"Português como língua de Timor foi consensual. Por razões que não têm nada que ver com o que alguns idiotas dizem, que é saudosismo"

Celebrou ontem os 72 anos o homem que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1996, junto com o bispo Ximenes Belo, dando assim uma visibilidade global à luta do povo de Timor-Leste, antiga colónia portuguesa ocupada pela Indonésia. Depois da independência, em 2002, foi ministro dos Negócios Estrangeiros, depois primeiro-ministro e finalmente presidente da república. Vítima de um ataque armado quando era chefe do Estado, que o deixou entre a vida e a morte, recuperou e fez questão de manter um discurso de unidade nacional, como se nota nesta conversa com o DN em que a língua portuguesa, as relações internacionais do jovem país e o futuro da economia foram os temas.

Começo por perguntar sobre a língua portuguesa. Tem futuro aqui em Timor?

Sem dúvida. Vemos pelos dados estatísticos. Em 1975, o último ano da colonização portuguesa, aqui eram menos de 10% que falavam português. E 10% é um número otimista. Depois veio a ocupação indonésia, de 24 anos, e quando chegámos ao primeiro ano da independência, em 2002, não havia estatísticas, naquela altura, sobre quantos falariam português, mas na minha estimativa não podiam ser mais do que 1%. Hoje, a estatística oficial aponta para cima de 40%. Claro, obviamente, quando se diz falar português não é pessoas que falam bem e falam no dia-a-dia. Mas que entendem, que podem falar, embora muito tímidas, envergonhadas por falarem mal.

Mas à geração de dirigentes históricos - como é o seu caso, e também Xanana Gusmão, Mari Alkatiri ou Taur Matan Ruak - todos nós nos habituámos a ouvi-la falar um português perfeito. É por causa da vossa educação, que tiveram no tempo colonial, mas que era uma exceção?

Uma exceção. Fazemos parte daquela percentagem de 10% que eu mencionei, e essa pequena percentagem que falava português, grande parte agradecia-se à Igreja.

A Igreja Católica em Timor é que fazia a alfabetização em português?

A Igreja tinha a maior parte das escolas de ensino elementar em Timor. Aí em meados dos anos 1960 começaram a surgir mais escolas, mas antes dessa época havia apenas a missão católica em Soibada onde eu fui educado. Toda a minha instrução primária foi feita lá.

"Agora o tétum é falado por 90% da população. O tétum evoluiu, até de uma forma desorganizada, improvisada. O tétum foi pedir emprestado, absorveu, milhares de vocábulos portugueses."

Em português?

Em português. Era obrigatório. E eu não dizia uma palavra aos 6, 7 anos de idade quando para lá fui. A nossa mãe era timorense e em casa só falava tétum, embora falasse português.

Tétum é a sua língua materna?

Materna era tétum.

Não é habitual nos timorenses, não é? Nos timorenses geralmente o tétum é a língua franca, que todos sabem, mas há as línguas regionais.

Sim, há várias línguas. Mas agora o tétum é falado por 90% da população. O tétum evoluiu, evoluiu até de uma forma desorganizada, improvisada. O tétum foi pedir emprestado, absorveu, milhares de vocábulos portugueses.

Por exemplo, palavras como "parlamento" ou "democracia" o tétum foi buscar ao português.

Tudo. Hoje você ouve o discurso de alguém a falar supostamente tétum e entende muita coisa. E portugueses que estão cá a viver durante algum tempo entendem uns 70% a 80%. Daqui a mais dez anos, o que é que acontece? Porque estamos a assistir a um fenómeno interessante, que acompanho desde o ano 2000: a evolução de uma língua quase completamente nova. Nós testemunhámos e participámos na evolução dessa língua. A atual geração. O tétum está a desenvolver-se e não se desenvolve a partir dos linguistas e dos intelectuais e académicos.

É pela utilização do povo.

Do zé-povinho. É o zé-povinho que faz a língua.

E vai buscar léxico sobretudo ao português quando precisa?

