Biden, o príncipe Salman e as mil e uma noites de Loujain al-Hathloul

A nova administração dos Estados Unidos deu sinais de que não pactua com os abusos de poder do regime saudita. A libertação da ativista é a face visível de uma tendência de abertura de Riade em resposta à pressão do seu aliado.

Ao fim de 1001 dias, a Arábia Saudita libertou na quarta-feira a ativista dos direitos das mulheres Loujain al-Hathloul, o mais recente sinal da monarquia absolutista de que quer apaziguar as relações com o maior aliado, os Estados Unidos.

Joe Biden levou para a Casa Branca e para o Departamento de Estado uma nova política para a região. Apesar de ainda não a ter explicitado quanto ao Irão, para lá da manifestação de vontade em regressar ao acordo nuclear rasgado pelo antecessor, o presidente norte-americano tinha prometido na campanha eleitoral reavaliar as relações com a Arábia Saudita e exigir responsabilidades aos seus dirigentes pela repressão aos seus cidadãos, como pelos abusos na guerra do Iémen.

Loujain al-Hathloul foi presa em maio de 2018, juntamente com outros ativistas, pouco antes do levantamento da interdição que impedia as mulheres sauditas de conduzirem automóveis, uma reforma pela qual tinham estado a fazer campanha. Depois de ter estado em prisão preventiva por vagas acusações de contactos com "entidades hostis", e ao abrigo de uma lei "antiterrorista", foi condenada a 29 de dezembro a cinco anos e oito meses de prisão com uma pena suspensa de dois anos e dez meses, "na condição de não cometer um novo crime no prazo de três anos".

Somado o período já cumprido na prisão, era esperado que fosse libertada até março. "A prisão injusta terminou, mas ela ainda não está livre", lembrou Adam Coogle, diretor -adjunto para o Médio Oriente da Human Rights Watch. "Com al-Hathloul proibida de viajar e ameaçada com mais tempo de prisão se não permanecer em silêncio, a sua provação continua a ser um flagrante aborto da justiça", sentenciou.

Em entrevista à Time no ano passado, a irmã Lina disse que as autoridades sauditas tinham oferecido a libertação de Loujain em troca de negar publicamente que tinha sido sujeita a tortura, ao que a ativista, que também luta pelo fim do sistema que impõe um "guardião" a cada mulher, terá recusado. Na prisão, alegou Lina, a irmã foi sujeita a choques elétricos, waterboarding (simulação de afogamento) e abusos sexuais.

"Ela tinha sido uma importante ativista dos direitos da mulher e libertá-la foi a coisa certa a fazer", disse Joe Biden sobre Loujain al-Hathloul.

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, reforçou a mensagem: "Promover e defender os direitos da mulher e outros direitos humanos nunca deve ser criminalizado."

O caso da ativista de 31 anos, como tantos outros na Arábia Saudita, tinha sido alvo de campanhas de organizações como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch, bem como de outros países como o Canadá, mas os quatro anos de Donald Trump na presidência equivaleram a um cheque em branco ao príncipe herdeiro e ditador de facto Mohammed Bin Salman (MBS).

O príncipe, que desde 2017 tem tomado as rédeas do poder com anúncios de modernização da Arábia Saudita, mas na prática com com tímidas mudanças, deixou claro que as únicas reformas permitidas eram as da sua autoria. Não deu espaço a qualquer oposição, como foi visto com o aprisionamento de luxo num hotel de familiares e outros homens da elite, ou com o caso do assassínio e desmembramento de Jamal Khashoggi no consulado de Istambul, perante a impassividade de Donald Trump e da comunidade internacional.

"Claro que a situação da Arábia Saudita está intimamente ligada ao que se passa nos Estados Unidos", disse a irmã de Loujain, Alia

"Claro que a situação da Arábia Saudita está intimamente ligada ao que se passa nos Estados Unidos", disse a irmã de al-Hathloul, Alia, radicada em Bruxelas como a outra irmã, Lina. Nas redes sociais, ambas mostraram fotografias de uma sorridente mas fragilizada e envelhecida Loujain. Aos jornalistas, Alia disse que a chegada de Biden à presidência tinha "contribuído muito" para a libertação da irmã. "Eu diria até, obrigada, senhor presidente", declarou na conferência de imprensa virtual.

À mudança de protagonistas em Washington, Riade tem estado a dar sinais de flexibilidade para tentar manter as boas relações com os Estados Unidos. Isso já foi visível na sentença de Loujain e dias depois um tribunal reduziu a pena de prisão de Walid Fitaihi, um cidadão saudita-americano que fundou um hospital. No início deste mês, dois outros cidadãos com dupla nacionalidade, Salah al-Haider, filho de uma ativista presa ao mesmo tempo que Loujain, e o médico e escritor Bader al-Ibrahim, foram libertados da prisão, aguardando julgamento.

Também três jovens da minoria xiita, presos em 2012 durante as manifestações da Primavera Árabe, e que haviam sido condenados à morte, viram as penas serem comutadas para dez anos de prisão, pelo que deverão ser libertados no próximo ano. Beneficiam de uma moratória à pena capital para crimes não violentos e também de uma alteração na lei que deixa de prever a morte de menores em crimes menores. MBS anunciou na segunda-feira uma reforma judicial que irá "contribuir para a previsibilidade das decisões". Dizem os críticos que poderá limitar os poderes das autoridades religiosas, mas não da família real.

No mês passado, a Arábia Saudita deu um sinal de distensão com o vizinho Qatar, ao reabrir as suas fronteiras e o seu espaço aéreo após o encerramento em 2017, resultado do aprofundamento de rivalidades sobre política externa. A Arábia Saudita deixou cair uma lista de 13 exigências, entre as quais que o Qatar fechasse o canal Al Jazeera e suas relações com o Irão.

No entanto, há quem não espere nada de novo da casa de Saud. "A Arábia Saudita é um regime autoritário que baseou o seu governo - e o acordo que fez com os extremistas para permanecer no poder - na supressão das mulheres", comenta Ghada Oueiss. A pivô da Al Jazeera interpôs um processo contra os mais altos dirigentes da Arábia e dos Emirados, alegando ser vítima de uma campanha online baseada numa foto que foi roubada do seu telemóvel e manipulada. "MBS e outros líderes da Arábia Saudita sabem que ao levantar as restrições às mulheres libertarão uma força política que não serão capazes de controlar. Não querem ser responsabilizados perante a sua população feminina", disse ao Middle East Monitor.

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