O que se sabe sobre ataque ao Capitólio deixa Trump sob suspeita

Comissão de inquérito revela que no dia seguinte às eleições, um congressista propunha uma chapelada. Círculo próximo do presidente cessante tentou que este agisse para parar a violência, sem sucesso.

O chefe de gabinete da Casa Branca é a segunda pessoa condenada pela Câmara dos Representantes por desrespeito, depois de Steve Bannon, por não comparecer perante a comissão especial que investiga os acontecimentos que levaram à invasão do Capitólio a 6 de janeiro, no dia em que se contavam os votos do colégio eleitoral que tornavam oficial a vitória de Joe Biden nas eleições de novembro. Cabe agora ao Departamento de Justiça decidir se acusa Mark Meadows, tal como acusou Bannon, que arrisca até dois anos de prisão.

Meadows, representante durante sete anos antes de ser chamado para chefe de gabinete da Casa Branca nos meses finais do mandato do antecessor de Biden, começou por colaborar com a comissão. Entregou 6600 páginas com registos das suas contas de email, bem como umas 2000 mensagens de texto. Mas depois de o seu livro de memórias The Chief"s chief ter sido publicado nas vésperas da sua audiência e Donald Trump ter classificado o conteúdo de "fake news", Meadows anunciou que iria deixar de colaborar, e inclusive apresentou um processo contra a comissão e contra a presidente da Câmara Nancy Pelosi porque, alegou, a comissão "carece de autoridade legal" para obter tais informações.

Não obstante, entre o que Meadows partilhou com o painel de representantes há matéria nova que ajuda a deslindar um quebra-cabeças cuja solução, na verdade, já estava à vista de todos. Foi a vice-presidente da comissão Liz Cheney, republicana em desgraça entre os trumpistas, quem leu as mensagens.

Quem diz o quê nas SMS?

Enquanto uma turba invadia o Capitólio dos EUA, após discursos inflamados de Trump e do seu advogado pessoal Rudolph Giuliani, alguns dos maiores defensores do candidato republicano na TV, congressistas e até o próprio filho enviaram mensagens de texto ao chefe de gabinete da Casa Branca, instando-o a agir para que o então presidente cessante fizesse algo para acabar com a violência.

"Precisamos de um discurso na Sala Oval. Ele tem de liderar agora. Já foi longe demais e ficou fora de controlo", escreveu Donald Trump Jr. sobre o pai numa SMS a Meadows.

Os apresentadores e comentadores da Fox News também contactaram Meadows. "Mark, o presidente precisa de dizer às pessoas no Capitólio para irem para casa. Isto está a prejudicar-nos a todos. Ele está a destruir o seu legado", escreveu Laura Ingraham. Sean Hannity pediu a Meadows para Trump fazer uma declaração ao país na qual pediria aos invasores para voltarem para casa. "Por favor, ponha-o na televisão. Destruindo tudo o que alcançaram", disse por sua vez Brian Kilmeade, apresentador do programa Fox & Friends.

No dia seguinte, terça-feira, Cheney leu mensagens de representantes, para já mantidos no anonimato. "Isto está realmente mal aqui no Capitólio", queixou-se um; "O presidente precisa de acabar com isto o mais depressa possível", disse outro. Um terceiro limitou-se a uma telegráfica exigência: "Resolvam isto agora."

O que disseram depois?

Como Cheney recordou aos colegas desmemoriados, após os acontecimentos a maioria dos republicanos estiveram unidos "em termos do que aconteceu no dia 6 de janeiro e da responsabilidade que o presidente tinha para o impedir". Dez deles condenaram Trump por incitação à insurreição no segundo processo de destituição, mas não demorou muito para que o líder republicano na Câmara, Kevin McCarthy, se reunisse com Trump e mudasse de discurso e de estratégia. Mais tarde mostraram-se contra a criação desta comissão e só Cheney e Adam Kinzinger (ambos membros da comissão) mantêm o que disseram então.

5 O ataque dos manifestantes para impedir a oficialização do resultado das eleições saldou-se em cinco mortos (um deles polícia) e 140 agentes feridos, alguns com gravidade.