Exato. Há textos oficiais, textos académicos, supostamente em tétum, em que 80%, 70% no mínimo, é português. Às vezes disfarça-se que não é português, disfarçar mas não no sentido literal. Por exemplo, "convite". "Convite" é português. No tétum também é convite. Só que é com "k". Em vez de "c" é "k". Porque em bahasa indonésio o "c" lê-se "ch". Seria "chonvite". Então usa-se muito o "k" para substituir o "c".

O bahasa indonésio no tétum deixou marcas?

Não, apenas em números, em algarismos. Na linguagem do dia-a-dia do tétum não.

Esta decisão da adoção do português como língua oficial depois do referendo de independência em 1999 foi entendida claramente como uma forma de o novo país se distanciar do bahasa indonésio e também da Austrália, no sentido da potencial influência do inglês. Foi muito discutido na altura? Foi mais ou menos consensual na liderança timorense?

Ao nível da liderança foi consensual. No congresso do CNRT, que era na altura órgão oficial da resistência, órgão unificador da resistência, no congresso de 2000, afirmou-se o português como língua oficial. Depois veio a ser consagrado na Constituição em 2001. Houve eleições para a Assembleia Constituinte, redigiu-se a Constituição e lá está o português estipulado como uma das duas línguas oficiais. O português e o tétum. Porque, ao fim e ao cabo, Timor-Leste tem vantagem sobre os países africanos de língua portuguesa, em que nenhum deles tem uma língua local consensual no meio das tribos com as suas línguas muito acentuadas.

Está a falar do tétum como língua franca?

O tétum, devido ao papel da Igreja durante décadas, sobretudo durante as décadas da luta da independência, mas também devido ao papel da resistência, expandiu-se rapidamente. Quando chegámos à independência, devia ser tipo 60%, 70%. Hoje praticamente 90% fala tétum. Mas o tétum já com muito vocábulo português.

Mas na liderança o português ao lado do tétum foi consensual, era uma forma de defender a identidade timorense?

O português foi totalmente consensual. Por razões que não têm nada que ver com o que alguns idiotas dizem, que é saudosismo. Ninguém, nenhum líder sério, faz decisões por saudosismo de espécie alguma. Timor-Leste existe enquanto Timor-Leste pelas fronteiras, negociadas entre Portugal e a Holanda. Não existe porque antropologicamente existe um povo chamado povo timorense. Há muita similaridade étnica e cultural entre os povos de Timor-Leste com mais de 25 milhões de pessoas que habitam na chamada Indonésia Oriental.

Ou seja, similaridade não só com Timor Ocidental, que é indonésio, mas com as ilhas à volta.

Exato. Que é o grupo étnico melanésio. Timor tem dois grandes grupos étnicos. Um é o malaio-polinésio e o outro é o melanésio. E estas ilhas orientais da Indonésia são melanésias. Iguais à Papua-Nova Guiné, Fiji - não a parte da imigração indiana - e as ilhas de Vanuatu, antigas Novas Hébridas. São todas melanésias. Timor é isso também. Aqui a grande vantagem que Timor tem, também em relação às outras ex-colónias, é que a religião católica é 98%. É a percentagem maior no mundo de uma população católica.

"As Filipinas têm 80 e tal por cento de católicos. Em Timor, a percentagem católica é a maior da Ásia, mas também do mundo, maior do que a da própria Polónia, que é supercatólica, e maior do que a do Brasil."

Ou seja, quando se fala das Filipinas como o grande país católico da Ásia é pelo número.

Pelo número.

Pela percentagem é Timor-Leste.

As Filipinas têm 80 e tal por cento de católicos. Em Timor-Leste, a percentagem católica é a maior da Ásia, mas também do mundo, maior do que a da própria Polónia, que é supercatólica, e maior do que a do Brasil. O Brasil é 50% católico.

O catolicismo acabou também por moldar muito a identidade timorense.

A identidade timorense é o catolicismo e a língua tétum e as duas vêm de onde? Vêm da presença portuguesa. A fronteira física da dependência portuguesa é que definiu o povo de Timor-Leste. Porque antropologicamente não existia. É o povo desta ilha toda. O povo de Timor-Leste não é um conceito antropológico, é um conceito político. E que cabe neste espaço geográfico, resultado do tratado de limitação na fronteira entre Holanda e Portugal, a sentença arbitral de Haia do século XIX.

