Saúde Mental e COVID-19, impacto na sociedade e nos profissionais de saúde – dois olhares

São os rastos que a pandemia deixou em todos nós: depressão, ansiedade, PTSD. Os psiquiatras Maria João Heitor e Pedro Morgado analisam o peso do confinamento e da incerteza na saúde mental dos portugueses.

A pandemia COVID-19 é uma emergência global de saúde pública que forçou uma alteração abrupta no modo de viver das sociedades. Em poucas semanas, o mundo viu-se obrigado a adotar medidas que incluíram confinamento, distanciamento físico, alterações dos hábitos e encerramento de atividades económicas. As pessoas eram confrontadas com notícias e imagens que revelavam a perigosidade de um vírus desconhecido e a sobrecarga e exaustão nos serviços de saúde.

Estas circunstâncias, novas e imprevisíveis, o medo e a incerteza sujeitaram as pessoas a níveis extraordinários de stress que sendo excessivo e prolongado é um fator de risco para o desenvolvimento de doenças mentais como perturbações de ansiedade e depressão, para além das alterações neuropsiquiátricas decorrentes do efeito direto do vírus SARS-CoV-2 no sistema nervoso central.

A evidência científica revela que um número significativo de indivíduos experienciou sintomas ligados ao stress, ansiedade e depressão logo nas fases iniciais da pandemia. Esse sofrimento afetou mais as mulheres, adultos jovens, desempregados, pessoas com doenças crónicas e profissionais de saúde.

Comportamentos saudáveis como a prática regular de exercício físico ou o baixo consumo de notícias sobre a pandemia correlacionaram-se com melhores indicadores de saúde mental neste período.

Se olharmos para uma amostra longitudinal de um mesmo grupo verificamos que houve uma descida relevante na percentagem de pessoas que reportaram sintomatologia de ansiedade e/ou depressão moderada a grave, seja em profissionais de saúde, seja na população geral, eventualmente pelo potencial efeito de adaptação ao contexto pandémico. Assistiu-se, também, a uma diminuição das queixas compatíveis com perturbação de stress pós-traumático (PTSD). Mesmo assim, as percentagens de sintomas reportados em estudos em Portugal são amplamente superiores ao habitual para a ansiedade, depressão e PTSD. Os preditores de sofrimento psicológico, comuns aos profissionais de saúde e à população geral, incluem ser mulher e dificuldades na conciliação trabalho-família.

Por outro lado, a manutenção de estilos de vida saudáveis e atividades de lazer, a perceção de acesso a apoio sociofamiliar bem como níveis elevados de resiliência são fatores protetores.

A pandemia e a crise socioeconómica expuseram mais pessoas ao sofrimento psicológico. Isto levou a que a saúde mental saísse da sombra e estivesse na ordem do dia. Esta nova realidade deve convocar a sociedade e os governos para a criação de respostas de mitigação dos fatores que aumentam o risco de desenvolvimento de doenças psiquiátricas. É necessária mais informação, sensibilização e literacia em saúde mental, medidas de promoção, proteção e prevenção, programas de rastreio e deteção precoce de morbilidade psiquiátrica e melhor acesso ao tratamento e reabilitação psicossocial com equipas multidisciplinares. Só assim garantimos que todos e, em particular, os mais vulneráveis possam ultrapassar esta pandemia de uma forma mais serena e saudável.

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