Para lá do caos da fuga, que portas se abrem (ou fecham) aos afegãos?

UE recorda com receio a crise migratória de 2015 e está dividida como sempre em relação ao tema. Reino Unido e Canadá acolhem 20 mil cada um e EUA pagam a países terceiros até garantir os vistos.

O primeiro voo enviado pelos Países Baixos para ir buscar os seus cidadãos ao Afeganistão deixou Cabul com 40 passageiros a bordo mas nenhum deles neerlandês ou afegão. A culpa terá sido dos EUA, que controlam quem entra no aeroporto da capital afegã e que só deram 30 minutos para que o aparelho ficasse na pista. Este é mais um exemplo do caos que é sair de Cabul, com o Ocidente a ser apanhado de surpresa com o colapso político e militar do país diante do avanço dos talibãs. Para lá desse caos, nem todos os afegãos que vão sair do país nas próximas semanas (por ar ou por terra) vão encontrar as portas abertas.

A confusão na retirada será analisada, nesta sexta-feira, numa reunião de emergência dos chefes da diplomacia da NATO, e na próxima semana, numa cimeira virtual dos líderes do G7. Dois palcos que devem também ser usados para coordenar uma resposta comum à chegada dos talibãs ao poder ou ao tipo de apoio que os refugiados afegãos poderão encontrar. E a melhor forma de evitar uma nova crise migratória - especialmente às portas da União Europeia (UE).

O presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, defendeu ontem que a Comissão deve encarregar-se de redistribuir de forma "igual" os refugiados afegãos entre os 27. Desde 2015, cerca de 570 mil afegãos (o maior número depois dos sírios) pediram asilo na UE, 44 mil só em 2020 e quase 5 mil já neste ano, até ao mês de maio.

O receio de repetir 2015

A atual situação poderá lançar muitos mais afegãos até às fronteiras externas, com a comissária para os Assuntos Internos, Ylva Johansson, a defender que a UE deve ajudar os países vizinhos do Afeganistão, para evitar uma nova crise como a de 2015. Mas o Paquistão já tinha dito que fecharia as suas portas (já lá vivem 3 milhões de afegãos) e o Irão (onde vivem 3,5 milhões) prepara-se para receber os refugiados, lembrando contudo que estes serão repatriados assim que a situação melhorar. A Turquia, que acolhe 4 milhões de refugiados (a maioria sírios), está a apressar a construção do seu muro na fronteira com o Irão para evitar novas entradas.

Há pouco mais de dez dias, havia seis países da UE (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Grécia e Países Baixos) que se queixavam da suspensão das deportações dos afegãos cujo asilo tinha sido negado, numa altura em que os talibãs já faziam avanços no terreno. Atenas continua a defender que, apesar de as deportações diretas não serem uma opção, enviar os afegãos que viram o asilo negado para a Turquia continua a ser uma possibilidade. Já a Áustria defende "centros de deportação" nos países vizinhos.

Apesar de se mostrarem disponíveis para receber os afegãos que colaboraram com os seus diplomatas ou militares, países como a Hungria já disseram que não querem pagar pela "decisão geopolítica falhada" dos EUA, alegando que havia apelos para que os países abrissem as suas portas sem restrições. Portugal já se mostrou disponível para receber 50 cidadãos afegãos, que colaboraram com a União Europeia e a NATO.

Na segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu uma indicativa europeia "robusta, coordenada e unida" para gerir fluxos migratórios resultantes da chegada ao poder dos talibãs. Disse que ia trabalhar em conjunto com a Alemanha e outros países europeus nesse sentido, apelando à "solidariedade, harmonização de critérios e estabelecimento de cooperação com os países recetores".

A chanceler alemã, Angela Merkel, mostrou-se aberta ao acolhimento "controlado" de afegãos "particularmente vulneráveis", admitindo contudo que será difícil chegar a consenso sobre o assunto no seio da UE. Merkel, que foi criticada pela sua política de portas abertas na crise de 2015, está a cerca de um mês de deixar o poder. O candidato dos conservadores da CDU ao cargo, Armin Laschet, disse no domingo que, apesar de os países ocidentais terem o dever de retirar os parceiros locais do país e "mulheres que estejam especialmente em risco", a verdade é que "2015 não deve ser repetido".

Reino Unido acolhe 20 mil

Os britânicos preparam-se para receber já neste ano cerca de 5 mil refugiados afegãos, mas o plano é chegar aos 20 mil no prazo de cinco anos. "Temos uma dívida de gratidão para com todos aqueles que durante os últimos 20 anos trabalharam connosco para fazer do Afeganistão um lugar melhor. Muitos destes, especialmente mulheres, precisam agora urgentemente da nossa ajuda", afirmou o primeiro-ministro, Boris Johnson.

Também o Canadá abre a porta a 20 mil refugiados, dando prioridade às minorias, incluindo da comunidade LGBTI. Mas a Suíça, por exemplo, já disse que não vai aceitar grandes grupos, analisando cada pedido um a um, sendo que quem pedir asilo terá de ter uma ligação próxima ao país.

EUA pagam a países terceiros

O Pentágono indicou que em apenas 24 horas saíram do Afeganistão duas mil pessoas em 18 voos, sendo o objetivo que possam, nos próximos dias, ser entre cinco mil e nove mil por dia. Segundo as informações, haverá centenas ou até milhares de pessoas à porta do aeroporto de Cabul a tentar sair, com episódios esporádicos de violência, tendo os militares dos EUA chegado a disparar tiros para o ar. E Londres teme que Washington possa deixar cair a segurança do aeroporto nos próximos dias - o prazo inicial para a retirada dos militares do país era 31 de agosto.

Para já, os EUA preveem retirar mais de 30 mil pessoas na ponte aérea com as suas bases militares no Koweit e no Qatar, estando ainda muitos afegãos à espera de obter o visto para poder entrar nos EUA. Os norte-americanos chegaram por isso a acordo com vários países dos Balcãs (Albânia, Kosovo e Macedónia do Norte) para que acolham temporariamente os afegãos à espera de visto. Só a Macedónia do Norte deverá acolher 450 pessoas, não sendo claro quanto tempo terão de aguardar antes de seguir viagem. Também o Uganda irá receber dois mil refugiados, a pedido dos EUA, pelo prazo de três meses.

susana.f.salvador@dn.pt

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