É reconhecido que Portugal foi muito importante na luta de Timor para se libertar da ocupação indonésia. Hoje Timor tem quase 20 anos de independência. Portugal é um parceiro, um amigo, mas já não é essencial a Timor? Timor sobrevive com muitos outros apoios e muitas relações?

Eu não colocaria assim. Obviamente, Timor é financeiramente, por enquanto, totalmente autossuficiente. Se deixar de ter apoio financeiro de uma Austrália, dos Estados Unidos ou de Portugal, Timor tem dinheiro suficiente a partir do petróleo e do gás e do seu fundo soberano para financiar o seu Orçamento Geral do Estado. Aliás, o Orçamento Geral do Estado timorense é inteiramente financiado domesticamente. Isto é pelo fundo soberano. O fundo do petróleo. A ajuda internacional já não vai para apoio ao Orçamento. No início da independência sim. Eu próprio fazia lóbi para o apoio direto ao Orçamento Geral do Estado. Significa que se fossem 4 milhões de dólares ou 10 milhões que quisessem dar iam diretamente para o Tesouro timorense.

Hoje entra na sociedade como apoio. É isso?

Exato. A maioria dos países apoiam programas de que eles próprios são responsáveis, executam, claro, em parceria sempre com o governo. Portugal é dos poucos países parceiros de Timor-Leste, amigos de Timor-Leste que nunca negou, regateou o apoio direto ao Orçamento Geral do Estado timorense. Portugal entendia muito bem que um país como Timor-Leste, para o Estado se estabilizar e o governo se estabilizar, tinha de ter apoio no seu Orçamento. A maioria dos países dava apoio a programas, que eles próprios também executam. E executam através de alguma ONG ou alguma agência deles. Isso significa que passa por vários intermediários. Por exemplo, a União Europeia é a instituição com a pior burocracia que há. A burocracia da União Europeia é pior do que a da ONU. É mais complicada. E isto não põe em questão o compromisso de Bruxelas ou dos embaixadores da União Europeia que cá estão.

Mas que são complicados são...

Eles são muito solidários com Timor-Leste, mas, pelo amor de Deus... Desde o momento em que se identifica uma necessidade, um projeto e se começa a discussão até ao dia da sua execução leva quatro anos.

Portugal, pelo contrário, era um país rápido e disponibilizado a ajudar?

Sim. Portugal sempre foi rápido. Aliás, houve um estudo há muitos anos, da própria ACNUR, sobre o destino do dinheiro dos países doadores. Portugal aparece como o país que quando aloca dinheiro a um país mais dinheiro chega ao destino final. Há sempre despesas que obrigam parte do dinheiro a voltar a Portugal ou a outros doadores, através dos consultores, dos técnicos e da compra de equipamento, talvez. Mas Portugal é o país com mais percentagem de dinheiro que fica no país que recebe. Em alguns casos de países doadores é só 30%. Aliás, em muitos casos. Uma vez conversei com o então presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, sobre quanta percentagem de ajuda de doadores ficava no país. Ele dizia 10%. Eu quando disse que em Timor era 30% ele ficou admirado. Era 30%.

Então não sendo Portugal essencial nesse apoio financeiro, como foi no início da independência, é, ainda, uma referência para Timor em termos de relações internacionais? É também onde, por exemplo, os jovens timorenses ambicionam ir. Há a ambição de ir estudar para Coimbra, para Lisboa, para o Porto? Portugal é uma referência cultural?