O discurso público que se seguiu - atirando a responsabilidade para cima dos antifa e declinando responsabilidade de Trump - não podia contrastar mais com o tom assustado das mensagens. Uma semana depois do assalto ao Capitólio, Trump Jr. começou a propagar a narrativa de que as autoridades sabiam que a violência iria eclodir, mas nada fizeram, em parte porque a presidente da Câmara Nancy Pelosi ignorou os avisos.

Laura Ingraham não precisou de tanto tempo. Logo no programa da noite de 6 de janeiro, enquanto repetia uma afirmação desmentida pelos factos - "preocupações legítimas" de fraude eleitoral - a apresentadora produziu desinformação ao dizer que entre os invasores havia provocadores esquerdistas: "Provavelmente não eram todos apoiantes do Trump, e há alguns relatos de que os simpatizantes antifa podem ter sido espalhados pela multidão."

718 No que é a maior investigação criminal nos EUA, o FBI acusou 718 invasores. Uns 150 declararam-se culpados, 50 foram condenados (a maior parte a penas suspensas ou prisão domiciliária). Nenhum caso seguiu para julgamento.

Já Sean Hannity, que no dia 6 de janeiro afirmou que os responsáveis pelo ataque "devem ser detidos e acusados em toda a extensão da lei" fez um ziguezague e acabou por dizer que a comissão é uma "farsa dos democratas" e um "desperdício de tempo e dinheiro". Ao entrevistar Meadows esta semana, ambos repetiram a falsa alegação de que Trump tinha pedido 10 mil militares para proteger o Capitólio.

Golpe em preparação?

As revelações trazidas pelo material de Meadows não ficaram por aqui. O representante democrata Jamie Raskin mostrou uma mensagem de um colega republicano não identificado que propunha, no dia 4 de novembro, quando as contagens prosseguiam e não se sabia o desfecho das eleições, uma "estratégia agressiva", que passava por ignorar os resultados na Geórgia, Pensilvânia e Carolina do Norte, entre outros estados com assembleias de maioria republicana, e enviar os seus grandes eleitores para o colégio eleitoral.

O presidente da comissão, Bennie Thompson, também mencionou uma mensagem de dia 6, na qual um congressista propõe um plano "extremamente controverso" e que passava também pela nomeação de listas alternativas de eleitores, ao que Meadows respondeu: "Adoro."

5 O ataque dos manifestantes para impedir a oficialização do resultado das eleições saldou-se em cinco mortos (um deles polícia) e 140 agentes feridos, alguns com gravidade.

Mas há mais: a comissão disse que queria interrogar Meadows sobre mensagens que trocou com um senador sobre o poder do vice-presidente (que preside ao Senado) para rejeitar os eleitores designados pelos estados. Nas mensagens, o chefe de gabinete relatou uma "comunicação direta com o presidente", segundo a qual Trump "pensa que os legisladores têm o poder, mas o vice-presidente também tem o poder", para não aceitar os eleitores.

E também há um documento de 36 páginas entregue a Meadows por um ex-coronel e consultor de cibersegurança. Phil Waldron, que defendia opções como declarar o estado de emergência e apreender os boletins de voto, trabalhou em articulação com Giuliani, e foi recebido por Meadows várias vezes - e até por Trump. Nenhum destes planos foi concretizado. Waldron foi intimado a depor na comissão.

Trump acusado?

"Será que Donald Trump, através de ação ou inação, procurou de forma corrupta obstruir ou impedir o procedimento oficial do Congresso para a contagem dos votos eleitorais?", questionou Liz Cheney. A vice-presidente da comissão especial aponta não só para o discurso de apelo à insurreição, mas também aos 187 minutos em que Trump esteve a assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela televisão, tuitando mensagens de incentivo e, sabe-se agora, não cedendo aos apelos para intervir. Cheney usou um fraseado parecido com o da lei, segundo a qual quem tentar impedir um procedimento oficial pode ser condenado até 20 anos de prisão.

Na semana anterior um juiz federal não deu razão a dois invasores do Capitólio, que protestavam contra a acusação de obstrução a um procedimento oficial. Além desta decisão ter repercussões nas centenas de acusações pendentes, esta lei poderá, de acordo com as conclusões da comissão e a iniciativa do procurador-geral Merrick Garland, servir para incriminar pessoas na órbita do então presidente, como Meadows, e o próprio Trump.

