África do Sul perde a consciência moral 

Morreu aos 90 anos o sul-africano que liderou pela palavra e pelo exemplo a luta não violenta contra o regime racista. Frontal, já em democracia o "prisioneiro da esperança" nunca deixou de criticar o poder.

Desmond Tutu, arcebispo emérito anglicano da Cidade do Cabo, Prémio Nobel da Paz em 1984 pela resistência pacífica contra o apartheid, voz livre e poderosa pela justiça racial, morreu aos 90 anos, depois de mais de 20 a lutar contra o cancro. Um coro de líderes mundiais lamentou o falecimento e teceu loas a este homem carismático que se intitulava um "prisioneiro da esperança", mas dois exemplos de 1985 falarão melhor do que os elogios fúnebres.

Certa vez, durante um funeral de quatro jovens a leste de Joanesburgo, Tutu e um outro clérigo anglicano salvaram da morte certa um homem que a multidão havia identificado como um polícia disfarçado. Tinha sido retirado do seu carro, que entretanto estava a arder e preparavam-se para arrastá-lo para o topo do veículo e fazer uma pira em vingança pelas quatro mortes. Noutra ocasião em que não pôde intervir e que acabou com o assassínio de um alegado informador da polícia, advertiu: "Se fizerem isto novamente terei dificuldade em falar pela nossa libertação. Temos de ser capazes, no final do dia, de caminhar de cabeça erguida. A liberdade tem de vir, mas a liberdade tem de vir no caminho certo."

Em 2018, retirado da vida pública, recebeu o novo presidente Cyril Ramaphosa, e advertiu-o e aos colegas de governo sobre as promessas vãs.

Quando a liberdade veio, Tutu cedeu o palco a Nelson Mandela e aos outros dirigentes do ANC, embora mais tarde tenha voltado a ter um papel central no pós-apartheid, ao liderar a Comissão da Verdade e Reconciliação. Tão franco e direto quanto de sorriso contagiante, defendeu outras causas como a palestiniana ou tibetana. E nunca deixou de criticar o poder instituído, ao ponto de escandalizar muitos ao afirmar em 2011 que a presidência de Jacob Zuma era "pior do que o apartheid, porque com o apartheid sabia-se o que esperar". Um alerta que, à luz do que se sabe hoje sobre o ex-presidente condenado, ganha outros contornos.

Foi o atual presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, quem transmitiu a notícia ao mundo: "A morte do arcebispo emérito Desmond Tutu é outro capítulo de luto na despedida da nossa nação a uma geração de eminentes sul-africanos que nos legaram uma África do Sul libertada", em referência a Nelson Mandela e a Frederik De Klerk, este último que morreu em novembro.

Quando Ramaphosa sucedeu em 2018 a Zuma, dirigiu-se aos sul-africanos declarando ter chegado um "novo amanhecer". Tempos depois, quando Tutu o recebeu em casa, avisou-o: "Saiba que rezamos regularmente por si e pelos seus colegas para que este não seja um falso amanhecer." Ramaphosa disse que Desmond Tutu era um homem de "intelecto extraordinário, integridade e invencibilidade contra as forças do apartheid".

Nas horas seguintes, a catedral de São Jorge, na Cidade do Cabo, foi local de visita de muitos que quiseram prestar uma última homenagem. "Libertámo-nos graças a ele. Se não fosse ele, provavelmente ter-nos-íamos perdido como país. Ele era apenas bom", disse à AFP a enfermeira reformada Miriam Mokwadi.

Para Barack Obama, que enquanto presidente dos EUA o agraciou em 2009 com a medalha da Liberdade, Tutu era uma "bússola moral". "Um espírito universal, o arcebispo Tutu estava alicerçado na luta pela libertação e justiça no seu próprio país, mas também preocupado com a injustiça em todo o lado", disse Obama numa declaração. O atual presidente norte-americano também reagiu numa declaração em que se afirmou de "coração partido" pela morte de Tutu, um homem de "coragem e clareza moral".

Em Portugal, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o arcebispo emérito é "uma das grandes figuras do século XX" ao ter liderado marchas pacíficas que "mudaram mentalidades e tocaram fundo as consciências internacionais", enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva o classificou de "herói contemporâneo da humanidade".

Um gesto inspirador

Filho de um professor e de uma lavadeira, Desmond Mpilo Tutu nasceu a 7 de outubro de 1931 em Klerksdorp, uma cidade mineira no Transvaal, mas a família mudou-se para Joanesburgo quando tinha 12 anos. Tutu escolheu estudar para o sacerdócio anglicano, inspirado pelo bispo inglês Trevor Huddleston, que um dia tirou o chapéu quando se cruzou com a sua mãe na rua. "Não podia acreditar nos meus olhos. Um homem branco que cumprimentou uma mulher negra da classe trabalhadora", disse ao Washington Post. O seu sonho era tornar-se médico depois de sobreviver a uma tuberculose, mas a família não tinha dinheiro. Quando Desmond esteve hospitalizado com tuberculose, o padre Huddleston, um ativista contra o apartheid que o visitou quase todos os dias. "Este rapazinho podia muito bem ter morrido, mas não desistiu e nunca perdeu o seu glorioso sentido de humor", contou ao Washington Post.

Antes de seguir a via eclesiástica - que o levou a estudar no King"s College de Londres - , formara-se na Universidade da África do Sul em 1954, e chegou a ensinar na escola secundária, mas abandonou o ensino após o governo racista ter aprovado uma lei que impedia os autóctones a frequentar as melhores escolas.

Foi nomeado o primeiro decano anglicano negro de Joanesburgo em 1975, bispo de Lesoto um ano mais tarde e secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas em 1978. Neste cargo foi um porta-voz para a igualdade racial e a resistência não violenta. O seu escritório no centro de Joanesburgo tornou-se no ponto central do movimento de libertação, tendo o seu reconhecimento internacional, através do Prémio Nobel da Paz, sido ao mesmo tempo uma estocada mortal no regime.

Em discurso direto

"Preparei-me para a minha morte e deixei claro que não desejo ser mantido vivo a todo o custo (...) As pessoas em vias de morrer devem ter o direito de escolher como e quando deixam a Mãe Terra."

"Sê simpático para com os brancos, eles precisam de ti para redescobrir a sua humanidade."

"Eu não adoraria um Deus que é homofóbico e é isso que sinto profundamente em relação a isto. Recusar-me-ia a ir para um paraíso homofóbico."

"Dou grandes graças a Deus por ele ter criado um Dalai Lama. Pensam realmente, como alguns têm argumentado, que Deus estará a dizer: "Sabem, aquele tipo, o Dalai Lama, não é mau. Que pena que ele não seja cristão"? Não creio que seja esse o caso, porque, sabem, Deus não é cristão."

cesar.avo@dn.pt

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