Contagem decrescente para evitar promessas "vazias" na COP26

"Ainda há muito trabalho para fazer e o tempo está a esgotar-se", disse ontem o presidente da cimeira de Glasgow, lembrando que ainda não há acordo entre todos em matérias como financiamento ou o mercado de carbono.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse ontem que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius está "ligada às máquinas", defendendo contudo que "até ao último momento é preciso manter a esperança" num acordo que vá além dos mínimos. "Os anúncios aqui em Glasgow são encorajadores, mas estão longe de ser suficientes", afirmou Guterres na Cimeira do Clima (COP26), avisando que as "promessas soam vazias quando a indústria dos combustíveis fósseis ainda recebe biliões em subsídios".

No papel, a COP26 termina nesta sexta-feira, mas no passado estas cimeiras prolongaram-se pelo fim de semana por causa da necessidade de mais negociações para conseguir um acordo sobre a resolução final. Depois de este encontro de Glasgow ter sido apontado como a "última oportunidade" para impedir que o aquecimento global atinja níveis catastróficos, o facto de as promessas até agora ficarem aquém do desejado poderá significar que é preciso mais tempo. O Acordo de Paris estabelece a meta de um aquecimento global abaixo dos 2º C, de preferência até 1,5º C. Atualmente, a temperatura já está 1,1º C acima dos níveis pré-industriais e as atuais promessas de cortes dos diferentes países apontam para que esta possa chegar aos 2,7º C ou 2,4º C. À partida para a cimeira, defendia-se que os compromissos assumidos deviam ir ao encontro da meta dos 1,5º C.

As negociações podem ter de ser prolongadas para lá do previsto também por causa da surpresa de última hora, que foi o acordo anunciado na quarta-feira entre os EUA e a China - que juntos serão responsáveis por 40% das emissões mundiais de gases com efeito estufa. Washington e Pequim, num acordo saudado por Bruxelas e por Guterres, comprometeram-se a fortalecer o seu plano de ação climática nesta década que qualificaram de "decisiva", incluindo reduzir as emissões de metano e a luta contra a desflorestação ilegal. Na prática os dois países prometem colaborar para lutar mais rapidamente e com mais força contra o aquecimento global. "É um primeiro passo no qual nos podemos apoiar", disse o enviado especial para o clima norte-americano, John Kerry, reiterando que nesta área só a "cooperação" importa.

Ações imediatas

No palco em que Guterres falou, a jovem ativista do Uganda, Vanessa Nakate, lamentou que nas 25 cimeiras anteriores tenha havido promessas e compromissos, mas as emissões continuem a subir. "As promessas não travam o sofrimento das pessoas. Só ações imediatas e drásticas podem puxar-nos do abismo", afirmou, implorando aos líderes que provem que os ativistas estão errados em estar pessimistas. "Deus nos ajude a todos se vocês não conseguirem provar que estamos errados", disse.

Na COP26 foram anunciados acordos no corte das emissões de metano ou na desflorestação. Mas Guterres, que se mostrou inspirado pela mobilização dos jovens e da sociedade civil, lembrou que "as promessas soam vazias quando a indústria de combustíveis fósseis ainda recebe biliões em subsídios ou quando os países ainda estão a construir centrais a carvão". O secretário-geral da ONU defendeu que os governos precisam de "acelerar o passo e mostrar a ambição necessária", porque o mundo "não se pode contentar" com o mínimo denominador comum.

O problema é que nas COP as decisões são tomadas por consenso das quase 200 partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Alterações Climáticas. "Embora tenhamos progredido, e eu reconheço o espírito de cooperação e civismo demonstrado ao longo das negociações, ainda não nos entendemos nas questões mais críticas", afirmou ontem o presidente da cimeira de Glasgow, Alok Sharma. "Ainda há muito trabalho para fazer e o tempo está a esgotar-se", avisou, lembrando que ainda não há consenso sobre o financiamento climático (os países ricos prometeram há 12 anos garantir 100 mil milhões de dólares para ajudar os países pobres a lidar com as alterações climáticas e ainda estão longe desse objetivo) ou os mercados de carbono e o seu papel no corte das emissões - um tema que já levou ao fracasso da COP25, que decorreu em Madrid em 2019.

No meio de todas estas discussões, Portugal assinou ontem dois compromissos. Um deles com quatro países europeus que defendem que a energia nuclear não deve ser incluída nas fontes energéticas sustentáveis da União Europeia, deixando por isso de receber financiamento. O outro passa pelo fim da exploração do petróleo e do gás natural (que na realidade nunca avançou em Portugal), sendo uma proposta da Dinamarca, um dos maiores produtores europeus.

susana.f.salvador@dn.pt

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