Igreja católica espanhola investigada por abusos sexuais a menores

Relatório do El País foi entregue ao Papa no início do mês e visa 251 membros do clero e alguns leigos.

A Igreja espanhola abriu uma investigação a 251 membros do clero e alguns leigos de instituições religiosas que são acusados de abusos a menores. Esta investigação surge na sequência de um trabalho feito pelo El País nos últimos três anos e que resultou num relatório de 385 páginas que o jornal entregou ao Papa no dia 2 durante a viagem de Francisco à Grécia.

Na semana seguinte, o Papa entregou o relatório à Congregação para a Doutrina da Fé, a instituição do Vaticano que centraliza as investigações a abusos sexuais no seio da Igreja católica. Ao mesmo tempo, o El País fez chegar o documento ao presidente da Conferência Episcopal Espanhola, cardeal Juan José Omella, que passou a informação ao tribunal eclesiástico de Barcelona, cidade onde é arcebispo, para dar-se início à investigação.

O caso mais antigo encontrado pelo El País data de 1943 e o mais recente de 2018 e todos são inéditos, com exceção de 13 já publicados, mas que o jornal decidiu incluir no relatório por terem surgido novas denúncias contra os mesmos membros do clero.

De acordo com o El País, somando estes 251 casos aos que o jornal contabilizou, alegando que não existem dados oficiais em Espanha, ascendem a 602 os casos de abusos sexuais na Igreja Católica em Espanha, sendo que cada um destes refere-se a um acusado, e a 1237 vítimas desde os anos 30. O jornal explica que este último número foi calculado através de depoimentos diretos de vítimas e testemunhas dos abusos, sublinhando que se usassem estimativas como as empregues por comissões de outros países estes números seriam muito mais expressivos. Na maioria dos testemunhos, explica ainda o El País, são referidos pedófilos que abusavam de dezenas de menores e que um cenário habitual era professores que agrediam sexualmente uma turma inteira e que estiveram durante anos em um ou mais colégios.

A Conferência Episcopal Espanhola já referiu não saber quantos casos de abusos existirão no país, mas assegura que serão "muito poucos". Este organismo disse ainda que não vai abrir uma investigação geral e que apenas irá pedir às vítimas que os contactem para registarem as denúncias. O El País escreve que em três anos, desde que criou um email destinado a denúncias de casos, recebeu mais de seis centenas de mensagens.

O Vaticano, como é habitual quando estão em causa um número tão grande de casos e não pertencem apenas a uma ordem, diocese ou abusado - neste caso, tratam-se de 31 ordens religiosas e 31 dioceses -, irá supervisionar a investigação da Igreja espanhola através da Congregação para a Doutrina da Fé. E, de acordo com as regras de Roma, os resultados da investigação espanhola são esperados num prazo não superior a três meses. O El País refere ainda na sua edição de ontem que 77% dos casos que recolheu referem-se a ordens religiosas que não estão sob a alçada da Conferência Episcopal Espanhola, mas que as principais congregações, informadas pelo jornal das denúncias, já abriram as suas próprias investigações.

ana.meireles@dn.pt

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