Paris está de volta, mas o Green New Deal é uma miragem

Administração Biden vai voltar ao Acordo de Paris para o clima. Há ceticismo quanto à possibilidade de aprovação de pacote legislativo.

As alterações climáticas e o aquecimento global são a próxima ameaça existencial para a humanidade", disse o ainda candidato Joe Biden, no segundo e último debate com Donald Trump, antes das eleições. "Não temos muito tempo. Vamos passar o ponto sem retorno dentro de oito a dez anos."

O tom alarmista de Joe Biden espelhou a preocupação crescente da esquerda com a crise climática e foi parte integral da sua campanha. Depois de eleito, o democrata nomeou o antigo secretário de Estado de Barack Obama, John Kerry, como enviado especial do presidente para o clima. Foi uma escolha que assinalou a seriedade do compromisso do próximo presidente com a crise climática, até porque será a primeira vez que um enviado especial para o clima terá assento no Conselho de Segurança Nacional - um reconhecimento de que esta crise representa uma ameaça a todos os níveis.

No entanto, a ideia de que uma administração Biden tornará realidade a proposta da ala mais progressista do partido democrata, estilizada como Green New Deal, deverá estar posta de parte.

"Suspeito que [o Green New Deal] não vai acontecer", disse ao DN a professora de Ciência Política na Universidade de Massachusetts Darmouth, Shannon L. Jenkins. Embora os democratas tenham conquistado os dois assentos de senadores na Geórgia, o que lhes dá controlo sobre o Senado, uma legislação tão reformadora como esta será difícil de concretizar. "Penso que conseguirão aprovar alguma legislação ambiental, mas não me parece realista pensar que haverá um pacote ambiental tão ambicioso quanto isso", frisou Jenkins.

O problema, indicou, é que alguns senadores democratas são mais conservadores, como Joe Manchin na Virgínia Ocidental, e poderão alinhar contra pacotes ambiciosos que toquem nas áreas de produção de energia, combustíveis fósseis e emissões de gases. "Haverá limites ao que vão conseguir aprovar em termos legislativos, por isso creio que muito do trabalho ambiental de Biden será por ordens executivas", disse Jenkins.

Segundo o plano que Biden promoveu na sua plataforma, o propósito é que os Estados Unidos atinjam uma economia 100% limpa e zero carbono até 2050. Além de pretender reverter as medidas de Donald Trump que aliviaram restrições sobre as indústrias poluidoras, o novo líder pretende reforçar o investimento em investigação sobre energia limpa e tomar medidas concretas, como remodelar o parque habitacional, de forma a que as casas consumam menos energia, criar uma rede nacional de 550 mil estações de carregamento de veículos elétricos e limitar as emissões de gás metano. Isto acontecerá em simultâneo com o regresso ao Acordo de Paris - tratado no âmbito da ONU que tem como objetivo a redução de emissão de gases com efeito estufa a fim de conter o aquecimento global abaixo dos 2º C -, do qual o presidente Trump retirou os Estados Unidos em 2020. Biden comprometeu-se a "liderar um esforço para levar os grandes países a aumentarem a ambição dos objetivos relacionados com o clima".

A sua plataforma não nomeia outros países, mas o Instituto de Recursos Mundiais calcula que EUA e China sejam responsáveis por mais de 50% das emissões globais de gases com efeito estufa, pelo que uma reaproximação ao país asiático nesta matéria será essencial.

É isso mesmo que indica a cientista política Daniela Melo, que leciona na Universidade de Boston. "A China é importantíssima para as questões ambientais", disse ao DN. "Se Kerry quiser ter sucesso em termos de política e acordos multilaterais que envolvam a China, tem de estar à mesa e fazer parte destes acordos", acrescentou.

Dentro de portas, Biden terá de lidar com os lóbis da indústria petrolífera e outras atividades poluidoras, como exploração de carvão. "A indústria do petróleo polui", afirmou, sem rodeios, naquele debate decisivo. "Com o tempo, terá de ser substituída por energia renovável."

Correspondente em Los Angeles

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