Berlim

António Araújo

Filide, nome de guerra

Morreu, enfim, rodeada da maior piedade. Deixou expresso que queria ser enterrada na igreja da sua paróquia e, à medida que o fim se aproximava, fez vários legados a instituições religiosas dedicadas à Virgem, para que, quando partisse, lhe rezassem missas pela alma impura. Na penúltima cláusula do testamento, atestado por um notário diligente, ordenou que um quinto dos seus bens fosse deixado às Convertidas (assim se chamavam aquelas que largavam o meretrício e a má vida) e o facto é tanto mais curioso quanto fora junto à casa dessa irmandade, encostada ao muro, que, durante anos, vendera o corpo em mortal pecado.

António Araújo

Um pedaço de Bacon (1)

Quando a Irmã Mercedes lhe fechou os olhos, na Clínica Ruber de Madrid, ignorava por certo o que aquele homem dissera anos antes sobre alguém que, como ele, partira para o outro mundo aos braços de uma freira. "Morreu num hospício de Málaga, tratada por umas irmãzinhas católicas... haverá coisa mais horrível do que essa?", perguntara ele ao falar da morte de Jane, mulher do escritor Paul Bowles, que conhecera em Tânger, nos anos de maior loucura, os anos em que por um triz não perdera a vida na voragem da violência e do excesso. O seu amante da altura, talvez o amor maior de toda a sua vida, acabou por morrer lá, devastado pelo álcool e pelas dívidas. Bebia três garrafas de whisky por dia, numa vertigem suicidária, e ele soube-o morto quando, no dia da inauguração de uma exposição sua na Tate, poucas horas antes da abertura, recebeu um telegrama de Marrocos com a notícia mais que esperada.