Vivam os partidos

Os nossos partidos tradicionais têm muitos defeitos, cometem muitos erros, estão cheios de pessoas que desconhecem o verdadeiro significado da palavra política, mas têm no geral prestado um bom serviço à comunidade. Pela amostra, os novos não.

No tempo em que não havia redes sociais e os media tradicionais não precisavam de notícias para alimentar os consumidores ao minuto é possível que esta comédia que o Livre pôs em cena tivesse a relevância que de facto tem, ou seja, muito pouca. Confusões, cisões e guerras de alecrim e manjerona em pequenos partidos de esquerda sempre foram um verdadeiro maná para anedotas, mas pouco mais do que isso. Há, porém, algumas lições a retirar desta história. Entre outras coisas, deixa evidente a incompatibilidade entre o que deve ser um verdadeiro partido político e eleições internas para a escolha de candidatos, lembra o que devemos aos partidos tradicionais e permite um balanço inicial sobre o que os novos partidos com representação parlamentar trouxeram ao debate.

Assim, é quase inevitável que um deputado - evidentemente mal preparado e com uma ideia errada do que tem de ser a sua ação - pense que foi a sua agenda que garantiu a sua eleição e despreze a do partido.

Os partidos têm de ser um património de valores e ideias e os seus representantes têm de os exprimir. As eleições internas para a escolha de candidatos, no fundo, substituem esse património pelas convicções de apenas uma pessoa que estará mais ou menos focada nas causas definidoras do partido - no Livre até pessoas que não são filiadas podem candidatar-se a candidatas.

É assim normal que, no caso do Livre e da atual deputada, as chamadas questões identitárias (que, tendo sido desenquadradas, tanto mal fizeram, e fazem, à esquerda e, paradoxalmente, tanto mal farão à direita; é tema para outra altura) tenham um lugar primordial, longe do que é, diga-se em abono da verdade, a história da fundação e património do partido. Assim, é quase inevitável que um deputado - evidentemente mal preparado e com uma ideia errada do que tem de ser a sua ação - pense que foi a sua agenda que garantiu a sua eleição e despreze a do partido.

Habituamo-nos tanto a criticar os partidos tradicionais que nos esquecemos da importância da sua organização interna para o funcionamento regular da democracia. De quanto regras tão simples como o processo de escolha dos candidatos a deputados em função da agenda do partido são vitais para um partido permanecer minimamente homogéneo ou o quão ingovernável um país se tornaria se não existisse disciplina de voto no Parlamento.

As críticas, muitas vezes justas aos partidos (e eu já fiz muitíssimas e estou certo de que continuarei a fazer), fazem-nos, demasiadas vezes, esquecer as suas qualidades de estabilidade de valores e ideias, de preservação de património, de (ainda) algum espaço de debate.

Aliás, algumas das mudanças que, supostamente, visavam abrir mais os partidos e dar mais voz aos militantes não trouxeram qualquer benefício. O caso das eleições diretas para a liderança é um caso evidente de fracasso: reduziu o debate interno, aumentou o caciquismo, semeia dissensões difíceis de sanar, diminui a homogeneidade ideológica.

Que não restem dúvidas, eleições para a escolha de candidatos e o fim da disciplina de voto seria o fim dos partidos como agregadores de ideias, de representantes de valores políticos e de espaços de pluralidade e discussão.

E sim, nós votamos, em primeiro lugar, em partidos e votando neles, também sim, é fundamental que exista disciplina de voto para que aquilo em quem votamos seja respeitado. Sem estabilidade e previsibilidade a política torna-se um mero exercício de diletantismo.

Que não restem dúvidas, eleições para a escolha de candidatos e o fim da disciplina de voto seria o fim dos partidos como agregadores de ideias, de representantes de valores políticos e de espaços de pluralidade e discussão. Seria a implosão do nosso sistema político. Esta história do Livre também serve para olharmos para os novos partidos com representação parlamentar. Os tais que iam trazer um aumento de pluralidade, renovar e falar de temas que interessam às pessoas.

É verdade que é cedo e que ainda estão sob o efeito novidade. Mas o aproveitamento do tempo de antena, que rigorosamente toda a gente lhes está a dar, tem servido somente para mostrar que estão apenas interessados em proclamações indigentes, em afirmações bombásticas e em acender ódios enterrados. Qualquer um dos novos três partidos tudo tem feito para criar o máximo de ruído possível, sem qualquer preocupação em obter plataformas de diálogo para chegar a soluções e nada mais têm feito que levantar bandeiras fáceis, mas profundamente divisíveis, criadoras de trincheiras que são fáceis de construir mas muito difíceis de derrubar.

Já se sabe, é muito mais fácil propor votos para equiparar o nazismo ao comunismo do que trocar propostas sobre o Serviço Nacional de Saúde, fazer sessões no edifício da Assembleia da República sobre o 25 de Novembro do que procurar soluções para os chumbos ou berrar que vivemos num país onde há um assalto em cada esquina do que falar seriamente dos problemas das forças de segurança.

A pulverização de partidos no Parlamento não carrega, por definição, mais pluralismo ou mais democracia e, seguramente, não traz uma procura mais eficiente de soluções. Estes concentram-se em proclamações para arregimentar descontentes ou em causas, como o esquecido PAN, ou em defender interesses de pequenos grupos. Os grandes temas, aqueles que dizem respeito à vida das pessoas, são secundarizados em função de agendas marcadas e radicais. Nem podia ser de outra forma, se por um lado nem têm massa crítica nem o mínimo de solidez ideológica, por outro, e isso é o fundamental, a cultura de diálogo é-lhes estranha. Algo que os grandes partidos, até por terem várias tendências e grupos, acabam por promover.

É a própria essência da democracia que fica em causa. Quem acredita nesse regime acredita também que uma solução negociada é sempre melhor do que uma imposta, mesmo quando parte de nós. Os nossos partidos tradicionais têm muitos defeitos, cometem muitos erros, estão cheios de pessoas que desconhecem o verdadeiro significado da palavra política, mas têm no geral prestado um bom serviço à comunidade. Pela amostra, os novos não.

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