O luso-americano que mais longe foi na política dos Estados Unidos

Grande angariador de fundos para o Partido Democrata, chefe da bancada da maioria na Câmara dos Representantes na década de 1980, coordenador da campanha presidencial de Al Gore em 2000. O currículo político de Tony Coelho impressiona

Em 2020 celebram-se os 30 anos da votação da Americans with Disabilities Act, a lei que garante direitos aos deficientes nos Estados Unidos, e numa recente edição a revista Forbes entrevistou o antigo congressista da Califórnia que a propôs, o luso-americano Tony Coelho. Aos 78 anos, aquele que continua a ter fama de ser o mais bem-sucedido político oriundo da comunidade portuguesa é agora administrador da AudioEye, empresa que quer tornar acessível o mundo digital aos deficientes, e a insistência de Coelho nesta causa tem que ver com o facto de sofrer de epilepsia desde jovem.

Grande angariador de fundos para o Partido Democrata, chefe da bancada da maioria na Câmara dos Representantes na década de 1990, coordenador da campanha presidencial de Al Gore em 2000. O currículo político de Coelho impressiona, mas houve um momento, quando tinha 22 anos, em que pensou que a sua vida não teria horizontes: foi quando um médico diagnosticou como epilepsia os desmaios surgidos após um acidente de automóvel na adolescência e o candidato a padre percebeu logo que a Igreja Católica nunca o aceitaria (era o que dizia a lei canónica).

Nascido em Los Banos, filho de Otto e Alice Branco Coelho, donos de uma pequena quinta onde produziam laticínios, Anthony Lee Coelho tem avôs portugueses e sempre se sentiu à vontade na numerosa e próspera comunidade existente na Califórnia. Estudou na Loyola Marymount dos jesuítas em Los Angeles e tornou-se no primeiro da família a frequentar a universidade. Isso permitiu que o fim do sonho de ser padre não fosse afinal o impedimento para se revelar noutras áreas. E uma sequência de acontecimentos fortuitos conduziu-o à política: um amigo jesuíta apresentou-o ao comediante Bob Hope, Coelho tornou-se quase parte da família de um dos mais famosos atores da época e este pô-lo em contacto com o congressista Bernie Sisk. Que, por sua vez, fez do luso-americano seu assistente durante uma década e, nas eleições intercalares de 1978, o seu sucessor no 15.º distrito da Califórnia. O voto dos portugueses ajudou um pouco, mas só por si está longe de explicar cinco reeleições sucessivas para a Câmara dos Representantes.

"Tony Coelho teve um grande impacto na comunidade de origem portuguesa, particularmente aqui no centro da Califórnia e a nível do país. A entrada dele na política nacional americana foi importante para vários outros luso-americanos que o seguiram, quer no partido democrático quer mesmo no partido republicano. Ele soube fazer coligações com outros grupos étnicos, criando pontes entre a nossa comunidade e outras comunidades, levando-o a ser eleito para cinco mandatos consecutivos para o Congresso. O trabalho inovador dele, de dar ênfase à agricultura, lavrou terreno para outros políticos no centro da Califórnia onde os portugueses e luso-americanos têm tido alguma pujança. Tony Coelho despertou na comunidade de origem portuguesa da Califórnia a necessidade de termos uma voz a nível nacional. Desde a sua eleição em 1978 para o Congresso que os lusodescendentes têm tido presença, pelo estado da Califórnia, no Congresso americano", conta Diniz Borges, académico que conhece bem o antigo político. O republicano Devin Nunes e o democrata Jim Costa, ambos da Califórnia, são os dois lusodescendentes na Câmara dos Representantes atualmente.

"Tony Coelho sempre cultivou a sua ligação com a comunidade de origem portuguesa, maioritariamente açoriana. Falava sempre com muito orgulho das suas raízes e isso no começo da década de 1980, quando tínhamos muitos imigrantes que haviam chegado recentemente dos Açores e foi muito importante para a comunidade", acrescenta Diniz Borges.

Quem também lidou com o congressista luso-americano foi Rui Machete, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, nos tempos em que presidiu à FLAD, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento: "Era uma figura muito cordial, falava português com sotaque americano, e sempre com muito interesse, das relações dos Estados Unidos com Portugal. Nas minhas idas aos Estados Unidos, com a FLAD, a procurar então despertar a comunidade portuguesa para uma maior intervenção cívica, o congressista Tony Coelho era um político incontornável."

Coelho renunciou ao assento de congressista em 1989 por causa de um empréstimo polémico para comprar ações, mas como nunca foi condenado por crime refez a carreira política até um percalço de saúde o ter feito afastar de vez: um tumor no cérebro descoberto quando a partir de um quartel partidário em Nashvillle, no Tennessee, coordenava a campanha do número dois de Bill Clinton para chegar à Casa Branca. Gore acabou por ser derrotado nas presidenciais de 2000.

Visitante regular de Portugal, Coelho, que se casou com Phillys e tem duas filhas, foi nomeado por Clinton como comissário da participação dos Estados Unidos na Expo'98 de Lisboa, dedicada aos oceanos, um deles, o Atlântico, que os seus antepassados tiveram de cruzar para chegar à América.

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