Obama criticou China e Rússia e deu conselhos aos jovens na COP26

"Não estamos sequer perto de onde devíamos estar", admitiu o antigo presidente dos EUA. Semana decisiva da cimeira em Glasgow começou com divisões entre países ricos e pobres.

Seis anos depois de ter negociado o Acordo de Paris, que criou um plano de ação para lutar contra as alterações climáticas e foi assinado por 197 países, o antigo presidente dos EUA, Barack Obama, voltou ao palco de uma Cimeira do Clima, desta vez em Glasgow. "Um trabalho importante foi feito lá e um importante trabalho está a ser feito aqui. Essa é a boa notícia. Agora, a má. Não estamos sequer perto de onde devíamos estar", disse Obama na COP26, criticando a "perigosa falta de urgência" da China e da Rússia sobre o tema e deixando conselhos para os mais jovens.

"Foi particularmente desencorajador ver que os líderes de dois dos maiores emissores do mundo, a China e a Rússia, recusaram estar presentes", acusou o ex-presidente, indicando que os seus planos nacionais de cortes de emissões "refletem o que parece ser uma perigosa falta de urgência". Num discurso de 44 minutos, Obama também não poupou as críticas internas, atacando os republicanos que se mostram "ativamente hostis contra a ciência das alterações climáticas e tornam o tema um assunto partidário". No Congresso, o atual presidente Joe Biden está a tentar passar uma lei que inclui um investimento de 555 mil milhões de dólares para responder às alterações climáticas.

Aos jovens, que com a ativista sueca Greta Thunberg à cabeça se têm queixado do "blá-blá-blá" dos políticos nesta cimeira, Obama disse que "têm o direito de estar frustrados", mas repetiu o conselho que lhe foi dado pela mãe quando ele próprio era jovem. "Não amuem. Passem à ação, comecem a trabalhar e mudem o que precisa ser mudado", afirmou. "Votem como se a vossa vida dependesse disso, porque depende", concluiu, tendo também defendido que o combate às alterações climáticas é "uma maratona, não é um sprint".

Ricos vs. pobres

Fazendo o balanço da primeira semana, o presidente da COP26, Alok Sharma, disse que "alguns" dos problemas foram resolvidos. Contudo, ainda não há acordo em relação a dois dos principais temas da cimeira: o corte de emissões necessário para manter o aquecimento global abaixo do valor de 1,5 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais e a garantia do pagamento de 100 mil milhões de dólares anuais para ajudar os países mais pobres a fazer face às alterações climáticas.

A questão monetária é considerada essencial para o grupo G77+China (uma coligação de 134 países em vias de desenvolvimento), que diz que sem uma solução para ajudar os países mais pobres a lidar com o aquecimento global, então a COP26 não pode ser um sucesso. Ahmadou Sebory Touré, presidente deste grupo, disse que o facto de os países ricos não cumprirem a sua promessa de 100 mil milhões de dólares mostra que estão a fazer apenas "compromissos vazios".

As nações mais pobres também acusam as mais ricas de querer fugir às responsabilidades de garantir uma compensação pelos danos causados pelas alterações climáticas. As primeiras lembram que são os países mais ricos os responsáveis pela maioria dos impactos do aquecimento global, tendo começado a emitir grandes quantidades de carbono para a atmosfera muito mais cedo do que o resto do mundo. "É como se eu atirasse lixo para o vosso quintal e dissesse para vocês limparem, apesar de vocês nem conseguirem pagar o vosso empréstimo ou comprar comida. Não podem fazer nada porque têm de gastar todo o vosso dinheiro no lixo que atirei para o vosso quintal", disse a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, que deu o exemplo da ilha de Dominica que perdeu 227% do seu PIB em quatro horas, quando um poderoso furacão passou em 2017, enquanto a Alemanha perdeu 0,1% do seu PIB nas trágicas cheias deste verão.

Também o líder dos Países Menos Desenvolvidos na COP26, Sonam Phuntsho Wangdi, criticou o facto de haver "uma desconexão entre as declarações públicas e o que se passa nas negociações". E chamou a atenção para o facto de qualquer cedência à meta dos 1,5 graus Celsius significar "negociar com a vida de milhares de pessoas nos nossos países". Já Lia Nicholson, em nome da Aliança dos Pequenos Estados Insulares, lamentou que as populações das ilhas sejam "reféns da caridade aleatória" e pediu para se deixar de atirar para o ar o tema do financiamento.

No seu discurso, Obama considerou que as ilhas são "os canários nas minas" das alterações climáticas. "Todos nós temos um papel a desempenhar, todos nós temos trabalho a fazer e temos sacrifícios a fazer. Aqueles de nós que vivem em grandes e ricas nações, aqueles de nós que ajudaram a precipitar o problema, temos um fardo adicional para garantir que estamos a trabalhar e a ajudar os que são menos responsáveis e menos capazes, mas mais vulneráveis à crise que se aproxima", acrescentou.

susana.f.salvador@dn.pt

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