A avestruz, o papão e o diabo

Dos dois debates quinzenais, há uma conclusão que salta à vista: à direita, mantém-se a aposta na estratégia da avestruz, do papão e do diabo. Dito assim, até poderá ter alguma graça e até faz lembrar contos e fábulas. Mas a piada vai-se desvanecendo à medida que nos apercebemos das implicações para a discussão séria sobre assuntos sérios de que o país e os portugueses precisam.

O PSD, no debate sobre o insucesso escolar e até antes, nas questões sobre identidade de género nas escolas, já tinha mostrado a sua vontade de enterrar a cabeça na areia. No debate sobre o insucesso escolar, enfatizou a expressão tóxica do "chumbar o ano" que pressupõe logo à partida uma culpa tão pesada como o metal que lhe deu verbo.

Mais útil do que falar em chumbo ou fracasso, é abordar a retenção como sintoma de algo que é preciso primeiro perceber e depois resolver. Quando se ensina e aprende, o mais complexo é perceber como tornar mais simples o processo pedagógico e didático. Perceber isso nunca será facilitar. Facilitar é fazer como a avestruz e, de rabo de fora e para o ar, pensar com alegria que muitos chumbos acrescentam excelência ao sistema. É pouco legítimo confundir o apoio tutorial específico, como estratégia de promoção do sucesso escolar e iniciado já na anterior legislatura, com uma eliminação administrativa da retenção. O mesmo se aplica à prioridade às escolas inseridas em meios social e economicamente marginalizados.

No debate quinzenal desta semana, foi a vez do papão, que veio sob a forma do imposto sucessório e da questão do englobamento obrigatório de todos os rendimentos na declaração de IRS. Qual será a utilidade de discutir, em sede parlamentar, medidas que não estão no programa de governo, nem estiveram no programa eleitoral, ou hipóteses e conjeturas que só revelam extemporaneidade?

Por fim, "chegou" o diabo para falar de precariedade laboral em gabinetes políticos. Querer criar polémica em torno disto só faz sentido para quem desconhece de facto - ou faz por isso - a realidade laboral, o seu contexto e o seu vínculo formal.

Portugal está efetivamente melhor. Mas há ainda muito a fazer e os 11% de trabalhadores ainda em risco de pobreza alertam-nos para isso. Por isso, temos de abordar problemas sérios de forma séria. É imperativo continuar a melhorar a resposta aos cidadãos por parte do SNS e é necessário elevar o nível de produtividade do nosso país e reforçar a sua base económica. Isso não será possível com discussões estéreis assentes na bandeira partidária. A trajetória do salário mediano e a redução da intensidade e do risco de pobreza demonstraram que há um caminho possível através do diálogo. Sempre que há diálogo, a democracia pula e o nosso país avança. Convém não esquecer.

Deputada do PS

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