Erdogan desvia fracasso militar contra Estados Unidos

O regime turco aproveitou uma frase do Departamento de Estado para acusar norte-americanos de apoiar grupo terrorista curdo.

Se o diabo está nos detalhes, a diplomacia está cheia de diabretes. Um comunicado do Departamento de Estado norte-americano a lamentar a morte de 13 militares turcos causou uma tempestade em Ancara e o presidente Recep Tayyip Erdogan não perdeu a oportunidade para desviar as atenções do fiasco militar e ao mesmo tempo de voltar a mostrar algum ascendente, após uma acalmia nos tempos mais recentes, quer perante Washington, quer perante Bruxelas.

A operação de libertação de 13 militares, agentes dos serviços secretos e polícias turcos de uma cave no norte do Iraque, que decorreu algures durante a semana passada, saldou-se na morte de todos os cativos, bem como de três soldados que participaram na operação de resgate.

A maior parte tinha sido raptada em 2015, na sequência do fim unilateral, por parte de Ancara, da trégua de dois anos com o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, organização considerada terrorista pela Turquia, UE e EUA). Nessa altura, o então primeiro-ministro Erdogan disse que não faria sentido combater o Estado Islâmico e não o PKK (apesar de não ter combatido o primeiro) e iniciou uma campanha repressiva contra os curdos, incluindo os curdos sírios do PYD, aliados dos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico.

No domingo, o PKK não negou a morte dos prisioneiros, mas atribuiu a responsabilidade às forças armadas turcas por terem iniciado um ataque e que a morte dos turcos resultou da troca de tiros entre os guerrilheiros e os soldados. Já o Ministério da Defesa turco disse que os corpos foram encontrados executados com um tiro na cabeça, exceto um, que teria sido baleado no ombro. Disse também que a operação na cidade iraquiana de Dahuk resultou na morte ou prisão de dezenas de militantes curdos.

"Se os relatos da morte de civis turcos às mãos do PKK, uma organização designada terrorista, forem confirmados, condenamos esta ação com toda a veemência possível", reagiu no domingo o Departamento de Estado norte-americano. A formulação do comunicado deixou Erdogan em fúria.

"Se os relatos da morte de civis turcos às mãos do PKK, uma organização designada terrorista, forem confirmados, condenamos esta ação com toda a veemência possível"

O embaixador David Satterfield foi chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Ancara para ouvir o descontentamento com a dúvida de Washington sobre a versão turca dos acontecimentos. Como é do seu timbre, Erdogan não ficou pelos canais diplomáticos, ao qualificar de "farsa" a resposta norte-americana. "Disseram que não apoiavam os terroristas, quando na realidade estão do lado deles e por detrás deles."

O presidente turco, que não perdeu tempo a ordenar a prisão de mais de 700 pessoas, tirou partido do incidente, que ameaça agravar as tensões no Iraque e na Síria, e as relações de Erdogan com Biden, de quem está à espera de um telefonema. "Se vamos estar juntos na NATO, devem ser sinceros". Não devem estar do lado dos terroristas", disse Erdogan, pressionando os EUA a acabarem com a aliança com o PYD.

Horas depois, o secretário de Estado Antony Blinken falou com o homólogo Mevlut Cavusoglu, e o Departamento de Estado emendou a mão, ao responsabilizar os "terroristas do PKK" pela morte dos 13 turcos.

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