota de vistos H-1B, que é sobretudo para profissionais indianos, e vão permitir que as mulheres desses profissionais possam também ir e trabalhar; normalização e cidadania para 13 milhões de imigrantes sem documentos. Tudo isto em seis meses. Sobre o Brexit: hoje é mais fácil um paquistanês, um bangladeshiano ou um vietnamita mudar-se para Londres do que em 2015. Depois do Brexit era suposto ser mais difícil, mas é mais fácil. Em 2015 eu tinha de mostrar uma carta do meu empregador e pagar uma caução de 15 mil libras; hoje basta ter formação superior e pode-se entrar. Isto não é retórica, são factos. A verdade é que a procura e a oferta são a lei mais forte ao longo da história. A procura e a oferta determinam tudo o mais: economia, migrações, demografia. E isso é bom, devemos permitir que a procura e a oferta determinem onde as pessoas se estabelecem.

"Quando olharmos para trás será como se Trump e o Brexit nunca tivessem existido. Os EUA voltaram à política de imigração crescente e hoje é mais fácil um paquistanês mudar-se para Londres do que em 2015."

Segundo compreendi, argumenta no livro que o Reino Unido pode inverter o desastre do Brexit. Como?

Ao atrair mais investimento. Antes de mais as ilhas britânicas são o que chamo de oásis climático. Tem uma geografia mais estável e resiliente do que por exemplo a Índia. Mesmo que façam muito erros ainda assim pode ser bem-sucedidos do ponto de vista climático. O mesmo se aplica a Portugal, com um clima suave e atlântico, com abastecimento de água doce, chuva, agricultura, etc. Os portugueses vão sobreviver, assim como os britânicos. Precisam de atrair uma população estável e investir em energias alternativas e renováveis. E estão a fazê-lo. Na costa leste estão a analisar um pacote inteiramente novo de projetos industriais que serão alimentados por hidrogénio verde.

Desde O Segundo Mundo tem chamado a atenção para o papel dos mercados e países emergentes. Será que o futuro ainda está na Ásia? E os EUA?

O futuro vai ser muito mais asiático do que nos últimos 200 anos. Mas como eu argumento no livro, o mundo vai ser mais multipolar. A Ásia não está a substituir o Ocidente, a China não está a substituir os Estados Unidos. A Ásia é mais uma camada de tinta no quadro global, económico, político e cultural. Estas cores misturam-se, não são bloco. São uma esponja, o mundo é uma esponja, não são blocos. A Ásia continua a ser, em grande parte, o futuro, em especial após a pandemia. As economias asiáticas estão a recuperar mais rapidamente, a Ásia controlou a pandemia melhor, os governos tecnocráticos demonstraram ser melhores, a coesão cultural e a solidariedade mostraram ser vencedores. E estes são países pobres. Agora olhamos mais para a Ásia para aprender lições e isso pode-se ver nos media europeus e norte-americanos. Há dois, três anos alguém diria "Devemos copiar o governo sul-coreano", ou japonês, ou singapurense? "Porque é que não podemos ser como os asiáticos?" é o meu sonho a tornar-se realidade.

Durante o confinamento disse que o próximo passo na globalização seria regional. Mantém esta ideia?

Sim, a tendência era no sentido da regionalização ainda antes da pandemia. Vimo-lo devido às tarifas aplicadas por Trump, vimo-lo na integração comercial: os EUA têm mais trocas comerciais com o México e o Canadá do que com a China. A Europa tem agora um pacto orçamental e fiscal, uma união monetária e uma coordenação fiscal mais forte do que antes. A Ásia tem uma abrangente parceria económica, a maior área comercial do mundo. Estas três coisas, a USMC na América do Norte, o pacto europeu e a parceria económica asiática, cada uma delas deu grandes passos no sentido da regionalização em plena pandemia.

Você é aquilo a que se chama um cidadão do mundo. O poeta Fernando Pessoa disse que a sua pátria é a língua portuguesa. Qual é a sua pátria?

Ou são vários lugares ou é um estado de espírito. Em termos de lugares são todos aqueles em que já vivi. Sinto-me muito confortável nas geografias que moldaram a minha identidade. Sinto-me confortável na Índia, nos Emirados Árabes Unidos, nos Estados Unidos, na Alemanha, em Inglaterra e em Singapura. Estes são os locais em que me sinto em casa. Amanhã vou para Berlim e quando aterro estou em casa. Sou indiano, mas sou um cidadão singapurense, falo a língua alemã como um alemão, sou norte-americano, cumpri serviço militar no Afeganistão e no Iraque. Trabalhei na campanha de Obama e trabalhei na administração Bush. Fiz o meu doutoramento em Londres. Para mim, isto são camadas de identidade, não são de soma zero. Para mim a identidade é aditiva, não pode ser substituída. E uma pessoa pode também sentir-se um cidadão do mundo sem ter viajado. As pessoas que muitas vezes identifico como cidadãos do mundo são de países pobres, são pessoas que não viajam. Elas sentem-se dessa forma precisamente porque são cidadãs de estados desajustados, falhados. Kailash Satyarthi, o ativista pelos direitos das crianças que venceu o Prémio Nobel com Malala Yousafzai, disse no seu discurso: "Sou um cidadão do mundo." E porquê? É um indiano, nascido e crescido na Índia, que nunca tinha saído do país. Mas é um país que o satisfaz, que é adequado para ele quando a Índia é um lugar tão horrível? A resposta é não. Isto é importante porque se criticam "as pessoas de Davos", que não têm raízes e que não pertencem a lado algum. Isso não é verdade, é precisamente o contrário. A maior parte das pessoas que têm um sentimento de pertença ao mundo são desfavorecidas, são pobres, não são os ricos. Estes, se quiserem podem ter oito passaportes. São os pobres quem olha para o mundo e encontra identidade, pertença e um sentimento positivo porque os seus próprios países não lhes dão essa satisfação.

Em que língua sonha?

Em inglês, hindi e alemão.

Já visitou cerca de 150 países. Que país ou região gostaria de visitar mas ainda não teve oportunidade de o fazer?

Na verdade, nenhum. Podia dizer Antártida, mas isso seria apenas por prazer. Para uma imersão antropológica e de investigação gostaria de passar mais tempo em lugares onde quero aprender a língua. Não sei falar árabe lá muito bem, aprendi um pouco mas não sou fluente, por isso quero passar mais tempo no mundo árabe. Apaixonei-me por países como o Líbano ou a Líbia, são lugares histórico-culturais fabulosos. Claro que hoje em dia são desastres, mas estive lá quando foram mais funcionais e de certa forma sedutores. E depois a Rússia. Já lá estive durante bastante tempo, mas nunca aprendi russo, o que é pena. Estudei história russa na universidade e devido à minha formação, em geopolítica, não posso deixar a Rússia de fora. Não se pode construir um novo modelo geopolítico no mundo real se a Rússia não fizer parte. Já estive em discussões com russos mas em inglês. Gostaria de tomar chá com conselheiros de Putin e comunicar na língua deles.

Tenha cuidado com o chá.

Sim, é verdade. Nunca se sabe!

Move: The Forces Uprooting Us

Parag Khanna

Scribner (EUA)

Weidenfield & Nicolson (Reino Unido)

352 páginas

cesar.avo@dn.pt

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