Uma coisa interessante é o seguinte. Posso não ter os números exatos, mas a Embaixada de Timor em Portugal dizia-me há dois anos, ou há três, que de mil e tal estudantes timorenses que estavam em Portugal, naquela altura, havia três grupos. Um grupo que tem bolsa de estudo timorense, do governo timorense, que é uma bolsa generosa, muito mais elevada do que a bolsa do Estado português. A nossa era por volta de 700 euros, a do Estado português, a bolsa portuguesa, por volta de 400 euros. Mas a maioria nem tinha bolsa de Timor ou do governo português. Mas das suas famílias. O que significa o quê? Que os timorenses já têm poder de compra, já há gente com dinheiro em Timor. E o facto de em vez de terem escolhido uma universidade na Indonésia, que é bem mais perto, mais barato - só a viagem daqui para Portugal dá para pagar um ano de matrícula e outras despesas do ano na Indonésia -, foram para Portugal. Isso surpreendeu-me agradavelmente.

Ainda bem que falou da Indonésia. Um dia entrevistei um antigo chefe da Missão das Nações Unidas em Timor, um japonês...

Sukehiro Hasegawa.

Exatamente. E ele chamou-me a atenção que a Indonésia resistiu à tentação de sabotar a independência de Timor. Ou seja, que não tentou desestabilizar a seguir o novo país, que não fomentou mais milícias integracionistas. Isso foi mesmo assim?

Sim. A Indonésia portou-se de forma impecável. Mostrou ser um país com uma longa civilização, de gente consciente da história, das suas responsabilidades no mundo. É um país que sempre teve uma grande presença internacional. A guerra, o conflito em Timor, danificou profundamente a imagem que eles queriam promover. Quando acedemos à independência eles proibiram muito energicamente as ex-milícias de tentarem usar o território indonésio para desestabilizar o país. Porque houve algumas atividades de entrada na fronteira por grupos armados.

Sem apoio oficial da Indonésia?

Não. Proibido pelo governo da Indonésia. Depois um senhor, que mais tarde veio a ser presidente, foi ao outro lado da ilha, avisou-os, bem duro. A partir daí nunca mais. Isso foi no início, em 2000, 2001. Nem sequer foi depois da independência. Foi antes da independência

Os indonésios perceberam que, apesar de haver vários separatismos na Indonésia, Timor não era um exemplo, por a história ser diferente.

Exato. O que eu dizia inúmeras vezes, em fóruns internacionais, era que Timor-Leste não tem a mesma história que outras províncias da Indonésia.

"Os indonésios para credibilizarem o argumento deles de que são apenas o Estado sucessor do império holandês, do império das Índias Orientais Holandesas, não podiam reclamar Timor-Leste."

Não era comparável a Achém ou Irian Jaya....

Nada. Que eram possessões coloniais holandesas. A própria presidente Megawati Sukarnoputri, que antes era ultranacionalista e que, durante 1999, veio a Timor promover o voto pela autonomia no quadro da Indonésia, depois já no cargo fazia o discurso da distinção: Timor-Leste não é, nunca foi, das Índias Orientais, da Holanda.

O próprio pai de Megawati, e estou a relembrar-me das fotografias no arquivo do DN de uma visita de Sukarno a Portugal em 1959, nunca questionou a presença portuguesa em Timor.

Não. Nunca. Porque os indonésios para validarem, para credibilizarem o argumento deles de que são apenas o Estado sucessor do império holandês, do império das Índias Orientais Holandesas, não podiam reclamar Timor-Leste. Diziam: nós só reclamamos os territórios que fizeram parte das Índias Orientais Holandesas.

No tempo de Sukarno. E mesmo na primeira década de Suharto.

E mesmo com Suharto. Nunca, nunca. Mas depois, dada a Guerra Fria, a Guerra do Vietname, a ameaça de efeito dominó do Vietname a favor do comunismo, a crise em Portugal, a radicalização política em Portugal, com a ameaça do Partido Comunista de tomar o poder, o chamado Verão Quente em Portugal, a Indonésia sentiu-se preocupada, preocupada genuinamente. E, por outro lado, os jovens políticos timorenses, imberbes, logo na primeira oportunidade, em que o império português cessa de existir e o patrão colonial, imperial, reconhece o direito à autodeterminação, a primeira coisa que fazem é engendrar uma guerra civil nossa. Foi a primeira guerra civil em Timor. Tudo isso abriu as portas para a invasão indonésia de 1975.

