Fórum La Toja debate o vínculo transatlântico: "Era difícil estar pior"

No terceiro ano do evento, que quer ser mais ibérico, o impacto da retirada dos EUA do Afeganistão estará em destaque. E a China.

Qual é o impacto da retirada norte-americana do Afeganistão na nova ordem global? E do novo pacto de defesa Aukus, assinado entre Austrália, Reino Unido e EUA para as relações transatlânticas? Estes são alguns temas que serão discutidos, entre 29 de setembro e 1 de outubro, no III Fórum La Toja, que reúne políticos, empresários e pensadores, a maioria de Espanha e Portugal, na ilha galega da Toxa.

"O problema é que em termos de vínculo atlântico era difícil estar pior", disse o economista espanhol Carlos Lopez Blanco, na apresentação do evento em Lisboa, questionado sobre se a mudança de inquilino na Casa Branca tinha trazido melhorias na relação transatlântica. "Estamos melhor, mas provavelmente pensávamos que íamos estar ainda melhor do que estamos", acrescentou, lembrando que a relação "era fácil de melhorar" depois da presidência de Donald Trump. Uma coisa é certa: a administração de Joe Biden "está mais aberta ao diálogo que a anterior", apesar de ter "provavelmente dececionado as expectativas que muita gente tinha" de que voltaria a considerar a Europa "o seu ponto de prioridade geoestratégica."

O economista defende contudo que esta é uma oportunidade para uma reflexão profunda. "A Europa encontra sempre as suas oportunidades nas crises. Há instituições que avançam por missão e há as que avançam por reação. A Europa é das segundas. Nestes momentos tem um desafio muito importante e uma extraordinária oportunidade de entender como tem que ser esse vínculo atlântico no século XXI e qual tem que ser o papel da Europa", afirmou.

O presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, lembrou que o mundo é hoje "muito imprevisível" e mesmo que houvesse esperança na mudança com Biden, a política externa norte-americana não mudou assim tanto. "Não se vê o presidente Biden a fazer diferente do presidente Trump", referiu, indicando que a visão estratégica dos EUA assenta na sua posição mundial e no confronto com a China.

O gigante asiático não está diretamente na agenda do fórum, mas estará muito presente em temas como a digitalização ou até na discussão sobre o Afeganistão, que contará com a presença do ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus português, escritor e analista do Instituto Hudson Bruno Maçães. "China vai estar muito presente, como está presente em tudo", lembrou Lopez Blanco.

Foi a inquietude com o questionar das bases do atlantismo, com o deslocamento do eixo estratégico do Atlântico para o Pacífico, e da democracia como a conhecemos com o surgimento dos fenómenos do novo populismo que esteve na origem da iniciativa que decorre pelo terceiro ano consecutivo. Assim como os novos desafios da sociedade, como a digitalização ou o clima. "Move-nos a preocupação de defender valores e princípios ocidentais que consideramos estarem a ser postos em causa", explicou o presidente do Grupo Hotusa, Amancio López Seijas, um dos responsáveis pelo evento.

Agenda

O Fórum, que vai buscar o seu nome à ilha galega onde se realiza, contará este ano na sessão de encerramento com os primeiros-ministros de Portugal, António Costa, e Espanha, Pedro Sánchez. Dois ex-chefes de governo espanhóis, Mariano Rajoy e Felipe González, participam numa das mesas. Na sessão inaugural, estarão os chefes da diplomacia, Augusto Santos Silva e José Manuel Albares. "O que pretendemos, a partir deste terceiro fórum, é fortalecer a presença de Portugal", disse López Seijas.

Na sessão de abertura estará também a secretária-geral ibero-americana, Rebeca Grynspan. "A ideia é conceber o vínculo atlântico como um triângulo em que a América Latina tem que jogar um papel fundamental", afirmou o economista espanhol. António Saraiva defende que, no futuro, se pense mesmo num quadrado, com a inclusão de África, com Lopez Blanco a dizer que uma maior participação de Portugal no fórum pode abrir as portas nessa área.

Nesta edição será entregue, pela primeira vez, um prémio que visa reconhecer figuras com trajetórias meritórias em prole do reforço e desenvolvimento das democracias representativas e vínculo atlântico. O galardoado é o ex-secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, o mexicano José Ángel Gurría.

susana.f.salvador@dn.pt

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