Europeus com Merkel, nem tanto com os alemães

Ao fim de 16 anos no poder, a chanceler alemã sai em alta, mas a imagem da Alemanha para os outros e para os alemães não brilha.

A menos de duas semanas das eleições que irão decidir o seu sucessor, Angela Merkel foi aos Balcãs transmitir uma mensagem de estímulo aos países daquela região, para darem "novos passos rumo ao Estado de direito, à democracia e à pluralidade da sociedade civil" e com isso poderem juntar-se ao clube europeu.

Em Belgrado e em Tirana, a chanceler foi a voz europeia pelo alargamento, um tema que deixou de ser prioridade depois das crises da dívida soberana e do Brexit. Os membros da UE, disse, "devem ter sempre em mente que existe um interesse geoestratégico absoluto em aceitarmos de facto estes países na União Europeia", até porque "também há influência de muitas outras regiões do mundo", referência à Rússia e à China. Curiosamente, é neste papel que uma sondagem realizada em 12 países, representativa de 300 milhões de europeus, e revelada na terça-feira, vê a Alemanha como mais frágil, ao contrário do papel em defesa dos valores democráticos, bem como a imagem de Merkel.

Se os cidadãos europeus pudessem escolher diretamente um presidente europeu, Angela Merkel estaria muito bem situada para ser eleita. A pergunta opôs a alemã ao presidente francês, mas a amostra é esclarecedora, tendo em conta que, em média, 41% dos europeus votariam na engenheira química, de 67 anos, e apenas 14% no ex-banqueiro, de 43. O seu legado de líder centrista na busca de compromissos não foi esquecido quando uma parte significativa dos inquiridos respondeu que sem ela teria havido mais conflitos no mundo (23% contra 39%, que disseram não fazer diferença, e 15% que responderam o inverso).

Os resultados foram dados a conhecer pelo grupo de reflexão Conselho Europeu de Relações Externas (EFCR) e os autores destacam que, apesar da popularidade alemã e da chanceler nos outros países, em termos domésticos não é tanto assim. Por um lado, mostram-se mais pessimistas quanto ao futuro do seu país, com a maioria (52%) a acreditar que já passou o seu período áureo. Entre os cidadãos de todos os Estados-membros inquiridos, os alemães são os mais pessimistas sobre o futuro do seu país, só acompanhados pelos vizinhos austríacos e de perto pelos húngaros (50%). Em sentido contrário, um quarto dos alemães acredita que o seu país está hoje a viver o seu período áureo ou que este ainda está por chegar.

Por outro lado, os germânicos não estão convencidos de que Berlim deveria desempenhar um papel mais importante na UE. A exceção é a defesa da democracia e dos direitos humanos, onde 38% afirmam que a Alemanha pode desempenhar um papel forte na defesa dos interesses europeus. Nesse ponto estão em linha com os restantes europeus, sendo apenas suplantados pelos húngaros (49%), holandeses (45%), espanhóis (43%) e dinamarqueses (41%).

Os europeus acreditam nos alemães na defesa dos interesses económico-financeiros (média de 36%). Para os autores do estudo, Piotr Buras e Jana Puglierin, são resultados paradoxais, tendo em conta as dificuldades que vários países passaram durante a crise da dívida e a posição inamovível do governo de Merkel. É certo que a sondagem não cobre a Grécia nem Chipre, mas Portugal (44%) e Espanha (45%) mostram suporte às medidas draconianas.

Já a capacidade de Berlim em lidar com a China só é reconhecida por 17%, com a Rússia, 20%, e os EUA, 25%, sendo os franceses, polacos e italianos os mais críticos.

Em conclusão, os cientistas políticos defendem uma mudança de rumo a executar pelo sucessor. "O merkelismo já não é sustentável e o próximo chanceler terá de encontrar outro caminho", diz Piotr Buras. "Merkel pode ter mantido o statu quo em todo o continente nos últimos 15 anos, mas os desafios que a Europa enfrenta agora - a pandemia, as alterações climáticas e a competição geopolítica - exigem soluções radicais, não mudanças cosméticas."

cesar.avo@dn.pt

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