Hoje em dia a Indonésia é um grande parceiro comercial de Timor. As relações, do ponto de vista económico, do ponto de vista cultural, do ponto de vista político também, continuam boas?

Temos ótimas relações. Sem dúvida alguma. Timorenses vão estudar na Indonésia, salvo algumas exceções - não conheço - e pagam as propinas como se fossem um estudante indonésio.

A Indonésia, apesar de tudo, oferece algum tipo de tratamento especial a Timor-Leste.

Sim, por exemplo, hoje o passaporte timorense não carece de visto para entrar na Indonésia. Claro, há reciprocidade. Alguém da Indonésia também não precisa de visto para entrar em Timor. Quem vive na fronteira, a tantas milhas de um lado e de outro, tem uma espécie de passe - muito parecido a um passaporte, desenho e texto iguaizinhos ao passaporte - para entrar na Indonésia quantas vezes quiser e ficar lá duas semanas e trazer de volta mercadoria no valor de 400/500 dólares sem imposto. E vice-versa. Do nosso lado pode entrar e do lado deles pode entrar. Na zona da fronteira. Porquê? Porque, sobretudo, tem que ver com o mercado da fronteira e tem que ver com famílias, que estão dos dois lados.

"O Xanana é espetacular, eu admiro-o imenso, ele acredita em algo, fica obcecado e não larga. E estuda o processo. Ele nunca concordou com o primeiro tratado que assinámos com a Austrália."

Na relação com a Austrália a questão da fronteira marítima e da repartição do petróleo ficou resolvida e a vizinhança hoje é fácil?

A Austrália também soube mostrar boa atitude, depois de um período de conflito, de tensão, entre nós e a Austrália, que tem que ver com a fronteira marítima e a posse, ou não, do petróleo e do gás, e o Xanana revelou aí a sua visão magistral. O Xanana é espetacular, eu admiro-o imenso, ele acredita em algo, fica obcecado, obcecado entre aspas, e não larga. E estuda o processo. Ele nunca concordou com o primeiro tratado que nós assinámos com a Austrália. O primeiro tratado não reconheceu a reivindicação australiana da fronteira marítima. Mari Alkatiri foi duro também nesse aspeto. Negociou foi uma partilha dos recursos do petróleo, em que Timor acabou por ter mais de 90% do que a Austrália. Mas ficou sem definir a fronteira marítima, linha mediana. Xanana, então presidente, ratificou, promulgou, mas contra vontade. Ele fez porque achou que deveria fazer, naquele momento, mas quando se apanhou como primeiro-ministro, e houve uma oportunidade, ele questionou, mobilizou uma equipa internacional, paga a peso de ouro por Timor - porque, na altura, Timor tinha o cachê financeiro para pagar - e ganhámos a causa.

E a Austrália como reagiu?

A Austrália recuou. O que revela também o sentido de um país democrático. Porque a opinião pública australiana esteve do nosso lado. Porque o povo australiano é diferente. É que um australiano veio de onde? De colonos, de deportados, de criminosos, e na Austrália quando alguém diz "o meu bisavô era um irlandês, desterrado" para eles é um orgulho. E o australiano também foi usado como carne para canhão das guerras da Coroa britânica. Foram morrer em tudo o que foi Coroa britânica. Então o instinto natural do australiano é apoiar o mais fraco.

Isso jogou a favor de Timor.

Então nós jogámos muito com isso. O Xanana soube explorar isso. E eu, claro, apoiei o Xanana nessa empreitada. E a opinião pública australiana virou-se quase totalmente contra o seu governo.

A ideia com o petróleo é financiar um fundo soberano, que garanta o futuro das gerações timorenses. Mas agora que estamos em pandemia, qual é o potencial da economia de Timor?

