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Rogério Casanova

Sete filmes de terror para a noite de Halloween

Desde os tempos de Platão que a humanidade se interroga filosoficamente sobre uma questão estruturante: o que é que acontece aos protocolos da ordem social num contexto em que o ser humano consome fungos parasíticos que o transformam gradualmente num cogumelo monstruoso? Matango é a resposta mais pertinente que conseguimos desenvolver até agora. O filme é realizado por Ishiro Honda, co-criador das iterações clássicas de Godzilla, e o espectador desprevenido pode precipitar-se a concluir que um filme de terror oriental sobre cogumelos gigantes será mais um tratamento metafórico da bomba atómica, mas Matango está muito menos interessado nos efeitos da radiação do que nos efeitos de uma toxicodependência que externaliza os piores impulsos dos protagonistas. Adaptação livre de um conto de William Hope Hodgson, o guião mais parece uma variação sobre O Senhor das Moscas, em que os habitantes da ilha paradisíaca são promovidos de crianças a arquétipos adultos (o Empresário, o Artista, a Femme Fatale, etc.), que revertem a um estado primordial quando a sua dieta é reduzida. Poucos filmes tiveram a coragem de sugerir que os verdadeiros monstros talvez sejam as pessoas que decidem comer cogumelos.

Ruy Castro

Ficção sobre cascas de banana

O novo romance de Mario Vargas Llosa, Tempos Duros, traz mais uma contribuição à coleção de disparates em torno de Carmen Miranda. A querida Carmen, brasileira de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto e palcos do Rio de Janeiro, continua sujeita a delírios biográficos. É como se a sua exuberância como artista e como pessoa autorizasse os escritores a criar fantasias à sua volta, sem nenhuma comprovação factual. Sei disso porque, nos cinco anos que lhe dediquei para escrever meu livro Carmen - Uma Biografia, publicado em 2005, o maior trabalho foi para desbastar as invencionices e lendas que investigadores imaginativos teceram sobre ela. A de Vargas Llosa é apenas a mais recente, e não das mais brilhantes.