A alcachofra

Uma das coisas mais estúpidas de que me convenci ultimamente é que conseguia estar num jantar em Londres na quarta e a dar uma conferência em Saragoça na quinta à hora de almoço. Mas como acontece sempre que me convenço de uma coisa, especialmente se for estúpida, lá teve de se fazer. O conseguir não é aqui relacionado com uma impossibilidade objetiva, porque há aviões e comboios de alta velocidade, mas mais com um conseguimento anímico-subjetivo, de fazer sentido, de não ser um sacrifício demasiado grande tendo em conta o benefício. Mas o pior é que nos meus processos de decisão o sacrifício entra do lado do benefício. Sim, eu sei que há pessoas com quem se pode falar sobre isso e que se costuma resolver, e também sei que a vida de hoje anda mais aberta ao lado do prazer do que da dor, mas também é verdade que não há nada mais aditivo do que fazer coisas difíceis, resolver um problema que mais ninguém consegue, estar em dois sítios ao mesmo tempo, deixar o normal e o aborrecido a quem o merece.

Para tudo correr bem foi preciso deixar Londres pelas quatro e tal da manhã, e apanhar o uber, que também estava cansado, era o fim do turno, e os fins de turno são sempre maus e bons, e falámos sobre isso, ele preocupado que a Uber ia fechar em Londres, apostei com ele que isso não iria acontecer, ele com medo de ter de voltar a limpar cozinhas de restaurantes, tem muito fumo e não se conhece ninguém; atravessar Madrid, chegar a Atocha, de onde em 2004 centenas partiram, vale a pena visitar o memorial, comboio de alta velocidade para Saragoça, paisagem lunar, sair da estação, atravessar autoestradas para a conferência, podia ser o Afeganistão, de onde veio o condutor do uber de Londres, a luz, a pedra na serra, a falta de pessoas nas ruas. Encontrar onde era a conferência, coisas muito simples no papel, muito difíceis no três dê, sobretudo para quem nunca lá foi. A estação chamada Delícias, um ponto de ironia sem piada nenhuma. Na noite antes em Londres, tinha havido delícias no St. John Bread and Wine, mas são delícias em trabalho que nunca são verdadeiras delícias, não se pode estar apenas concentrado na comida, há as parcerias, os projetos comuns, as sinergias, os contactos que se vão fazer, as referências mútuas, pouco espaço para saborear o pato (widgeon) delicioso.

A conferência correu bem, como correm sempre bem as coisas quando se gosta e trabalha e não se é banal. Aquilo que qualquer audiência mais teme é alguém que diga generalidades. E há tanto disso, tanto generalista, generais da banalidade, do aborrecimento, do óbvio, do que toda a gente sabe e se não sabe podia aprender nos programas da tarde das televisões, a morte pelo normal. De volta na autovelocidade, ao lado, uma freira laica a ler sobre espiritualidade e O Senhor dos Anéis, querida e contida.

Mas no fim disto tudo, com uma noite em Madrid pela frente, sem ninguém, o cérebro, que tem muitas fraquezas e que muitas vezes o que quer é menos custo e mais proveito, convenceu-me, e eu convenci-me com ele, de que o que me faltava era carne, um bom chuletón, para saborear sozinho, sem ninguém a chatear, vais comer isso tudo, isso não é gordura a mais, eu preferia a minha parte mais bem passada, só um bocadinho mas mais bem passada. Não. Um chuletón. E lá encontrei perto, bem perto de onde estava, o sítio ideal, um assador basco, moderno. E lá me sentei, preparado para a recompensa merecida. E veio o empregado, um senhor com alguma idade, e começou a explicar que não se podia estar ali sem comer as flores de alcachofra com azeite, e que tinham uma coisa muito boa, que não estava na carta, kokotxas de merluza, que em menos fino é cabeça de pescada. E o chuletón, ali na lista, a olhar para mim, e ele a fazer aquele olhar que os empregados que cuidam de nós sabem fazer, o olhar "olhe que vai melhor com isto". E nem cinco minutos depois, lá estava eu a comer um prato de alcachofras, um dos vegetais mais estúpidos do mundo, sem piada no sabor, com uma textura nheca, que não são leves como os espargos nem pesadas como as couves-de-bruxelas. E na mesa ao lado, um grupo de amigos, muito sonoros, como o espanhol sabe ser (a utilização do singular na caracterização de povos é fundamental para indiciar algum distanciamento), a deliciar-se com o dito chuletón, e eu a acabar as três cabeças de alcachofra, à espera da cabeça da pescada, a só me poder queixar de mim próprio, como aliás se passa sempre em tudo, que isso de atribuir culpas a outros é desporto demasiado fácil. A cabeça da pescada estava deliciosa, mas não posso desenvolver porque estraga um pouco o sentido do texto.

Advogado

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