Continua, ainda, quase totalmente dependente das receitas vindas da exportação de petróleo e gás. Uma vez entrado em exploração comercial o outro campo, que é o Greater Sunrise - o Sol Nascente -, é muito maior do que o atual, mas é mais de gás do que petróleo. É quase todo gás. Timor passa para energia limpa, embora não renovável. Até agora a eletricidade do país funciona a diesel, eletrificação moderna totalmente paga pelo Orçamento Geral de Timor. Não foi um doador, não foi a China. O equipamento, os geradores modernos, são finlandeses, as torres de transmissão é que são chinesas. Porque eu digo que para colocar aquelas torres monstruosas na crista das montanhas de Timor ninguém mais teria feito. Timorense nenhum. Os chineses. Às vezes eu parava lá, a caminho de Manatuto, para ver como eles conseguiram transportar aquelas torres imensas lá para o alto, 500 metros, 600 metros de altura, mas sem estrada.

Quando vier esse gás natural vai haver um impulso na economia?

Sim. Essa é precisamente a convicção de Xanana. Por isso quer trazer para cá o gasoduto, vindo do Greater Sunrise, para dinamizar indústrias locais, entre as quais uma fábrica de fertilizantes, que faz falta no mundo, e prioritariamente faz falta para o desenvolvimento da economia timorense. Em torno desse investimento, no porto, na parte do processamento da exportação do gás para o Japão e a Coreia, haveria milhares de empregos que seriam criados. Mas não é para ficar dependente do gás. Nós precisamos das receitas do petróleo e das receitas do gás precisamente para financiar a diversificação futura da economia. Quando algumas brilhantes ONG ou alguns brilhantes senhores da União Europeia ou de outros países vêm logo falar sobre o meio ambiente eu digo, muito bem. Não fomos nós, Timor, que demos cabo do meio ambiente do mundo. Foram vocês. Desde a primeira Revolução Industrial. Foram vocês. Até hoje. Agora vocês têm tecnologia de ponta, tecnologia, digamos, da terceira revolução industrial, até da quarta. Já fizeram tudo com o carvão e com o petróleo. Poluíram o mundo e agora vêm fazer palestras dizendo "têm de mudar para economia verde, azul, energia não renovável". Eu digo sim, pode ser. Vocês transfiram 100 mil milhões de dólares para o Tesouro timorense e nós não desenvolvemos nenhum campo petrolífero offshore ou onshore. Se não fizerem isso é melhor não nos falarem em lições de moral, porque nós vamos precisar ainda do petróleo e do gás para o desenvolvimento do país, para criar as indústrias necessárias para precisamente fugirmos ao uso do petróleo e do gás. Neste momento, aliás, não há nenhum país que tenha abandonado o petróleo. Os Estados Unidos não abandonaram, a Europa não abandonou. Eu defendo a energia limpa desde o início da independência, até antes, desde 2000. Fui eu quem sugeriu que pelo menos a cidade de Díli, a marginal, pusesse a energia solar para iluminação pública à noite. Na altura praticamente era uma tecnologia artesanal, porque fui visitar a fábrica de painéis solares em Sydney, da British Petroleum. E disse: "É isso!" Quem investiu em energia solar há 20 anos investiu mal. Gastou um balúrdio de dinheiro e hoje essa tecnologia de energia solar está obsoleta. Pessoalmente, se tiver de fazer uma decisão grave de transitar rapidamente para energia renovável, como solar, prefiro esperar mais dez anos.

Para o evoluir da tecnologia?

Sim, porque ainda a energia solar, como os nossos computadores, desde o tempo daqueles Macintosh, que eram os melhores que havia, até hoje mudou muito. A energia solar vai ser assim.

Mas acha que é um dos futuros de Timor, a energia solar?

Sim, sim.

Depois da tal transição energética.

Exato. Solar. Eólica. Hidroelétricas não, porque não temos.

A energia das ondas faz sentido aqui?

Faz sentido, faz sentido. Mas é uma tecnologia muito mais complexa para o futuro.

Esta zona do mundo onde fica Timor-Leste às vezes parece que está especialmente quente porque os Estados Unidos fazem aquele acordo, o AUKUS, com a Austrália e o Reino Unido; a Índia, o Japão, a Austrália e os Estados Unidos promovem também a parceria Quad, para contrariar a China, cada vez mais poderosa ao nível militar. Timor é um país pequeno, qual é a sua política externa perante isto tudo?

