O tigre amarrado há 50 anos com cordel de palha

Há meio século a ONU trocou o reconhecimento de Taipé para Pequim. Os nacionalistas chineses temiam a "subversão internacional". Hoje os desafios da China são outros, mas tensão com Taiwan mantém-se.

O presidente chinês celebrou na segunda-feira o 50.º aniversário do reconhecimento da República Popular da China pelas Nações Unidas num discurso em que evocou a "vitória para o povo chinês". Em 25 de outubro de 1971, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas adotou a resolução 2758 que reconheceu os representantes do governo estabelecido em Pequim em 1949 como "os únicos representantes legítimos da China na ONU". Sem fazer qualquer referência explícita a Taiwan, Xi Jinping considerou a entrada na organização "um grande evento para a nova China obter o seu lugar legítimo na ONU" e advogou que o país "vai continuar comprometido com a paz".

A admissão da China na ONU na altura significou a saída dos representantes de Taiwan, oficialmente conhecidos até então como a República da China. O governo nacionalista chinês do Kuomintang fugiu da China para a ilha Formosa após a sua derrota para os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung, que fundaram a República Popular da China em Pequim, em 1949. Há 50 anos, o ministro dos Negócios Estrangeiros taiwanês, Chow Shu-kai, não escondia a frustração pela derrota diplomática, em declarações recolhidas pelo New York Times: "Há quem pense que a participação do regime comunista reforçará a perspetiva de paz. A ideia é submeter o regime agressivo à disciplina da opinião pública internacional. Isto é perigosamente sem sentido - é como amarrar um tigre com um cordel de palha."

Taiwan tem desde então sido um regime autónomo, primeiro governado com mão de ferro pela família Chiang, e progressivamente transformando-se numa sociedade aberta e democrática, com as primeiras eleições parlamentares a decorrer em 1992 e as presidenciais em 1996. Pequim, porém, considera a ilha parte da China e ameaça regularmente com a "reunificação". Ainda na sexta-feira o porta-voz da diplomacia chinesa Wang Wenbin reafirmou as pretensões do regime comunista: "Taiwan é uma parte inalienável do território chinês. A questão de Taiwan é puramente um assunto interno da China que não admite qualquer intervenção estrangeira."

Taiwan, por seu lado, argumenta que a resolução 2758 da ONU trata apenas da representação da China no sistema da ONU, e não do estatuto de Taiwan. Tendo perdido terreno para Pequim até no número de estados que o reconhece (apenas 15), Taipé almeja não estar excluída dos órgãos internacionais, caso da Organização Mundial da Saúde, por exemplo. E, claro, não ser alvo de uma invasão.

A presidente Tsai Ing-wen apresentou há dias quatro princípios para as relações entre os lados do estreito da Formosa, tendo dito que a República da China e a República Popular da China "não devem estar subordinados um ao outro". Uma frase que cria anticorpos, mas que tem apoio popular em Taiwan. Segundo uma sondagem, 70,6% concorda com a presidente. O facto de Pequim ter na prática acabado com o modelo "um país, dois sistemas" ao impor o fim da autonomia em Hong Kong serve de aviso para os 23 milhões de habitantes da ilha.

Se a resolução de 25 de outubro de 1971 ajudou a República Popular da China a fazer o seu caminho para hoje ser uma potência global, Pequim tem outros desafios, além de Taiwan e Hong Kong. Há cinco dias, durante uma reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, foi lida uma declaração assinada por 43 países que denunciam as condições dos uigures, a minoria muçulmana da província de Xinjiang.

A colaboração insuficiente para uma investigação independente sobre as origens do novo coronavírus em Wuhan e a atitude expansionista no mar do Sul da China enquanto se estabelece a diplomacia do Lobo Guerreiro (ou "espírito combativo" segundo Xi Jinping) são outros temas que opõem Pequim a outros estados.

cesar.avo@dn.pt

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