Bruxelas não quer repetir crise migratória e prepara-se para abrir os cordões à bolsa

Reuniões a 27 para resposta a uma voz ao previsível fluxo migratório proveniente do Afeganistão.

Na primeira de três reuniões ministeriais agendadas para esta semana, os ministros da Administração Interna encontram-se esta terça-feira em Bruxelas para alinhar uma posição comum sobre o Afeganistão. Objetivo: impedir um novo fluxo migratório como o de 2015, quando mais de um milhão de refugiados e migrantes entraram no bloco europeu em consequência do agravamento da guerra na Síria, crise humana que desencadeou um agravar de tensões não só entre os Estados membros, mas também a nível interno. "Com base nas lições aprendidas, a UE e os seus estados-membros estão determinados a agir conjuntamente para evitar a repetição de movimentos migratórios ilegais em larga escala e descontrolados enfrentados no passado, preparando uma resposta coordenada e ordeira", lê-se no documento preparado para a reunião.

O texto também aborda as preocupações de segurança, ao declarar que os Estados membros "farão o seu melhor para assegurar que a situação no Afeganistão não conduza a novas ameaças à segurança dos cidadãos da UE", o que incluirá a partilha de informações e controlos de segurança sobre os refugiados acolhidos.

Ou seja, há indicações de que os países querem receber, mas não em números maciços, e em segurança, refugiados afegãos, por um lado; por outro, a UE quer repetir o acordo celebrado com Ancara, no qual financiou a manutenção de cerca de quatro milhões de refugiados sírios em território turco, e que permitiu a Recep Tayyip Erdogan manter uma poderosa moeda de troca, como se viu em fevereiro de 2020 na crise de migrantes na fronteira da Grécia com a Turquia, instigada por Ancara.

Em entrevista, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, também anteviu um acordo com os países fronteiros ao Afeganistão, ao dizer que a União Europeia tem de "aumentar a cooperação com os países vizinhos para resolver questões relacionadas com o Afeganistão. Temos de os ajudar com a primeira vaga de refugiados", afirmou ao Corriere della Sera. "Os afegãos que fogem do país não vão chegar a Roma em primeiro lugar, mas talvez a Tasquente [Usbequistão]. Temos de ajudar os países que vão estar na linha da frente", disse o dirigente catalão ao jornal italiano. "Os países vizinhos serão afetados mais e mais cedo do que a Europa. Portanto, sim: isso significa também dar apoio financeiro a esses países, tal como fizemos com a Turquia."

Aceitar a responsabilidade

Na entrevista, Borrell disse ainda que a UE tem de aceitar a quota-parte de responsabilidade na "catástrofe" do Afeganistão. "É um fracasso do mundo ocidental e é uma reviravolta para as relações internacionais (...) Certamente, nós, europeus, partilhamos a nossa parte de responsabilidade. Não podemos considerar que esta foi apenas uma guerra americana", avaliou Borrell.

O alto representante da União Europeia propôs ainda a criação de uma força militar que possa responder a emergências. "A UE deve ser capaz de intervir para proteger os nossos interesses quando os norte-americanos não queiram envolver-se."

A Eslovénia, na presidência rotativa do Conselho da UE, é palco de outras duas reuniões ministeriais sobre o Afeganistão (Defesa, na quarta e quinta-feira, e Negócios Estrangeiros, quinta e sexta).

cesar.avo@dn.pt

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