Tentamos ser amigos de todos. Porque quando eles fazem guerra não consultam connosco e depois de se matarem, destruírem e, pelo meio, nos matarem e destruírem também, não consultam connosco para fazer a paz. Portanto, preferimos não participar nesta guerra, que já não é surda, é uma guerra, pelo menos, verbal, muito acentuada. Temos ótimas relações com os Estados Unidos, mesmo com anteriores administrações republicanas, de George W. Bush e de Donald Trump, sem problemas. E muito apoio no congresso americano. Muito boas relações com a União Europeia, com a Austrália, a Coreia do Sul, o Japão.

Com a China também?

E com a China. Eu aliás tenho sempre defendido... Quais são as prioridades em política externa para Timor-Leste? Primeira prioridade: Austrália e Indonésia. Que são nossos vizinhos. Como para Portugal, o país que o primeiro-ministro português visita é sempre a Espanha, para nós a Indonésia é o país que o presidente e o primeiro-ministro visitam sempre, desde o início. Eu é que avancei com essa política e a sugeri a Xanana, que foi logo à Indonésia, como presidente. E depois todos os outros. E a adesão à ASEAN. Prioridade absoluta. Estamos no bom caminho. Talvez daqui a dois anos, no máximo, aderimos à ASEAN. Logo a seguir, vêm China, Japão e Coreia do Sul. Esta é a nossa zona estratégica prioritária. Mas sem menosprezar, pelo contrário, continuar a incentivar as relações com Portugal e a União Europeia.

"Timor é dos mais pacíficos em todo o Sudeste Asiático, só se comparando com Singapura em termos de ausência de criminalidade violenta."

Não falou num país como o Brasil. A CPLP para Timor é meramente uma construção teórica ou também conta alguma coisa?

Sabe, infelizmente, a CPLP ainda é um mistério e desinteresse para uma esmagadora maioria dos povos dos países constituintes da CPLP. Quantos cidadãos portugueses ouviram falar, conhecem o que é a CPLP? Muito menos, mas então seriam os brasileiros e sucessivamente. Eu creio, em Timor-Leste, de tanto falar em CPLP, pelo menos a palavra CPLP as pessoas lembrar-se-ão. Mas não é realista falar-se na dimensão económica da CPLP. Isto é teoria.

Mas falar de possíveis investimentos do Brasil, que também foi muito solidário com Timor, já é realista? Ou de mais investimento português?

É diferente. Na parte bilateral, obviamente, eu gostaria de ver investidores portugueses mais agressivos, criativos, virem investir em Timor-Leste, antes de Timor entrar na ASEAN. Porque, obviamente, sem a ASEAN, Timor é um mercado pequeno. Hoje 1,3 milhões de pessoas. Mesmo que cada timorense tivesse um per capita anual de 30 mil dólares continuaria a ser pequeno. Mas Timor não é só Timor. O nosso mercado não é só Timor-Leste. Vai ser o mercado de mais 600 milhões de pessoas, quase 700 milhões. Com um PIB conjunto da ASEAN de quase 3 biliões de dólares. Portanto, a população e uma economia sempre em crescimento. Maior crescimento. Portanto, é isso que Timor vende, o seu interesse, isto é, o seu atrativo, o atrativo timorense é isto. Para além de que é um país totalmente pacífico. Nós não temos terrorismo, radicalismo, não temos radicalistas ideológicos, de partidos da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Não temos extremismo religioso, não temos extremos étnico-religiosos, de conflito. Nesse aspeto, Timor é dos mais pacíficos em todo o Sudeste Asiático, só se comparando com Singapura em termos de ausência de criminalidade violenta. Há roubos. Mas é tipo rouba um telefone, sobretudo agora o ladrão também sabe o valor do telefone. Não se preocupam com telefones baratos. Já nem se preocupam em roubar os laptops.

Está a fazer um desafio a que os empresários portugueses...

Venham a Timor. Pensando em Timor-Leste e pensando na ASEAN.

leonidio.ferreira@dn.pt

O DN viajou a convite da euroAtlantic Airways

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