Marcelo Rebelo de Sousa

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Paulo Baldaia

Valha-nos Nossa Senhora da Nazaré

Nós somos bons a reagir, protestar, refilar, remendar, remediar, refazer, improvisar e inventar. Não nos peçam é para prevenir, isso tira o salero à vida. A prevenção não é uma característica portuguesa. Prevenir é evitar que alguma coisa aconteça e, se não vai acontecer, então é melhor não fazer nada. Acontecendo, reagimos, protestamos, refilamos, remendamos, remediamos, refazemos, improvisamos e inventamos. Não nos deixa mais descansados ouvir o segundo na hierarquia do governo, Pedro Siza Vieira, dizer ontem que o governo irá "avaliar melhor onde ocorrem com mais frequência os contágios". Valha-nos Nossa Senhora da Nazaré, padroeira da vila e, provavelmente, das ondas gigantes, como esta que anda a espalhar contágios de norte a sul de Portugal. A esta altura do campeonato, o governo ainda vai "avaliar melhor"? Nesta altura do ano, a praia da Nazaré dá-nos ondas tão grandes que o mar atrai os melhores surfistas do mundo. Na água, apesar do imenso perigo, tudo corre como previsto e com grande profissionalismo. Com a pandemia a atingir recordes todos os dias, o pior é o que se passa em terra, em locais onde as grandes ondas não chegam mas a vista tudo alcança. As imagens não enganam, as ondas são gigantes, as pessoas incumpridoras e a autoridade reativa. Uma sinédoque perfeita para explicar o mar revolto em que vivem as zonas mais urbanas do país. Já sabíamos quando desconfinámos, em abril, que iria haver uma segunda vaga da pandemia. Estava prevista para o inverno, chegou no outono e apanhou-nos como uma onda gigante da Nazaré apanharia os distraídos que entrassem no mar com uma prancha de bodyboard. Sem plano, andamos desorientados a ver o número crescer todos os dias. Para este sábado está marcado um Conselho de Ministros extraordinário, com a covid-19 como tema único, já depois de ontem o executivo ter ouvido os partidos e os parceiros sociais. Esperamos todos que saia dessa reunião um plano para o imediato e para o curto e médio prazo. Até agora, quem tinha a obrigação de organizar a defesa do país andou a apanhar bonés. Sempre a correr atrás do prejuízo, sem saber o que fazer no imediato mas já a testar a paciência dos portugueses, preanunciando um confinamento nos feriados da primeira quinzena de Dezembro, para fazer de conta que no Natal e na passagem do ano estará tudo bem. Por amor da santa, orientem-se! Apostem na prevenção, defendam-se na legalidade para poder a cada momento avançar com as restrições que a realidade impuser. Defendam-se e defendam-nos, criando um catálogo de medidas e os critérios com que elas serão aplicadas. Mas não se esqueçam de que é preciso que as vossas decisões sejam lógicas, coerentes e compreensíveis por todos, porque essa é a única maneira de serem aceites. Não seria mau que o poder político estivesse de novo em comunhão de esforços, unido no discurso e nos propósitos, sem andar permanentemente a medir os ganhos e as perdas da popularidade dos seus principais atores. Ninguém pode falhar, mas é certo que são António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa que estão na crista da onda. Como a onda é grande, convém que não sejam engolidos pela onda. Jornalista

Paulo Baldaia

Ventura agradece a ajuda

Sem ilusões, quando se aproxima uma chuva de milhões e se alteram as regras para gastar mais rapidamente o dinheiro, como já aconteceu em 2008 com a aprovação do Código dos Contratos Públicos, o mais provável é que a urgência no combate à crise seja uma boa desculpa para flexibilizar essas regras e, assim, escancarar as portas à criminalidade. O que pode vir a acontecer não é uma certeza, mas há muito conluio, muita cartelização e muita corrupção a serem investigados e julgados pelo que aconteceu nesse passado recente, e isso serve-nos de aviso quando a história começa a repetir-se.