"Estados Unidos já não querem ser a polícia do mundo"

Embaixador da União Europeia no Reino Unido afirma que os norte-americanos não querem continuar a assumir um papel de protagonismo. João Vale de Almeida diz que Brexit permitiu consensos e avanços mais rápidos na política externa da União Europeia.

"O Brexit é uma vacina contra o desmembramento interno da União Europeia. Depois, do Brexit, os níveis de apoio [à União Europeia], na opinião pública, aumentaram. A UE foi capaz de avançar em vários domínios mais rapidamente do que quando o Reino Unido era membro", afirma João Vale de Almeida, primeiro embaixador dos 27 no Reino Unido, que acredita que a Europa "deu o salto por cima", revelou "solidez" e "unidade absoluta".

"Não vejo nenhum país a pensar sequer em sair da União Europeia, não vejo sequer forças políticas que anteriormente eram anti-europeias, anti-euro [a defender o que defendiam]... corrigiram os seus programas", constata.

O diplomata sublinha que "não aconteceu" o muitas vezes referido "efeito de dominó de um saiu, e depois sai outro" nem tão pouco a opinião pública ficou "seduzida pela perspetiva do Brexit" que poderia ser "um estímulo à desagregação". Explicação? "A alternativa de cada país por si só, no quadro mundial atual, não é alternativa atraente (...) Espero que todos eles compreendam que isto é uma construção frágil, que não se pode dar como garantida e que é preciso todos os dias reforçar a unidade europeia".

João Vale de Almeida considera que o Brexit teve um papel importante no reforço de necessidade de uma política externa de segurança e de defesa e aponta as dúvidas que Londres manifestava, objeções que provocaram atrasos. "O Reino Unido privilegiava claramente a Nato em relação ao pilar europeu, tinha reticências em relação a um investimento acrescido na UE, reticências em relação à dimensão supranacional de uma política externa e de uma política de segurança e defesa, e, portanto, a saída deles criou uma base mais consensual para se avançar nessa matéria. Os dados estão aí a prová-lo, nos últimos cinco anos avançou-se mais rapidamente na frente externa do que nos anos anteriores".

Uma Europa menos dos direitos humanos, menos do soft power e mais do hard power? O embaixador espera que "tenhamos, ainda mais, uma Europa dos valores, dos direitos humanos, mas também, adicionalmente, em complemento, uma Europa que tenha mais capacidade de ação na frente externa: uma coisa não exclui a outra, as duas são necessárias. Uma união europeia mais sólida em termos dos valores humanos, direitos fundamentais, daquilo que são os valores inscritos no tratado da União Europeia".

João Vale de Almeida, em entrevista ao Diário de Notícias e Rádio Observador, durante a sua participação no Summer Cemp organizado pela representação da Comissão Europeia em Portugal, que decorre em Alcoutim, defende uma Europa "mais capaz de ser credível na frente externa, ativa e eficaz na frente externa", mas "não é preciso ter um exército europeu".

"O que é preciso fazer é maior cooperação entre as forças armadas dos vários países, haver instrumentos europeus de ação (...), por exemplo, em termos de investimento na defesa, em termos de investigação e desenvolvimento, de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Sabendo que os novos conflitos serão altamente tecnológicos, altamente cirúrgicos e implicam inovação tecnológica, liderança tecnológica, há sinergias a obter no seio da união europeia". E questiona: "por que é que há vários países a desenvolver projetos militares semelhantes, em paralelo, com custos adicionais, quando se podia fazer através da cooperação, através dos instrumentos orçamentais europeus uma gestão mais eficaz, dos meios que temos?".

EUA já não querem ser polícias do mundo

"Os Estados Unidos já não querem ser a polícia do mundo. Isso é bom e mau, mas é uma realidade. Não querem continuar a assumir um papel de excessivo protagonismo à escala internacional. A opinião [dos norte-americanos] está mais orientada para os problemas internos. Isso é um dado que temos de dar como adquirido e construir ao nível europeu e ao nível internacional alternativas a essa mudança da atuação americana", sustenta o embaixador português.

João Vale de Almeida afirma que o Afeganistão tornou visível a mudança de paradigma, mas que "desde Obama, certamente durante Trump" e "mais atrás vemos indícios, em mandatos anteriores, do início deste reposicionamento americano".

"E permitam-me esta crítica. Vejo muita gente, hoje, que sempre esteve contra o intervencionismo americano, estar agora muito ofendida porque os americanos têm uma tendência não intervencionista. Preso por ter cão, preso por não ter. Quando intervêm é porque são imperialistas, quando se retiram é porque são insensíveis, igualmente insensíveis de outra maneira... não percebo bem esta contradição", afirma.

E quem ocupa esse lugar que fica vago? João Vale de Almeida é precavido na explicação. "Nós temos que assumir as nossas responsabilidades, os outros tê-lo-ão também na cena internacional. Os Estados Unidos não abandonam a cena internacional, o que estão a fazer é uma evolução no sentido de um menor protagonismo".

Sobre a saída dos norte-americanos do Afeganistão, o embaixador diz ser "ainda muito cedo para perceber tudo o que passou nos últimos meses. Alguma prudência é necessária para perceber tentar perceber exatamente o que se passou, por que é que os americanos agiram desta maneira".

João Vale de Almeida classifica o Afeganistão como um local a partir do qual pode haver ataques terroristas aos valores europeus - "Um risco. Todos nós estamos conscientes disso" -, não considerando, pelo menos "neste momento", um regresso de soldados europeus e norte-americanos. "Isso não está na agenda neste momento, vamos ver como é que evoluiu o debate. A retirada concretizou-se a agora temos um novo ciclo a gerir. Mas é preciso dizê-lo com clareza, a aliança atlântica, a relação transatlântica continua a ser um pilar fundamental da segurança europeia e da segurança internacional. Continuaremos certamente a apostar, a investir nessa relação".

Risco de clivagens na Europa

"Há um debate atual sobre os valores, sobre a interpretação que cada país faz das regras europeias nessa matéria. Nós somos uma comunidade de direito, onde o direito é primordial para a construção europeia. É preciso evitar que desse debate surja uma clivagem excessiva entre os vários países. Estou a falar dos valores da liberdade, da solidariedade. É importante que haja uma convergência da interpretação desses valores na esfera nacional.", avisa João Vale de Almeida.

Estamos a falar do crescimento da extrema-direita e dos extremismos? "Estamos a falar disso, estamos também a falar de atuações nacionais que podem estar, digamos, na margem da legalidade europeia e que é preciso acautelar". Exemplos? O embaixador remete para os "vários casos que têm processos e infrações em Bruxelas e que tem a ver com essa interpretação das regras comunitárias. É importante que os mecanismos jurídicos e políticos sejam acionados, mas que se evite grandes clivagens".

"A pior coisa que poderia acontecer, agora pós Afeganistão, seriam clivagens internas", conclui.

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