O líder dos republicanos, por seu lado, invoca "privilégio executivo" e tenta bloquear a divulgação de arquivos. No dia 9, um coletivo de juízes de um tribunal de segunda instância rejeitou o recurso de Trump. O caso irá ser decidido no Supremo.

A republicana com coluna vertebral

Filha do ex-vice-presidente Dick Cheney, Liz Cheney é uma das poucas vozes republicanas críticas de Trump. Se nas horas após a invasão do Capitólio vários republicanos criticaram o ocorrido, Cheney, de 55 anos, foi dos poucos a manter a palavra. Afastada dos cargos do partido, terá de vencer eleições primárias para poder concorrer a novo mandato. É a vice-presidente da comissão especial aos acontecimentos de 6 de janeiro.

O procurador quase juiz do Supremo

Merrick Garland, de 69 anos, ficou para a história como o único designado para o Supremo (no caso por Barack Obama) sem ter sido ouvido pelo Senado e em consequência não foi confirmado juiz. Agora, como procurador-geral, tem nas mãos a hipótese de lançar uma investigação criminal a Trump, mas muitos democratas (ainda que discordem de Mary Trump, que o chamou de "idiota" por não processar o tio) estão céticos.

"Fraude maciça" resume-se a centenas de casos

Tal como os órgãos estaduais e a justiça já tinham dado a entender, o sistema eleitoral norte-americano não foi alvo de uma conspiração e as tentativas de fraude resumem-se a uma percentagem marginal. Trump insiste na tese de fraude maciça.

Mais de um ano depois das eleições ganhas por Joe Biden e Kamala Harris e contestadas pelo derrotado em todas as instâncias, dos tribunais às ruas, a Associated Press (AP) concluiu uma análise às alegações de fraude nos seis estados em causa. O resultado é esclarecedor: de um universo eleitoral combinado de 25,5 milhões de votos foram sinalizados 473 casos de votos suspeitos, sendo que a maioria não chegou a ser contada logo à partida. Além do mais, não é claro para que lado pendia a maioria. "Simplesmente penso que não se deve fazer figura de parvo ao dizer 400 votos", reagiu Donald Trump, que voltou a invocar fraude eleitoral maciça, mais uma vez sem apresentar qualquer prova.

O ex-presidente e os seus aliados entupiram os tribunais - dos estaduais ao Supremo com queixas de fraude -, além de pedidos de recontagem e de não certificação dos resultados no Arizona, Geórgia, Michigan, Nevada, Pensilvânia e Wisconsin. Obtiveram 63 negativas dos juízes e só na Pensilvânia um juiz estadual concordou em encurtar o tempo para os eleitores corrigirem o boletim de voto por correspondência (sem qualquer efeito prático, contudo).

Depois da certificação dos resultados no dia 6 de janeiro, prosseguiram as investigações, tendo a agência noticiosa norte-americana investido meses de trabalho em 300 centros eleitorais locais de cinco dos seis estados (o Wisconsin é o único dos estados em questão que centraliza as queixas eleitorais, e elaborado um relatório). A AP conclui que não encontrou provas para apoiar as alegações não fundamentadas de que foram contados mais votos do que os eleitores registados e de que milhares de boletins de voto por correspondência foram depositados por pessoas que não estão nos cadernos eleitorais.

O Arizona foi o estado em que foram identificados mais casos suspeitos, 198; ainda assim, representa 1,9% da margem de vitória de Biden. Mais de metade reporta-se ao condado de Pima, que por tradição reporta aos procuradores toda e qualquer tentativa de dupla votação. Há nove pessoas acusadas de fraude eleitoral naquele estado.

De resto, além de erros administrativos, há os casos anedóticos. Por exemplo, o do eleitor registado como republicano Ralph Thurman, de 72 anos, na Pensilvânia, condenado a três anos de liberdade condicional por ter votado duas vezes. As autoridades dizem que Thurman, depois de votar, regressou uma hora depois com óculos de sol e votou em nome do seu filho.

"Todos os escrutínios credíveis demonstraram que não houve fraude generalizada" nas eleições presidenciais de 2020, disse Ben Hovland, da Comissão de Assistência Eleitoral, agência federal que presta apoio às autoridades estaduais e locais. "Repetidamente, quando ouvimos estas denúncias e estas alegações, e quando se faz uma verdadeira investigação, vê-se que [a fraude] é a exceção e não a regra", conclui.

cesar.avo@dn.pt

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