Putin à espera do diálogo com os EUA e trégua natalícia na Ucrânia

Na longa conferência de imprensa anual, o presidente disse que "a bola está do lado" do Ocidente. Mas também falou de economia, covid-19 e agradeceu ao Ded Moroz, o Pai Natal russo.

O presidente russo, Vladimir Putin, disse ontem que "a bola está do lado" do Ocidente em relação à tensão na Ucrânia, considerando "positiva" a reação dos EUA de estarem prontos para dialogar a partir de janeiro em Genebra (Suíça). A Rússia é acusada pelos países da Aliança Atlântica de reforçar a presença militar junto à fronteira ucraniana, em preparação de uma invasão, mas Putin alegou que Kiev é que parece interessada no conflito.

Os EUA confirmaram ontem a disponibilidade para seguir a via diplomática em janeiro, quer bilateralmente quer através de "múltiplos canais". Mas deixaram a ressalva: "Há algumas questões que a Rússia levantou que acreditamos poder discutir, e outras que eles sabem muito bem com as quais nunca poderemos concordar."

A Rússia exige que a NATO rejeite uma expansão a Leste revogando, por exemplo, a abertura à adesão da Ucrânia - algo que a Aliança Atlântica recusa fazer. Putin lembrou que nos anos 1990 foram feitas promessas verbais de não alargar nem um centímetro a Leste, sendo que desde então já entraram 14 países, incluindo ex-repúblicas soviéticas como a Estónia, a Letónia ou a Lituânia.

Em nome das "garantias de segurança", Putin quer também que não sejam colocados mísseis aliados na região. As exigências são vistas por muitos como um ultimato, especialmente depois de Moscovo ameaçar o Ocidente com "medidas militares e técnicas" caso não sejam aceites. "Os nossos parceiros norte-americanos dizem-nos que estão disponíveis para começar esta discussão", referiu Putin, dizendo esperar que isso "nos permita seguir em frente" e parecendo travar a escalada da retórica.

Contudo, o presidente disse na tradicional conferência de imprensa de final de ano que não é Moscovo que está a procurar a guerra. "Foram os EUA que vieram com os seus mísseis para a nossa casa, para a nossa porta de entrada", disse Putin, lembrando que Washington nunca aceitaria mísseis próximo da sua fronteira. "E pedem-me a mim garantias? Vocês é que deviam dar-nos garantias. E já", referiu.

Putin alegou ontem que Kiev e o Ocidente é que estão interessados num conflito. "A impressão é que eles estão a planear" uma terceira operação militar, depois das intervenções para "esmagar" a rebelião no leste da Ucrânia, acusando Kiev de violar os acordos de Minsk. As ameaças de sanções ocidentais são um aviso para a Rússia não intervir. "Avisam-nos com antecedência: "Não se envolvam, não defendam estas pessoas". Se o fizerem, vão sofrer estas sanções."

Entretanto, há acordo para retomar o cessar-fogo nas regiões de Donetsk e Luhansk, onde os militares ucranianos combatem os separatistas apoiados por Moscovo. A Ucrânia expressou um otimismo cauteloso em relação à trégua. Putin reiterou que cabe às pessoas que vivem nesta região decidir o seu futuro, reafirmando que a Rússia não é parte do conflito, ao contrário do que alguns alegam.

O Pai Natal russo e a covid-19

A conferência de imprensa de final de ano é uma tradição, com Putin a responder às perguntas dos jornalistas durante várias horas - ontem foram mais de quatro. Os jornalistas (neste ano só 500 e todos com teste covid-19 negativo) levam cartazes para chamar a atenção do presidente e ter a oportunidade de colocar as suas questões, que vão desde temas "sérios" até outros mais ligeiros. Neste ano, Putin foi questionado sobre o processo em que um homem acusa Ded Moroz (significa "Avô Gelo" e é a versão local do Pai Natal) de não cumprir os seus desejos há 23 anos.

Putin lembrou que este só cumpre os desejos de quem se portou bem e que o queixoso devia analisar o seu comportamento. "A minha relação com Ded Moroz sempre se desenvolveu num bom sentido. Estou grato a ele por poder estar aqui com vocês nesta capacidade", referiu o presidente, que chegou ao Kremlin na véspera do Ano Novo de 1999, quando Boris Ieltsin se demitiu. O Pai Natal russo dá as suas prendas precisamente nesse dia. "Espero que ele não só nos traga presentes, mas também realize os projetos do país e de cada cidadão", acrescentou.

Em relação a perguntas sobre a economia russa, Putin disse no evento que tem como alvo um audiência doméstica que esta estava mais bem preparada para o choque da pandemia do que outras, lamentando apenas a inflação elevada e desafios do mercado laboral. A performance do governo foi "satisfatória", referiu "de forma humilde". Sobre a covid-19, espera atingir 80% da população vacinada em 2022, rejeitando contudo a ideia de uma vacinação forçada - isso era o que a União Soviética fazia, lembrou - ou de perseguir os que recusam a vacina. Putin também criticou o boicote ocidental aos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim.

susana.f.salvador@dn.pt

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